
Yuko Miyamura, a atriz japonesa que dá voz a Asuka Langley Soryu em Neon Genesis Evangelion, partilhou recentemente um testemunho sobre o que significava ser fã assumida de anime e mangá no Japão nos anos 80 e 90, uma altura em que a cultura otaku ainda era vista com desdém pela sociedade e pelos meios de comunicação. O relato foi publicado numa coluna de opinião na revista digital japonesa Hanasone.
Miyamura, que nasceu em 1972 e ainda era adolescente nos anos 80, viveu em primeira mão a fase em que o anime deixou de ser encarado apenas como um produto infantil e começou a conquistar públicos mais alargados, impulsionado também pelo crescimento paralelo do mangá. Foi nesse período que o termo otaku se espalhou pelo Japão, ainda que associado a um estigma social considerável. Segundo a atriz, admitir publicamente esse gosto era mal visto, e as próprias lojas especializadas refletiam essa marginalização.
Lojas escondidas e um gosto que era preciso disfarçar
Miyamura recorda que cadeias como a Animate, hoje presentes em avenidas movimentadas, funcionavam então em edifícios antigos, longe das ruas principais, como se fosse necessário esconder a sua existência. Mesmo quando conseguia comprar arte do seu artista preferido, Shingo Araki, sentia que devia manter essa paixão fora do olhar público.
Foi precisamente em meados dos anos 90, já com a carreira de atriz de voz a arrancar, que a cultura anime começou a aproximar-se do mainstream, muito por via do sucesso dos filmes do Studio Ghibli. Neon Genesis Evangelion, série em que Miyamura participou, tornou-se um fenómeno entre os otaku dessa geração. Ainda assim, o preconceito persistia, os meios de comunicação generalistas continuavam a ridicularizar o estereótipo do otaku, descrito como uma figura estranha e obcecada por tecnologia, e isso colocava as vozes deste universo, cada vez mais conhecidas do público, numa posição desconfortável.
“Sempre que éramos convidados para aparecer em programas de variedades populares na televisão, nós, atores de voz, éramos tratados como uma espécie de criaturas raras. Éramos vistos como uma novidade e falavam de nós com desdém. Faziam troça dos nossos fãs otaku e tratavam-nos de forma discriminatória”, confessou Miyamura na coluna.
O episódio do programa de rádio e a reportagem que mudou de tema
Entre os episódios que partilhou está o de uma equipa de televisão que foi cobrir o seu programa de rádio na altura. Segundo Miyamura, disseram-lhe que estavam a preparar uma reportagem sobre o boom da cultura das rádios de anime. O resultado final acabou por ser bem diferente, a peça focava-se antes na chamada dependência tecnológica, retratando os otaku como um fenómeno socialmente patológico.
Há ainda um segundo episódio que a atriz recorda com desconforto, ocorrido numa reunião de preparação para um programa de televisão de grande audiência. O realizador propôs, nessa reunião, um guião que ridicularizava abertamente os seus fãs otaku e a comunidade de anime, descrevendo essa abordagem como algo que seria divertido de ver na televisão. “Lembro-me de ter ficado siderada, a pensar: Meu Deus, será que toda a gente na indústria televisiva tem esta mentalidade de bullying?”, escreveu.
Miyamura recusou a proposta original, mas acabou por aceitar participar no programa depois de a produção garantir que o conceito seria totalmente alterado. Essa promessa não foi cumprida, e a atriz viu-se forçada a seguir o guião inicial que tanto a incomodara. “Senti que tinha sido enganada. Foi tão horrível que cheguei a pedir para a gravação ser suspensa. Nessa altura, aparecer na televisão era um trauma constante para mim”.
O reconhecimento que só veio décadas depois
Apesar destas memórias difíceis, Miyamura sublinha que hoje sente gratidão pela forma como a cultura anime passou a ser aceite de forma muito mais ampla. “Recentemente, há muitas celebridades e equipas de produção televisiva que falam abertamente do seu gosto por anime. Graças a eles, os atores de voz conquistaram o seu estatuto, e tenho tido a sorte de trabalhar em locais onde sou efetivamente tratada com respeito”, escreveu a atriz, que continua a emprestar a voz a Asuka nos filmes da saga Rebuild of Evangelion.








