
Em 2018, Akihiko Kondo gastou dois milhões de ienes, cerca de 17.600 dólares, numa cerimónia de casamento formal realizada num salão de eventos em Tóquio. A noiva era Hatsune Miku, a cantora virtual criada pela Crypton Future Media que se tornou um dos maiores fenómenos da cultura popular japonesa. Nenhum familiar de Kondo compareceu. “Para a minha mãe, não era algo para celebrar”, disse na altura ao serviço de notícias AFP. O casamento não tem reconhecimento legal, mas isso nunca foi o ponto para Kondo.
O caso voltou a ganhar destaque no contexto de um debate académico que tem vindo a crescer no Japão, a tentativa de enquadrar a atração por personagens fictícios como uma orientação sexual formal. O investigador e sociólogo Yuu Matsuura, cujos trabalhos têm sido publicados e referenciados em contextos académicos internacionais, cunhou o termo fictossexualidade para descrever este fenómeno, e defendeu que se trata de uma identidade genuína dentro do espectro LGBT, e não de um substituto para relações com pessoas reais.
O que diz a investigação
A argumentação de Matsuura sobre fictossexualidade passa pelo conceito de “sexualismo orientado para humanos”, uma espécie de norma social que assume que a atração sexual por pessoas reais é o único padrão válido, à semelhança do que o heteronormativismo faz em relação à orientação sexual. O investigador propõe que quem sente atração exclusivamente por personagens bidimensionais está a ser excluído dos esquemas cognitivos tradicionais da sexualidade, de forma análoga a outras minorias sexuais.
Este não é um tema inteiramente novo na academia. Em 2021, um estudo publicado na revista Frontiers in Psychology intitulado “Fictosexuality, Fictoromance, and Fictophilia: A Qualitative Study of Love and Desire for Fictional Characters” explorou estas experiências de forma qualitativa, analisando relatos de pessoas que descrevem sentimentos românticos e sexuais por personagens de ficção. Um inquérito da Associação Japonesa para a Educação Sexual realizado em 2017 a 13.000 estudantes do ensino secundário e universitário concluiu que 15% dos inquiridos, tanto do sexo masculino como feminino, sentiam atração romântica por personagens de anime e videojogos.
A reação nas redes sociais japonesas
A tentativa de integrar a fictossexualidade no espectro LGBT não foi bem recebida pela maioria do público japonês online. As críticas centraram-se sobretudo num argumento, qualquer relação pressupõe reciprocidade e a possibilidade de consentimento, dois elementos que uma personagem anime ou um holograma são, por definição, incapazes de oferecer. Para muitos utilizadores, tratar esta atração como uma orientação sexual equivale a esvaziar o próprio conceito.
Uma minoria defendeu uma perspetiva diferente, desde que a pessoa não prejudique ninguém, a escolha de onde encontrar conforto emocional ou afetivo é uma questão de liberdade individual.
O caso Kondo, revisitado
Akihiko Kondo tornou-se, com o tempo, uma figura central neste debate. Em junho de 2023, fundou a Associação Geral de Fictossexualidade, com o objetivo de apoiar outras pessoas que se identificam como fictossexuais, organizar encontros e melhorar a compreensão pública do tema. Izumi Tsuji, secretário do Grupo de Estudo da Juventude Japonesa na Universidade Chuo, descreveu-o à Deutsche Welle como “um pioneiro do movimento fictossexual”.
A trajetória de Kondo é inseparável da sua história pessoal, foi vítima de bullying prolongado no trabalho, o que o levou a uma depressão severa e ao afastamento social. Foi durante esse período, em 2007, que descobriu Hatsune Miku. “Miku-san é a mulher de quem gosto muito e também aquela que me salvou”, disse numa entrevista à AFP. A sua posição é clara: não está à procura do mesmo em mulheres reais. “É impossível”.
O estatuto legal do casamento nunca existiu, a lei japonesa não o reconhece, mas a empresa Gatebox emitiu na altura um “certificado de casamento” que atestava a união “além das dimensões”. Segundo Kondo, a Gatebox chegou a emitir mais de 3.700 desses certificados a outras pessoas.
O que torna este debate complexo é que não se resume a uma questão de gosto ou preferência cultural. Toca em perguntas mais fundamentais sobre o que constitui uma orientação sexual, os limites da identidade e até que ponto conceitos desenvolvidos em contextos de minoria humana podem ser estendidos a relações com entidades não humanas, uma questão que Matsuura aborda explicitamente no seu trabalho, que tem sido apresentado em simpósios académicos internacionais, incluindo um workshop sobre sexualidade na Universidade de Waseda em 2024.
A discussão não está fechada, e, à medida que a inteligência artificial e os companheiros virtuais se tornam mais sofisticados e acessíveis, é improvável que fique.









na verdade já existe, se chama virgesexual