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Morreu Yayoi Kusama, a artista que via o infinito onde os outros viam apenas pontos

Yayoi Kusama: a vida e a obra da artista das bolinhas que morreu em Tóquio

A japonesa Yayoi Kusama, uma das figuras mais influentes da arte contemporânea mundial, morreu a 14 de agosto num hospital de Tóquio, aos 97 anos. A notícia só foi tornada pública esta quinta-feira, através de um comunicado da fundação e do museu que têm o seu nome. A causa da morte não foi revelada.

Kusama tornou-se conhecida em todo o mundo pelas suas bolinhas coloridas repetidas até à exaustão e pelas chamadas Salas Infinitas (Infinity Rooms), instalações com espelhos e luzes que criam a sensação de um espaço sem fim e que, nos últimos anos, se transformaram num fenómeno nas redes sociais, sobretudo no Instagram.

No comunicado divulgado no site oficial da artista, a empresa que gere o seu espólio escreveu que Kusama “continuou a pintar até aos seus últimos dias, sem nunca largar o pincel”, e que a sua obra vai continuar a “levar esperança e força para o futuro às pessoas de todo o mundo”.

Kusama nasceu a 22 de março de 1929, em Matsumoto, no Japão. Foi ainda criança, por volta dos 10 anos, que começou a ter as primeiras alucinações, via bolinhas e padrões em forma de rede a cobrir tudo à sua frente, incluindo pessoas e objetos.

A própria artista associou essas visões ao ambiente familiar difícil em que cresceu, com uma mãe pouco afetuosa que se opunha a que pintasse e que tentava impor-lhe um comportamento tradicional. Kusama nunca escondeu esta ligação entre doença mental e criação artística, numa altura em que o tema ainda era praticamente tabu.

“A minha obra é uma expressão da minha vida, particularmente da minha doença mental”, afirmou em 1999 à revista norte-americana Bomb Magazine.

Stephan Diederich, curador da grande retrospetiva dedicada a Kusama no Museu Ludwig, em Colónia, em 2026, sublinhou o quão pouco comum era esta postura. “Foi extraordinário que ela tratasse disso de forma tão aberta”, disse Diederich, acrescentando que, para a artista, “a arte era uma estratégia de sobrevivência e uma forma de terapia”, ainda que nunca tenha feito disso o centro da sua obra.

O salto para Nova Iorque

Ainda jovem, Kusama sentiu que o Japão do pós-guerra se tornava demasiado limitador. Os pais insistiam em casamentos arranjados com homens que ela nunca tinha conhecido, algo que a artista descreveu mais tarde como o início da “era do colapso mental”, um período em que se sentia “prisioneira rodeada por uma cortina de despersonalização”.

Em 1958, decidida a romper com essas convenções, mudou-se para Nova Iorque. A mãe financiou a nova vida, mas impôs uma condição, a filha nunca mais poderia regressar ao Japão. Já nos Estados Unidos, teve o apoio da artista Georgia O’Keeffe, a quem tinha enviado previamente algumas das suas obras, e que a ajudou a instalar-se na cidade.

Foi em Nova Iorque que Kusama se juntou à vanguarda artística da época, trabalhando a um ritmo intenso, por vezes dias inteiros seguidos. As pinturas da série Infinity Net, com os seus padrões hipnóticos e repetitivos, valeram-lhe as primeiras referências no meio. As esculturas de tecido macio, muitas com formas fálicas, aproximaram o seu trabalho do de contemporâneos como Andy Warhol e Claes Oldenburg, uma proximidade que, segundo Diederich, é difícil de atribuir com certeza a quem influenciou quem, apesar de Kusama defender sempre com confiança que abriu caminhos que outros artistas, homens, aproveitaram depois com mais reconhecimento comercial.

Essa desigualdade deixou marcas. A falta de sucesso financeiro comparado com o dos seus pares masculinos contribuiu para uma tentativa de suicídio, à qual sobreviveu. Anos depois, viria a abordar diretamente esse desequilíbrio na escultura Traveling Life, de 1964, composta por uma escada coberta de formas fálicas com sapatos de mulher pousados nos degraus.

Sexo, guerra e a ideia de autodiluição

Os falos tornaram-se um elemento recorrente no seu trabalho, uma forma, segundo escreveu na autobiografia publicada em 2022, de lidar com o “medo do sexo como algo sujo”. Na década de 1960, promoveu happenings de tom provocador e por vezes sexual, muitas vezes pintando os corpos de participantes com bolinhas, numa tentativa de apagar a individualidade de cada pessoa. Chamou a este conceito “autodiluição do eu” (self-obliteration): a ideia de dissolver a própria identidade até se sentir parte de um todo maior, o universo.

Esses happenings cruzaram-se também com a contestação à Guerra do Vietname. “Porque é que pessoas que partilham prazer entre si deveriam ir para a guerra e matar outras? Através do sexo livre, a barreira entre mim e os outros pode ser derrubada”, escreveu na autobiografia. E resumiu a ideia de forma ainda mais direta: “Ao apagar o próprio eu, regressamos ao universo infinito”.

Em 1966 protagonizou um dos episódios mais citados da sua carreira, na Bienal de Veneza, para a qual nem sequer tinha sido convidada. Espalhou 1.500 esferas espelhadas no relvado à entrada da exposição e começou a vendê-las a 2 dólares cada, até os organizadores da Bienal intervirem para travar a venda. A peça, batizada Narcissus Garden, funcionou como uma crítica direta à comercialização do mercado da arte e ao papel que os próprios artistas nele desempenham.

O regresso ao Japão e o reconhecimento tardio

Kusama regressou ao Japão em 1973 e passou a viver numa clínica psiquiátrica em Tóquio, onde recebia acompanhamento para a sua saúde mental. Mesmo assim, manteve um ritmo de produção elevado até ao fim da vida, entre pinturas, esculturas e instalações exibidas por todo o mundo.

O reconhecimento internacional, contudo, só chegaria décadas mais tarde. Em 1993 voltou à Bienal de Veneza, desta vez como representante oficial do Japão. Já nessa altura, confessou que o seu objetivo era “ficar mais famosa, ainda mais famosa”, uma frase que alguns críticos apontaram como prova de uma ambição excessivamente centrada na notoriedade.

Foi já na última década de vida que essa fama atingiu o pico. Em 2018, o museu The Broad, em Los Angeles, esgotou cerca de 90 mil bilhetes antecipados para uma exposição dedicada à artista. Em 2022, uma mostra na Tate Modern, em Londres, esgotou rapidamente, obrigando a uma extensão por mais um ano. As suas obras passaram também a atingir valores milionários em leilão.

Fica o retrato de uma criadora que transformou décadas de sofrimento psicológico numa das obras mais reconhecíveis da arte contemporânea, sem nunca deixar de falar abertamente sobre a doença que a acompanhou desde criança.

Kusama recebeu ao longo da carreira distinções como a Ordem das Artes e Letras e a Ordem da Cultura, ambas atribuídas pelo Japão, e viu obra sua entrar em coleções de museus como o MoMA, em Nova Iorque, ou o Centro Pompidou, em Paris.

Numa entrevista, resumiu assim a relação com o seu próprio trabalho: “Continuarei a criar obras de arte enquanto a minha paixão me levar a fazê-lo. Fico profundamente emocionada por tantas pessoas admirarem o meu trabalho. Suponho que só saberei como as pessoas avaliam a minha arte depois de morrer. Crio arte para a cura de toda a humanidade“.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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