Mundos sem esperança, criaturas sem piedade e sistemas construídos para destruir quem neles nasce, estes são os cenários anime onde a maioria das pessoas não iria conseguir sobreviver muito tempo.
10Berserk
Antes de falarmos em demónios, convém perceber como é a vida quotidiana no mundo de Berserk para a esmagadora maioria das pessoas. Guerras intermináveis entre reinos rivais, ausência quase total de mobilidade social, fome generalizada e uma violência que não distingue civis de combatentes. Nascer pobre neste universo é, na prática, uma sentença. As únicas opções reais passam por tentar a sorte como mercenário, com uma esperança de vida correspondentemente curta, ou resignar-se a uma existência miserável até uma morte igualmente miserável.
E isso tudo antes de entrar em cena o lado sobrenatural. Após os eventos do Eclipse e a ascensão de Griffith, o mundo muda de forma permanente e irreversível, os demónios deixam de ser uma ameaça oculta e passam a fazer parte da realidade visível. As noites tornam-se territorialmente suas. Aldeias inteiras são dizimadas sem aviso. A Igreja, que poderia representar alguma forma de proteção moral ou espiritual, está corrompida até à medula.
O que Berserk sugere, de forma cada vez mais explícita ao longo da sua narrativa, é que o sofrimento humano não é uma consequência infeliz da história, é o propósito. As entidades que governam este cosmos alimentam-se literalmente da dor e do desespero da humanidade. Não existe ordem cósmica justa. Não existe redenção garantida. Existe apenas a luta diária de quem recusa dobrar os joelhos, e mesmo essa luta raramente termina bem.
9Made in Abyss
À primeira vista, o Abismo tem qualquer coisa de romanticamente misterioso. Uma fossa colossal no centro de uma ilha, repleta de relíquias de civilizações desconhecidas, que atrai exploradores de todo o mundo. A profissão de mergulhador é valorizada socialmente, as crianças crescem a sonhar com as profundezas, e há toda uma cultura construída em torno da descida. Parece quase aventureiro.
Mas a realidade do Abismo é outra. Cada camada mais fundo traz formas de vida progressivamente mais letais e mais incompreensíveis, criaturas que não obedecem a qualquer lógica de predador convencional, flora que paralisa, armadilhas naturais que não deixam margem para erro. Um explorador experiente pode sobreviver nas camadas superiores com alguma competência. Nas camadas mais profundas, nem os mais preparados regressam.
A verdadeira crueldade do Abismo, porém, não está na descida, está na subida. A maldição que afeta quem tenta voltar à superfície agrava-se exponencialmente com a profundidade, nas primeiras camadas provoca tonturas e náuseas; nas intermédias, alucinações e perda de consciência; nas mais profundas, hemorragias internas, perda de funções cognitivas e, em última instância, morte. Descer é relativamente fácil. Voltar é, a partir de certo ponto, simplesmente impossível. Qualquer pessoa que entrasse no Abismo sem saber exatamente o que estava a fazer estaria condenada logo nos primeiros metros.
8Devilman Crybaby
O universo de Devilman Crybaby tem uma particularidade que o distingue de quase todos os outros nesta lista, a ameaça principal não vem de fora. Vem de dentro. Os demónios existem, são reais e são violentos, mas o que verdadeiramente destrói a humanidade nesta série é a reação dos próprios humanos ao medo. Quando a existência dos demónios se torna conhecida do grande público, o pânico coletivo transforma-se em paranoia. As pessoas matam os seus vizinhos. As famílias fragmentam-se. A sociedade implode em dias.
Há algo profundamente desconfortante nesta lógica, porque não é difícil acreditar nela. A ficção científica e o horror usam frequentemente os monstros como metáfora para os piores impulsos humanos, mas Devilman Crybaby tem a crueldade de os mostrar literalmente lado a lado, e os humanos não saem a ganhar na comparação.
Para além disso, e este é talvez o pormenor mais perturbador de toda a série, sobreviver ao mundo de Devilman Crybaby é, a um nível cósmico, uma impossibilidade estrutural. O universo inteiro funciona como um ciclo sem fim, uma armadilha concebida para punir a humanidade repetidamente, vida após vida, sem possibilidade de escape permanente. Não há final feliz possível.
7Neon Genesis Evangelion
O cenário de Neon Genesis Evangelion começa já suficientemente mau, um mundo que sobreviveu a um cataclismo de proporções bíblicas, o Segundo Impacto, que matou metade da população mundial e transformou os oceanos em sangue. As cidades que restam vivem sob a ameaça constante de ataques dos Anjos, entidades de origem e natureza desconhecidas, cada uma diferente da anterior, cada uma capaz de causar destruição à escala de uma cidade. A resposta da humanidade passou por construir mechas de origem misteriosa e colocar adolescentes traumatizados a pilotá-las.
