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Japão encerra o Cool Japan Fund após perder 54 mil milhões de ienes

O que é o Cool Japan Fund e porque está prestes a acabar

Cool Japan Fund logo

Mais de uma década depois de ter sido criado para transformar a cultura pop japonesa numa das maiores exportações do país, o Cool Japan Fund está prestes a chegar ao fim. Segundo avançaram esta quinta-feira jornais como o Asahi Shimbun e o Mainichi Shimbun, o Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão, conhecido pela sigla METI, decidiu extinguir na prática este fundo público-privado, ao submeter um pedido de orçamento para o ano fiscal de 2027 sem qualquer verba destinada a ele.

Sem orçamento atribuído, o fundo ficará impossibilitado de realizar novos investimentos a partir do próximo ano fiscal, o que representa, na prática, o fim das suas funções, mesmo que a extinção formal ainda não tenha sido confirmada oficialmente pelo governo.

O Cool Japan Fund nasceu em 2013 com um objetivo ambicioso, apoiar financeiramente empresas e projetos capazes de levar a cultura pop japonesa, do anime ao mangá, passando pela moda e pelo cinema, a mercados fora do Japão. A ideia de base assentava na convicção de que a força do país no panorama internacional passava, em larga medida, pelo conteúdo criativo japonês, e o fundo tornou-se um dos pilares centrais do segundo mandato do antigo primeiro-ministro Shinzō Abe.

Mais de doze anos depois, os números contam uma história bem diferente da inicialmente prevista. De acordo com dados divulgados pelo próprio Cool Japan Fund, as perdas acumuladas desde o lançamento em 2013 chegaram aos 54 mil milhões de ienes, cerca de 340 milhões de dólares, superando largamente a meta de perdas que o próprio fundo tinha traçado para si. Só no ano fiscal de 2025, a organização registou um prejuízo líquido de 15,6 mil milhões de ienes, depois de ter apresentado um lucro modesto de 1,4 mil milhões de ienes no ano anterior.

O ministro da Economia, Comércio e Indústria, Ryōsei Akazawa, já tinha avisado em junho, numa conferência de imprensa, que o incumprimento das metas de redução de perdas levaria a medidas drásticas. Nessa altura, chegou mesmo a afirmar que o ministério iria “considerar tomar medidas concretas, quer para abolir quer para fundir o fundo com outros organismos“. O aviso não caiu em saco roto, o próprio presidente e diretor executivo do Cool Japan Fund, Kenichi Kawasaki, reconheceu publicamente que a organização “encara com seriedade o incumprimento da meta”.

Este desfecho não surge de forma inesperada. Já em 2017, a agência financeira Nikkei tinha noticiado que a maioria dos investimentos do fundo nesse ano tinham ficado aquém das expectativas. Em 2022, uma subcomissão do Ministério das Finanças japonês chegou a discutir a reestruturação ou mesmo a extinção do fundo, condicionando a sua continuidade à obtenção de lucro até ao ano fiscal de 2025, uma meta que, como os números agora conhecidos demonstram, acabou por não ser cumprida.

O METI tinha ainda reunido um painel de especialistas no final de julho para tentar simplificar e reorganizar o fundo, mas essa iniciativa acabou por não travar a decisão de retirar qualquer verba do próximo orçamento.

Do streaming de anime às escolas de criadores de conteúdo

Ao longo da sua existência, o Cool Japan Fund investiu numa variedade alargada de projetos ligados à indústria do entretenimento japonês. Em 2019, o fundo investiu 30 milhões de dólares na Sentai Holdings, LLC, empresa-mãe da Sentai Filmworks, da HIDIVE e da Anime Network, reforçando esse apoio com mais 3,6 milhões de dólares no ano seguinte, já durante a pandemia, período em que o fundo chegou mesmo a lançar uma linha de financiamento de emergência para ajudar empresas do setor a sobreviver.

Anos antes, em 2014, o fundo tinha investido na Anime Consortium Japan, uma joint venture que acabaria por gerir o serviço de streaming Daisuki, encerrado em 2017. Em 2015, o Cool Japan Fund planeou ainda investir até 450 milhões de ienes, cerca de 3,7 milhões de dólares, em projetos da Kadokawa destinados a formar novos criadores de conteúdo de anime e mangá fora do Japão, com particular destaque para a expansão internacional das escolas da Kadokawa Contents Academy Co., que tinha como meta formar pelo menos 2.000 diplomados até 2020.

Estes exemplos ajudam a explicar por que motivo o desaparecimento do fundo é encarado por muitos como o fim de uma era para o financiamento público da cultura pop japonesa no estrangeiro, ainda que o governo japonês continue, através de outras vias, a apostar na exportação de conteúdos criativos como uma das apostas estratégicas do país.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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