InícioJogosMicrosoft apostou nos lucros de Call of Duty para ajudar a Xbox,...

Microsoft apostou nos lucros de Call of Duty para ajudar a Xbox, mas o plano falhou

Como Call of Duty quase afundou a Xbox e o que a Microsoft está a fazer para salvar a divisão

Call of Duty Black Ops 7 visual

Há semanas que as notícias sobre a Xbox se sucedem a um ritmo difícil de acompanhar. Reestruturação de liderança, supostos cortes em massa para julho, o preço do Game Pass a ser mexido e revertido… Mas um novo relatório de Jez Corden, editor executivo do Windows Central, ajuda a ligar os pontos e a perceber como é que a divisão de jogos da Microsoft chegou a este ponto.

A resposta curta? Uma série de apostas que não saíram como esperado e o Call of Duty foi o pivô de muita coisa.

A Activision-Blizzard como tábua de salvação

Depois de a Microsoft concluir a aquisição da Activision-Blizzard por 69 mil milhões de dólares, a ideia era clara, usar os lucros dessa divisão, que inclui franquias como Call of Duty, World of Warcraft e Candy Crush, para financiar e sustentar o ecossistema Xbox. Com as receitas de hardware em queda e o Game Pass a crescer mais devagar do que o esperado, os lucros da Activision eram uma espécie de almofada financeira.

O problema é que essa almofada começou a desaparecer precisamente quando mais era necessária.

Quando a Microsoft colocou Call of Duty: Black Ops 6 no Game Pass no dia de lançamento, em outubro de 2024, os números de jogadores bateram recordes. Parecia uma vitória. Mas as receitas contavam outra história, a decisão terá custado à Activision cerca de 300 milhões de dólares em vendas que simplesmente não aconteceram.

Com Black Ops 7, lançado em novembro de 2025, o cenário foi ainda mais complicado. O jogo vendeu cerca de 401 mil cópias no Steam nos primeiros 26 dias após o lançamento, contra as 2,3 milhões de unidades que Black Ops 6 tinha vendido no mesmo período. As vendas em formato premium caíram mais de 60% em alguns mercados, e nos Estados Unidos o jogo terminou o ano como o quinto título mais vendido, o pior resultado da franquia em quase duas décadas.

Como Jez Corden resume no seu relatório: “Colocar o Call of Duty no Xbox Game Pass canibalizou os dois lados. À medida que os jogadores fugiam do preço de 30 dólares, havia menos dinheiro no Xbox Game Pass para subsidiar as vendas canibalizadas do Call of Duty para os que ficaram. O modelo colapsou sob o seu próprio peso e teve de ser reposto no preço mais baixo, apagando um ano ou mais de crescimento”.

O problema não ficou por aqui. Sem hardware suficiente para vender e angariar novos subscritores para o Game Pass, que era, como Corden descreve, “o pote de dinheiro que a Xbox usava para subsidiar outras partes do negócio”, o ciclo vicioso instalou-se.

Para piorar, tudo isto coincidiu com um momento particularmente difícil no mercado de componentes, os custos de memória dispararam, afetando diretamente a produção de hardware. A isso juntou-se a concorrência de títulos como Battlefield 6, e uma reação generalizada da comunidade ao tom e às opções criativas de Black Ops 7.

Uma liderança nova, problemas velhos

Em fevereiro de 2026, Phil Spencer deixou o cargo e Asha Sharma assumiu a liderança da Xbox. Desde então, tem sido frontal sobre a gravidade da situação, num memorando interno partilhado no início de junho, Sharma e Matt Booty, responsável pelo conteúdo, revelaram que a divisão tinha gasto mais de 20 mil milhões de dólares em conteúdo, plataformas e hardware nos últimos cinco anos, enquanto as receitas anuais caíram quase 500 milhões de dólares no mesmo período. A margem de lucro atual ronda os 3%.

As consequências práticas já começam a sentir-se. Segundo a Bloomberg, cortes significativos no número de trabalhadores estão previstos para julho, logo após o fecho do ano fiscal da Microsoft a 30 de junho. Os orçamentos de marketing também serão reduzidos de forma expressiva.

Xbox em crise: nova CEO admite que “isto não pode continuar” e prepara cortes

O que muda agora

Algumas decisões já foram tomadas. O preço do Game Pass Ultimate foi reduzido, depois de a subida anterior ter afastado, segundo Matthew Ball, “milhões de subscritores”. Os novos jogos de Call of Duty deixam de ter lançamento simultâneo no serviço.

No que toca a jogos, s Xbox está a regressar à lógica de exclusivos, Gears of War: E-Day e Clockwork Revolution foram confirmados como exclusivos de consola Xbox, abandonando versões para PlayStation.

Corden avança ainda algumas propostas para tentar inverter a tendência. Uma delas passa por retirar do Game Pass alguns títulos de maior peso, como Forza Horizon, para estimular as vendas a título individual. Outra hipótese seria criar um novo nível premium na subscrição, onde os utilizadores pagariam um pouco mais mas teriam acesso a um catálogo de títulos de topo à escolha, como Call of Duty ou uma subscrição ao World of Warcraft.

No horizonte, paira ainda a questão do Project Helix, o nome de código para a próxima consola Xbox. Com os custos de produção a subir de forma alarmante, os preços dos componentes de armazenamento poderão chegar a cinco vezes os valores de 2024 até ao final de 2027, a Microsoft estará a explorar modelos de hardware alternativos, incluindo eventuais parcerias com fabricantes de PC.

O futuro do Xbox está longe de estar definido, mas a dimensão dos problemas que Sharma herdou está, pelo menos, finalmente à vista de todos.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

Artigos Relacionados

Subscreve
Notify of
guest

0 Comentários
Mais Antigo
Mais Recente
- Publicidade -

Notícias

Populares