
Era suposto acontecer em 2027. Depois, talvez no início desse mesmo ano. Mas os números chegaram antes, e até Matthew Prince, CEO e cofundador da Cloudflare, admitiu estar surpreendido, os bots ultrapassaram os humanos no tráfego global da internet, pela primeira vez na história da web.
“Bem, isso aconteceu mais depressa do que previ”, escreveu Prince no X. “Pensava que seria no final de 2027, depois no início de 2027, mas o tráfego agêntico está a crescer tão depressa que os bots ultrapassaram agora o tráfego humano online pela primeira vez na história da internet”.
Os dados mais recentes do Cloudflare Radar, uma ferramenta que monitoriza padrões de tráfego numa fatia significativa da web global, uma vez que a empresa está presente à frente de cerca de um quinto de todos os sites, mostram que 57,5% dos pedidos HTTP são agora gerados por sistemas automatizados, contra 42,5% provenientes de utilizadores humanos. O momento exato em que a linha foi cruzada não é claro; Prince admitiu que os dados são “um pouco confusos”, mas deixou uma certeza: “estamos claramente do outro lado agora”.
O que mudou desta vez
Os bots não são novidade. Há décadas que crawlers de motores de busca, indexadores e ferramentas de monitorização circulam pela web de forma automática. O que mudou foi a escala e o tipo de automação. O salto mais recente vem dos chamados agentes de IA, sistemas autónomos que executam tarefas em nome de utilizadores ou empresas, navegando em dezenas ou centenas de páginas para comparar preços, recolher informação ou executar pesquisas complexas.
A diferença de comportamento é enorme. Onde um humano visita talvez cinco sites antes de decidir comprar um produto, um agente de IA pode percorrer cinco mil. Essa assimetria no volume de pedidos é o principal motor da mudança que os dados da Cloudflare agora refletem.
Prince disse estar “surpreendido com a taxa de crescimento” do tráfego não humano e revelou um pormenor que passa despercebido, “a web encolheu” entre 2015 e 2025. O número de sites ativos terá diminuído nesse período, e ainda assim o volume de tráfego disparou, puxado precisamente pelos agentes automatizados.
A ironia do momento não escapa a quem acompanha a cultura da internet. Em 2021, um utilizador anónimo, com o pseudónimo IlluminatiPirate, publicou um texto com o título “Dead Internet Theory: Most of the Internet is Fake”. A tese era simples e perturbadora, a internet tinha “morrido” algures em 2016 ou 2017, e o que restava era maioritariamente conteúdo gerado por bots, contas falsas e algoritmos, com poucos humanos reais a interagir entre si.
Na altura, foi tratado como mais uma teoria da conspiração. Cinco anos depois, o CEO de uma das maiores empresas de infraestrutura da internet está a confirmar a tendência com os seus próprios dados.
Nem todo o tráfego automatizado tem intenções obscuras. Uma parte considerável destes agentes está a fazer pesquisas de produtos, a comparar voos e hotéis, a ler artigos da Wikipédia ou a executar tarefas de investigação. Mas o facto de existirem, e de existirem em número crescente, levanta questões sérias sobre como a web vai funcionar nos próximos anos.
O crescimento ainda mal começou
A Goldman Sachs prevê um aumento de 24 vezes no consumo global de tokens de IA até 2030, passando dos níveis atuais para 120 quatrilhões de tokens por mês. Nem toda essa capacidade se vai traduzir diretamente em navegação web, já que parte dos agentes trabalha internamente, sem aceder a páginas externas. Mas mesmo que apenas uma fração desse crescimento se reflita em tráfego online, a presença de bots na web vai tornar-se ainda mais pronunciada.
Para os operadores de sites, editoras, retalhistas, redes sociais, isso pode implicar repensar a forma como servem os seus utilizadores. A hipótese de criar duas camadas distintas, uma otimizada para humanos e outra para agentes automatizados, começa a deixar de ser ficção científica para se tornar uma necessidade de engenharia concreta.
O que está em jogo não é apenas uma estatística curiosa. É a questão de saber para quem é, afinal, a internet que estamos a construir.



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