
No dia 19 de abril de 2026, algo aconteceu em Pequim que dificilmente terá paralelo na história recente da tecnologia, um robô humanoide terminou uma meia maratona mais depressa do que qualquer ser humano alguma vez o fez. O feito coube ao D1, desenvolvido pela HONOR, conhecida sobretudo pelos seus smartphones, e o tempo registado foi de 50 minutos e 26 segundos, batendo o recorde mundial humano de 57:20 estabelecido por Jacob Kiplimo na Meia Maratona de Lisboa, a 8 de março de 2026.
A prova, a segunda edição da Beijing E-Town Half Marathon, decorreu em paralelo com uma corrida humana convencional e contou com mais de 12.000 atletas e mais de 300 robôs de 102 equipas de todo o mundo, quase cinco vezes mais participantes do que na edição inaugural do ano anterior.
De smartphones a robôs de corrida
A HONOR apresentou o D1, apelidado internamente de Lightning (Relâmpago), como resultado direto da transferência de tecnologias desenvolvidas no contexto da indústria móvel. A estrutura do robô, com 169 centímetros de altura e pernas com cerca de 95 centímetros, foi concebida com base no estudo de atletas de elite. O sistema de arrefecimento líquido, um dos elementos mais elogiados pelos especialistas, foi adaptado a partir da engenharia térmica dos seus dispositivos móveis e permite manter os motores em temperatura operacional durante os 21 quilómetros da prova.
Du Xiaodi, engenheiro de desenvolvimento da equipa vencedora, explicou o impacto desta abordagem: “A olhar para o futuro, algumas destas tecnologias poderão ser transferidas para outras áreas. Por exemplo, a fiabilidade estrutural e a tecnologia de arrefecimento líquido poderão ser aplicadas em cenários industriais futuros”.
Para Yanran Ding, professor assistente de robótica na Universidade do Michigan, a maior conquista foi precisamente a gestão térmica. Afirmou: “É muito difícil fazer os robôs correrem de forma robusta durante tanto tempo. A tecnologia dos motores já existia para distâncias curtas, mas se alongarmos o percurso, o arrefecimento é o ponto crítico”.
A comparação com a edição de 2025 é reveladora do ritmo de evolução da área. No ano passado, apenas 6 dos 21 robôs participantes conseguiram chegar à meta, muitos deles a cair ou a deslocar-se de forma descontrolada. O mais rápido, o Tiangong, completou o percurso em 2 horas e 40 minutos. Em 2026, pelo menos quatro robôs ficaram abaixo de 1 hora, e 47 das 102 equipas concluíram a prova.

O que isto realmente significa
Para além das métricas desportivas, a prova serve como demonstração das capacidades atuais da robótica humanoide chinesa. Wang Peng, investigador associado na Academia de Ciências Sociais de Pequim comentou que a melhoria nos tempos reflete “avanços sistémicos nas tecnologias de robôs humanoides chineses, incluindo sistemas de energia, controlo, perceção e tomada de decisão”.
A corrida acontece num momento em que a China aposta fortemente neste setor. O plano quinquenal para 2026-2030 inclui explicitamente robôs humanoides como prioridade nacional, e Pequim tem subsidiado de forma ativa o desenvolvimento destas tecnologias. A China já domina a cadeia de fornecimento de chips de IA, sensores e baterias, e o país tem vindo a organizar sistematicamente eventos desportivos envolvendo robôs ao longo do último ano.
Ma Huaze, capitão de uma das equipas vencedoras da HONOR, resumiu o espírito da participação: “Senti-me muito nervoso. O maior desafio foi ter a coragem de realizar e testar melhorias em grande escala num palco competitivo desta dimensão”.









