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O anime teve um ano recorde, mas há uma razão para o crescimento abrandar em 2026

Now That We Draw anime visual (2)

O negócio da animação japonesa fechou 2025 com o melhor resultado da sua história, mas quem olha para os números com atenção percebe que a euforia tem prazo de validade. Segundo o mais recente levantamento da Teikoku Databank, uma das maiores agências de análise financeira do Japão, o mercado de produção de anime ultrapassou pela primeira vez a fasquia dos 400 mil milhões de ienes em 2025, fixando-se nos 406,586 mil milhões de ienes. O crescimento foi de 9,9% face ao ano anterior, superando inclusive o ritmo de expansão registado em 2024, e representa o valor mais elevado desde que a consultora começou a acompanhar o setor, no ano 2000.

Este novo recorde surge sustentado por três fatores principais, a procura constante de plataformas de streaming como a Netflix, a concentração de estreias de longas-metragens de grande orçamento nas salas de cinema e o desempenho robusto do negócio de licenciamento e exploração secundária de propriedade intelectual. Títulos como Demon Slayer continuam a puxar pela fasquia, com o filme Infinity Castle a ultrapassar os 590 milhões de dólares em bilheteira mundial, tornando-se a animação japonesa mais rentável de sempre nos cinemas.

Nem todos os estúdios lucram da mesma forma

Por trás do valor recorde esconde-se uma divisão cada vez mais nítida entre quem lidera os projetos e quem trabalha por encomenda. A faturação média por empresa do setor subiu para 1,337 mil milhões de ienes, o quinto ano consecutivo de crescimento, mas essa média esconde disparidades relevantes. Os estúdios que assumem a produção principal, os chamados contratantes primários com direitos sobre a propriedade intelectual, atingiram uma faturação média recorde de 2,795 mil milhões de ienes, também o quinto ano seguido de subida.

Já os estúdios especializados que trabalham como subcontratados, normalmente responsáveis por desenho ou cenários, registaram uma faturação média de 499 milhões de ienes. É um valor que também cresceu e que, pela segunda vez consecutiva, recupera o patamar dos 400 milhões de ienes, algo que não acontecia desde 2007, no período que antecedeu o colapso da chamada bolha anime. Ainda assim, a diferença de escala entre os dois grupos ilustra bem porque é que o crescimento do mercado não se traduz automaticamente em prosperidade generalizada.

Os números de rentabilidade reforçam essa leitura. Entre os contratantes primários, 53,8% das empresas registaram aumento de receitas, mas quase metade do setor, 50%, viu os lucros cair ou entrou mesmo em prejuízo. É o retrato daquilo que analistas japoneses têm vindo a descrever como um boom sem lucro, mais trabalho e mais faturação não significam, necessariamente, mais dinheiro no bolso dos estúdios.

O peso da escassez de animadores

O relatório da Teikoku Databank também traça um retrato menos otimista para o negócio internacional dos estúdios japoneses. A percentagem de empresas com transações comerciais confirmadas no estrangeiro caiu para 41,8%, menos 3,4 pontos percentuais do que no ano anterior. Os Estados Unidos continuam a ser o principal parceiro, representando 21,2% dessas transações, seguidos pela China, com 13,2%, um valor em queda desde o pico registado em 2023. A explicação passa pela subida dos custos de contratação de animadores e equipas de computação gráfica no mercado chinês, agravada pela desvalorização do iene, que torna a subcontratação internacional menos vantajosa do que era. A Coreia do Sul surge a seguir, com 10,1%, e há também um volume assinalável de encomendas destinadas ao Vietname e às Filipinas.

É precisamente aqui que reside o principal obstáculo ao crescimento futuro do setor, a falta de mão de obra qualificada. Segundo a Teikoku Databank, os estúdios japoneses já não conseguem aceitar todos os projetos que lhes são propostos, simplesmente porque atingiram o limite da sua capacidade de produção. Este cenário, longe de ser um sinal de falta de interesse do público, reflete antes um gargalo estrutural que ameaça atrasar entregas e forçar reestruturações internas nas empresas do setor.

Uma travagem à vista em 2026

É por essa razão que a Teikoku Databank antecipa, pela primeira vez em cinco anos, uma contração do mercado em 2026. Desde 2021 que o setor não regista uma quebra anual, mas a consultora aponta agora para uma travagem motivada por três fatores combinados: o efeito de comparação depois de um ano marcado por grandes êxitos de bilheteira, um abrandamento no ritmo de investimento das plataformas de streaming e, sobretudo, os limites impostos pela escassez de animadores.

O número de estúdios de animação em atividade no Japão continua, ainda assim, a crescer. Em julho de 2026, contabilizavam-se 304 empresas dedicadas à produção de anime, mais onze do que no levantamento do ano anterior. Mas esse crescimento em número de empresas não elimina a fragilidade estrutural do setor, outros relatórios da própria Teikoku Databank já tinham assinalado, ao longo de 2025, o fecho ou insolvência de oito estúdios de animação só entre janeiro e setembro, o terceiro ano consecutivo em que este número de saídas do mercado aumenta.

A questão que fica em aberto para os próximos meses é saber se os grandes comités de produção, responsáveis por financiar a maioria dos projetos de anime, vão optar por reduzir o volume de estreias anuais para aliviar a pressão sobre os animadores, ou se vão continuar a explorar a atual popularidade internacional do género ao ritmo que a procura exige, mesmo que isso signifique manter uma indústria que fatura recordes mas nem sempre reparte os lucros de forma justa por quem desenha cada fotograma.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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