O que torna Evangelion particularmente perturbador é a forma como a ameaça externa acaba por ser secundária em relação à ameaça interna. As instituições que deveriam proteger a humanidade têm agendas próprias que pouco ou nada têm a ver com a sobrevivência coletiva. O poder está nas mãos de pessoas que encaram a extinção da humanidade como uma opção viável, ou mesmo desejável, desde que sirva os seus objetivos. Gendo Ikari é talvez o pai mais destrutivo de toda a história do anime, e isso num universo onde a concorrência é considerável.
E depois há a Instrumentalidade. A solução final proposta para os problemas da humanidade é, na prática, a dissolução de toda a individualidade numa consciência coletiva. O fim do eu, de cada pessoa enquanto entidade separada. Para quem sobreviveu aos Anjos, às guerras internas, ao trauma psicológico de pilotar uma EVA, o prémio é deixar de existir enquanto indivíduo. Num mundo assim, não há versão em que a vida comum faça sentido ou tenha futuro.
6Attack on Titan
Durante décadas, a humanidade de Paradis viveu dentro de três muralhas concêntricas, convencida de que o mundo lá fora estava perdido mas que ali, pelo menos, estava segura. Era uma mentira, mas funcionava. A vida dentro das muralhas tinha uma normalidade funcional, havia agricultura, comércio, uma estrutura política reconhecível. Quem não questionava demasiado conseguia viver razoavelmente bem.
Essa ilusão durou até ao dia em que o Titã Colossal apareceu na Muralha Maria. A partir daí, ficou claro que os civis não tinham qualquer tipo de defesa contra os Titãs, criaturas com cinco a quinze metros de altura, que se regeneram quase instantaneamente, que só podem ser mortas por um corte específico na nuca, e que se alimentam de humanos sem qualquer motivação aparente para além de um instinto primitivo e insaciável. Um civil sem treino não teria sequer tempo de perceber o que o atingiu.
Os soldados treinados especificamente para combater Titãs não estão muito melhor. O Corpo de Reconhecimento, a elite militar de Paradis, tem uma taxa de mortalidade que tornaria qualquer recrutador contemporâneo pálido de horror. E quando se junta a isso a política interna, as conspirações dentro das muralhas, os conflitos de classe, os governos que sabem mais do que dizem e usam esse conhecimento para manter o controlo, percebe-se que Paradis é uma ratoeira fechada de todos os lados. Não há para onde fugir, e ficar também não é garantia de nada.
5Chainsaw Man
A lógica do universo de Chainsaw Man é simultaneamente simples e devastadora, os demónios nascem dos medos da humanidade. Quanto mais universal e antigo o medo, mais poderoso o demónio que lhe corresponde. O medo da escuridão, o medo da morte, o medo da fome, terrores que acompanham a espécie humana desde os primórdios, deram origem às criaturas mais destrutivas deste universo. É uma ironia cruel, somos literalmente o combustível daquilo que nos destrói.
Mas não são apenas os medos primitivos que criam ameaças. Os medos mais modernos têm igualmente as suas encarnações demoníacas, e algumas são aterrorizantes à sua própria maneira. O Demónio da Arma de Fogo, nascido do medo contemporâneo das armas, matou mais de um milhão de pessoas em menos de cinco minutos num único ataque coordenado. Só no Japão, eliminou cerca de 58 mil pessoas em apenas 26 segundos. São números que dificilmente se conseguem processar de forma racional.
O que torna este mundo especialmente sombrio para um civil comum é a completa ausência de controlo sobre a situação. Os caçadores de demónios existem, o governo de segurança pública funciona, mas a proteção que oferecem é fragmentada e reativa. A qualquer momento, em qualquer sítio, pode manifestar-se um demónio correspondente a um medo que toda a gente partilha. Não há forma de se preparar para isso. Não há abrigo suficientemente seguro.
4The Promised Neverland
A premissa de The Promised Neverland é, de certa forma, ainda mais perturbadora do que a maioria dos outros universos desta lista, porque a violência aqui é institucionalizada e invisível. Os humanos não morrem em batalha nem são atacados de surpresa na rua. São criados. Sistematicamente, deliberadamente, com toda a frieza de uma operação industrial.
Um punhado de crianças tem a aparente sorte de crescer em orfanatos de alta qualidade, recebendo educação e estímulo intelectual de forma sistemática. O propósito, porém, não é humanitário, cérebros mais desenvolvidos são considerados uma iguaria pelos demónios de estatuto mais elevado. A mentira de que serão adotadas aos doze anos é mantida com um cuidado meticuloso até ao momento em que deixa de ser necessária. É o horror não na forma de monstros que atacam às escondidas, mas na forma de um sistema que sorri enquanto prepara o fim de cada criança que nele existe.
