
A ideia de que a Netflix cancela tudo e todos rapidamente é comum no discurso sobre streaming. Mas os números contam uma história mais matizada. Uma análise publicada esta semana pelo investigador Frédéric Durand na newsletter Netflix & Chiffres, republicada pelo What’s on Netflix, cobre todas as séries americanas de ficção lançadas pela plataforma desde 2016 e aponta para uma tendência que vai contra o senso comum, nos últimos três anos, a taxa de cancelamento manteve-se estável entre os 16% e os 20%.
O estudo limita-se às séries de ficção produzidas nos Estados Unidos e distribuídas globalmente, por serem aquelas sobre as quais existe maior consistência de dados. A metodologia distingue séries canceladas abruptamente de séries que tiveram um final planeado, estas últimas são consideradas obras concluídas, não projetos interrompidos.
O que aconteceu em 2025
Em 2025, a Netflix lançou 23 novas séries de ficção americanas, das quais 8 eram minisséries. Das restantes 15, 9 foram renovadas e 6 foram canceladas, ou seja, uma em cada quatro novas séries foi encerrada prematuramente. Alargando a análise a todas as séries americanas estreadas no ano (incluindo temporadas de regresso), a taxa de cancelamento desce para 19% e a taxa de renovação sobe para 51%.
Em termos absolutos, o número de cancelamentos duplicou face a 2024, de 3 para 6, mesmo que a taxa percentual tenha subido apenas de 20% para 26%. Do outro lado da equação, a Netflix renovou 24 séries americanas em 2025, o número mais alto desde 2020.
Algumas das séries canceladas em 2025 não eram estreias, FUBAR, The Vince Staples Show e The Recruit foram encerradas após a segunda temporada. No caso de FUBAR, a quebra de audiência entre temporadas foi de 76%, uma das maiores quedas registadas para uma série de língua inglesa na plataforma nesse ano. The Recruit registou uma queda de 42%.
O caso de Boots merece atenção à parte. A série estreou em outubro de 2025, obteve números razoáveis e gerou atenção mediática considerável após o Pentágono a criticar publicamente. Segundo a análise, o cancelamento poderá ter menos a ver com audiências e mais com o contexto político, a Netflix estaria a tentar aproximar-se da administração Trump numa altura em que negociava a aquisição da Warner Bros. Discovery. “Uma vítima sacrifical, que acabou por não ter utilidade”, refere o estudo.
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A década em perspetiva
Olhando para a evolução desde 2016, a Netflix era bem mais generosa nos primeiros anos, entre 2016 e 2017, entre 75% e 80% das novas séries americanas recebiam uma segunda temporada. Esse número foi descendo progressivamente até 2022, quando apenas 23% das novas séries foram renovadas. Esse ano coincide com a chamada “correção Netflix”, quando a plataforma perdeu subscritores pela primeira vez, arrastando o setor do streaming para uma espiral de cortes na produção.
O pico de cancelamentos em valores absolutos aconteceu em 2020, em parte por causa da pandemia. O ano mais generoso em renovações foi 2019, com 20 novas séries americanas a garantirem continuidade.
Outro dado relevante é o crescimento das minisséries no catálogo da plataforma, em 2016 representavam apenas 7% dos lançamentos; hoje representam entre 35% e 40%, com um aumento acentuado a partir de 2021. Esta mudança de estratégia afeta diretamente a forma como se lê a taxa de cancelamento, uma vez que as minisséries com final planeado são contabilizadas de forma distinta.
A transição mais perigosa não é a que se pensa
Com base nos dados de 185 novas séries americanas lançadas desde 2015, o estudo traça uma curva de sobrevivência que desfaz outro mito, o verdadeiro ponto de risco não é a passagem da primeira para a segunda temporada. Quase dois em cada três títulos (excluindo minisséries) são renovados para uma segunda época. Mas apenas um em cada três chega à terceira.
A partir daí, a probabilidade de cancelamento abrupto diminui consideravelmente, segundo o estudo, a Netflix nunca cancelou séries de forma abrupta além da terceira temporada, optando por lhes dar tempo para encerrar as narrativas de forma planeada.
A escala de sobrevivência, temporada a temporada, é a seguinte:
- Segunda temporada: cerca de dois em cada três títulos
- Terceira temporada: um em cada três
- Quarta temporada: um em cada cinco
- Quinta temporada: um em cada oito
- Sexta temporada: um em cada doze
- Sétima temporada: um em cada vinte e cinco
- Oitava temporada: um em cada cinquenta

Entre as séries ainda com destino incerto está Virgin River, renovada para uma oitava temporada, o que lhe daria a oportunidade de se tornar a série de ficção americana mais longa da história da Netflix, superando The Ranch. Mindhunter mantém-se em compasso de espera, com a Netflix a ter indicado vontade de produzir uma terceira temporada caso David Fincher aceite e o orçamento seja viável. Russian Doll está em desenvolvimento para uma terceira temporada, segundo declarações recentes de Natasha Lyonne.
Uma nota sobre a fiabilidade da taxa globalmente citada, em 2020, Bela Bajaria, diretora de conteúdos da Netflix, afirmou que a plataforma renova dois em cada três projetos, o que corresponde exatamente ao rácio que os dados deste estudo confirmam para as novas séries, excluindo minisséries.









