Basta olhar para os números para perceber que o anime deixou de ser um nicho dentro da Netflix. Mais de metade dos utilizadores da plataforma assiste a séries do género com regularidade, e grande parte desse crescimento tem uma explicação simples: a Netflix passou a investir a sério em produções originais e exclusivas.
5Devilman Crybaby
Logo nos primeiros minutos, fica claro que Devilman Crybaby não está interessado em explicações lentas. O espectador é atirado de imediato para um mundo onde os demónios são reais, a humanidade vive em pânico, e Akira Fudo se encontra preso algures entre os dois lados desse conflito.
A série, lançada em 2018, parte do mangá de Go Nagai, uma obra com décadas de influência sobre o género de terror e ação japonês, mas dá-lhe uma roupagem claramente contemporânea. A animação, solta e cheia de energia, faz com que cada luta, cada transformação e cada momento de violência pareça imprevisível, quase descontrolado, o que ajuda a manter a tensão do início ao fim.
Por trás de toda essa estética mais crua, existe também uma história surpreendentemente íntima, centrada na amizade antiga entre Akira e Ryo Asuka. À medida que os dois se vão enredando cada vez mais no conflito entre humanos e demónios, a série deixa progressivamente a ação sobrenatural em segundo plano, dando lugar a algo bastante mais sombrio.
Não é por acaso que os episódios finais costumam ser apontados como os mais marcantes. É aí que todo o caos inicial se transforma numa tragédia sobre amor, medo e aquilo que se perde quando se abdica da própria humanidade. Devilman Crybaby compromete-se por inteiro com a visão que quer contar, e é essa entrega total que a torna difícil de esquecer.
4Cyberpunk: Edgerunners
Night City, com as suas ruas cobertas de néon, serve de palco a Cyberpunk: Edgerunners, uma série que acompanha David Martinez, um adolescente arrastado quase sem escolha para o mundo dos mercenários, das próteses cibernéticas e das guerras corporativas.
Produzida pelo Studio Trigger, a animação consegue algo que nem sempre é fácil, dar vida ao universo de Cyberpunk 2077 sem parecer apenas um produto derivado do jogo. A ação é explosiva, mas é o estilo visual, quase caótico por opção, que faz a série sentir-se genuinamente pertencente a este mundo.
A relação entre David e a enigmática Lucy funciona como o verdadeiro centro emocional da história, enquanto o trabalho cada vez mais arriscado da sua equipa o vai empurrando para um destino que já não consegue controlar por completo. O que torna Edgerunners tão eficaz é a rapidez com que aquele mundo inicialmente eletrizante se transforma em tragédia; a busca de David por poder traz sempre consequências mais brutais, e a série nunca lhe permite fugir delas.
Com apenas dez episódios, a narrativa mantém um ritmo acelerado do princípio ao fim, sem perder qualidade visual nem carga emocional, culminando num desfecho que parece, ao mesmo tempo, inevitável e devastador. Mesmo estando ligada a um jogo já bastante conhecido, Cyberpunk: Edgerunners funciona perfeitamente como história independente, sem exigir qualquer conhecimento prévio do videojogo.
3Kotaro Lives Alone
À primeira vista, tudo em Kotaro Lives Alone sugere uma comédia leve: um menino de apenas quatro anos muda-se sozinho para um apartamento e torna-se rapidamente amigo do vizinho, o autor de mangá Shin Karino. A sua independência pouco habitual, para uma criança tão nova, dá origem a bastantes momentos genuinamente divertidos.
O que a série faz de forma particularmente inteligente é não revelar tudo de uma vez. Em vez de explicar logo, no primeiro episódio, por que motivo Kotaro vive sozinho, vai deixando escapar pequenos detalhes através do seu comportamento e das suas relações, permitindo que o passado da personagem se revele aos poucos, de forma natural.
É precisamente essa construção gradual que transforma o que parecia ser apenas uma premissa excêntrica numa história profundamente comovente sobre negligência infantil e solidão. À medida que a verdade se torna mais clara, também o laço entre Kotaro, Karino e os restantes vizinhos ganha peso, oferecendo à criança a comunidade e o afeto de que sempre precisou.
Ao equilibrar humor genuíno com momentos de tristeza real, Kotaro Lives Alone acaba por ir muito além do slice of life fofinho que promete à primeira vista, tratando o tema do trauma infantil com uma maturidade pouco comum neste tipo de série.
2Pluto
Poucas personagens do mangá são tão reconhecíveis como Astro Boy, e é precisamente essa figura que Naoki Urasawa decide reimaginar em Pluto, transformando o seu mundo num mistério de assassinato sombrio e extremamente bem construído.
Baseada no mangá do próprio Urasawa em conjunto com Takashi Nagasaki, e inspirada, por sua vez, na obra original de Osamu Tezuka, esta produção da Netflix segue o detetive robô Gesicht na investigação de uma série de crimes que têm como alvo alguns dos robôs mais avançados do planeta. O que começa como um caso relativamente direto rapidamente se transforma em algo bem maior, levantando questões sobre aquilo que realmente separa humanos de máquinas.
Pluto não tem pressa nenhuma em chegar às respostas. A série deixa que as suas personagens e os seus mistérios se desenvolvam com calma, sem que isso signifique perder tensão ao longo do caminho. A investigação de Gesicht vai apresentando um elenco memorável de humanos e robôs, cada um deles carregando o seu próprio passado e os seus próprios motivos para temer o conflito que se desenha à sua volta.
O resultado final combina elementos de noir com ficção científica de grande profundidade, e temas como guerra, luto e preconceito acabam por dar um peso emocional genuíno a toda a história. Com uma animação cuidada e um mistério muito bem amarrado, Pluto é um anime que recompensa quem estiver disposto a abrandar o ritmo e a prestar atenção a cada detalhe.
1The Summer Hikaru Died
Yoshiki sabe, desde o início, que o Hikaru que regressou das montanhas não é, de facto, o seu melhor amigo. Seis meses depois do desaparecimento de Hikaru, algo com a sua cara voltou para casa, trazendo consigo as suas memórias e maneirismos, mas nenhuma da humanidade que antes o tornava tão familiar.
Ainda assim, mesmo sabendo a verdade, Yoshiki não consegue afastar-se. Escolhe, pelo contrário, continuar perto da entidade que ocupou o lugar do amigo, uma decisão que dá o mote para toda a série. Essa premissa perturbadora abre espaço para The Summer Hikaru Died explorar temas como o luto, a negação e o próprio processo de crescimento pessoal, sem se limitar apenas às fórmulas mais previsíveis do terror.
A tensão constrói-se, sobretudo, através da relação cada vez mais complicada entre Yoshiki e a criatura que finge ser Hikaru, reforçada pelo contraste entre o calor sufocante e o silêncio quase opressivo de uma pequena vila rural japonesa. É esse ambiente, mais do que qualquer sobressalto pontual, que torna a história tão eficaz.
Produzida pela Cygames Pictures, com base no mangá homónimo de Mokumokuren publicado pela Kadokawa, The Summer Hikaru Died é inquietante, emotiva e, muitas vezes, deliberadamente desconfortável. A série constrói o seu mistério à volta de vizinhos que sussurram, lendas populares locais e um grupo de adolescentes a tentar compreender algo bem maior do que um simples drama de liceu, o que a torna uma das apostas mais originais do catálogo de terror da Netflix nos últimos anos.