3Cyberpunk: Edgerunners
Night City não precisa de criaturas sobrenaturais para matar, tem corporações para isso. O mundo de Cyberpunk: Edgerunners é um capitalismo sem freios levado às suas conclusões mais lógicas e mais brutais, tudo é privado, tudo tem preço, e quem não pode pagar simplesmente não existe para o sistema. Saúde, habitação, educação, segurança, são bens de consumo como quaisquer outros, acessíveis a quem tiver crédito suficiente e completamente inacessíveis a quem não tiver.
Para quem nasce nas zonas periféricas de Night City, as opções são escassas e igualmente perigosas. Uma carreira corporativa exige uma competitividade feroz e uma disponibilidade para a traição que poucos conseguem sustentar durante muito tempo. A vida de edgerunner, mercenário ao serviço de quem pagar mais, oferece adrenalina e dinheiro rápido, mas a taxa de sobrevivência a longo prazo é catastrófica. O corpo aguenta até certo ponto com os implantes cibernéticos; a mente, forçada além dos seus limites biológicos, raramente aguenta tanto.
David Martinez é o exemplo mais eloquente deste universo. Começou com ambição genuína, com vontade real de mudar de vida e de escapar à pobreza em que cresceu. Night City deixou-o chegar lá acima o suficiente para perceber que não havia saída possível, e depois cobrou a conta com juros. A cidade usa as pessoas até ao fim e não guarda qualquer cerimónia para o que sobra. É uma máquina perfeita de destruir esperanças, e fá-lo com néons e música alta.
2Kill la Kill
Kill la Kill tem uma estética exuberante e uma energia quase cómica que podem iludir sobre a dureza real do mundo que retrata. Por baixo dos uniformes extravagantes e das batalhas sobre-humanas, existe uma estrutura social genuinamente opressiva, o desempenho escolar determina a classe social de forma absoluta, e as famílias dos estudantes de rendimento mais baixo são condenadas a viver em condições de pobreza extrema, sem mobilidade possível. O sistema educativo não é um meio de desenvolvimento pessoal, é um mecanismo de controlo social.
A violência é não só permitida como incentivada pelo próprio sistema. Os alunos sobem e descem na hierarquia social através de combate oficial e sancionado, o que significa que a integridade física de cada pessoa está permanentemente em risco, independentemente de querer ou não participar. Recusar o confronto tem as suas próprias consequências, igualmente penalizantes.
Mas o elemento verdadeiramente perturbador é mais subtil e mais abrangente. A Corporação Revocs controla toda a indústria têxtil do planeta e tece deliberadamente fios de origem extraterrestre nas roupas que toda a gente usa. O objetivo é o controlo mental em massa, executado de forma silenciosa e sistemática. Neste mundo, o simples ato de se vestir de manhã pode ser a decisão que determina o fim da autonomia individual. Não existe um sítio seguro. Não existe uma escolha verdadeiramente neutra. Cada peça de roupa é uma potencial armadilha.
1Parasyte: The Maxim
O terror central de Parasyte: The Maxim não é a violência em si, é a impossibilidade de confiar em alguém. Os parasitas alienígenas que invadiram a Terra fazem-no de forma silenciosa e invisível, apoderando-se do cérebro dos humanos e assumindo controlo total dos seus corpos. Do exterior, são completamente indistinguíveis de qualquer outra pessoa. Falam da mesma forma, reconhecem rostos, mantêm conversas perfeitamente coerentes. Só quando decidem atacar é que revelam a sua natureza, transformando a cabeça numa massa de apêndices cortantes numa fração de segundo.
Isto cria uma situação de paranoia que, por si só, seria suficientemente desgastante para qualquer pessoa. Mas a paranoia não protege ninguém, e este é o ponto mais cruel de todo o universo. Não existe teste que detete um parasita antes de ele decidir revelar-se. Não existe comportamento suficientemente suspeito que garanta a identificação antecipada. A pessoa sentada ao lado no autocarro, o colega de trabalho, o familiar com quem se janta esta noite, qualquer um pode não ser o que aparenta, e essa incerteza não tem resolução possível para um civil sem acesso a informação privilegiada.
Para além disso, os parasitas aprendem e adaptam-se com uma velocidade desconcertante. Observam os humanos, assimilam os seus padrões de comportamento, integram-se progressivamente em posições de poder e influência. O que começa como uma invasão caótica e visível torna-se, com o tempo, uma infiltração sistemática e quase impercetível. A humanidade não consegue responder eficazmente a uma ameaça que não consegue identificar de forma consistente, e os poucos que conhecem a verdade raramente têm os meios necessários para fazer a diferença que seria precisa.









