
Brad Smith, presidente da Microsoft, pede regras para a inteligência artificial com carácter de urgência e considera que o Reino Unido está bem colocado para liderar essa discussão, numa altura em que os Estados Unidos continuam a apostar na autorregulação das empresas. As declarações foram feitas numa entrevista à ITV News.
“Neste momento, a IA está menos regulada do que a sua máquina de lavar, está menos regulada do que um pacote de leite“, disse Smith. Na entrevista, o responsável acrescentou: “Cada pacote de leite que se vê no supermercado está sujeito a regras de segurança e a inspeção“. A comparação não é totalmente nova, já em fevereiro de 2024, numa conversa com a Euronews, Smith tinha questionado se a tecnologia mais poderosa do mundo não deveria ter, no mínimo, tanta regulação como um pacote de leite.
Segundo a ITV, Smith afirmou que a IA ficou mais poderosa nos últimos dois anos do que qualquer pessoa da indústria imaginava e que existe o risco de os humanos perderem o controlo da tecnologia se não houver regulação urgente. Ainda assim, a mensagem não foi alarmista: “Penso que o momento de agir é agora. Não considero que [a IA] seja uma ameaça existencial hoje, mas também acredito que a melhor forma de evitar que um problema se agrave é resolvê-lo agora. Não esperemos até que esteja para lá da nossa capacidade de o resolver“.
De acordo com a ITV, entre as medidas que defende estão:
- A obrigação de as empresas divulgarem quando agentes de IA saem do controlo ou quando há utilizadores alvo de ataques informáticos;
- Avaliações independentes e testes de segurança antes do lançamento dos modelos;
- A capacidade de desligar sistemas de IA, com um mecanismo de travagem de emergência, ou disjuntor, ao dispor das empresas de IA e dos fornecedores de servidores;
- Poder para os governos ordenarem que um sistema fique offline, tal como já podem mandar aviões ficar em terra por razões de segurança;
- Responsabilização legal da empresa que desenvolveu a tecnologia, caso esta seja usada para causar danos catastróficos e a empresa tenha agido com negligência.
A entrevista passou também pelo emprego. Smith admite que haverá perda de postos de trabalho com a adoção da IA e que os governos terão de intervir para ajudar as pessoas na transição.
O recado chega de um país onde a linha oficial é outra. O Presidente Donald Trump considera uma farsa as preocupações com os perigos da IA, e Smith evitou criticá-lo em público. Disse mesmo: “O Presidente Trump tem razão ao dizer que não queremos abrandar a inovação“. Mas defendeu a necessidade de “cooperação e colaboração internacionais” para criar salvaguardas e mecanismos de monitorização.
Em setembro, Trump disse à Assembleia Geral da ONU que a sua administração se oporia a “qualquer tentativa de construir um esquema globalista para controlar” a IA. A 29 de setembro, a Casa Branca recebeu os responsáveis de Anthropic, OpenAI, Google, Meta, xAI e Nvidia, que assinaram um acordo voluntário sem força legal. O texto prevê controlos internos, uma equipa dedicada a verificar se funcionam, auditores externos independentes e uma comissão independente do conselho de administração para analisar os resultados.
Para o presidente da Microsoft, a ausência de ação nos Estados Unidos abre uma oportunidade ao Reino Unido. “Em Washington D.C., as pessoas não olham para o Reino Unido e não olham para Londres da forma como olham para Bruxelas — isso é um ponto forte. Espero que seja esse o papel que possamos desempenhar enquanto empresa. Espero que seja esse o papel que o Reino Unido possa desempenhar enquanto país. [Q]uando olhamos para modelos que são tão poderosos que estão a pôr em risco a cibersegurança do mundo, eu diria: o momento chegou“.
O primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, já tinha anunciado, na sua primeira intervenção na Assembleia Geral da ONU, que vai pôr a IA no centro da presidência britânica do G20 em 2027. O objetivo é levar os países a aceitar “um único conjunto de princípios e normas globais” para a transparência e a segurança, com uma cimeira de líderes marcada para Manchester. O governo britânico ainda não se comprometeu com nova legislação nacional sobre IA.








