
Durante anos, quem seguia de perto os bastidores da produção de anime só ouvia falar de horas extra sem fim, salários que mal davam para sobreviver em Tóquio e animadores obrigados a dormir no próprio estúdio. Agora, é um dos rostos mais conhecidos da indústria a dizer que esse cenário está, finalmente, a mudar.
Motoki Tanaka, mais conhecido pelo pseudónimo Tensho, é fundador e diretor do Bibury Animation Studios, estúdio responsável por produções como Chainsmoker Cat e The 100 Girlfriends Who Really, Really, Really, Really, Really Love You. Numa mensagem dirigida a quem sonha entrar na indústria, publicada na sua conta no X, Tanaka defendeu que as condições de trabalho e a remuneração dos profissionais do setor, sobretudo animadores e coordenadores de produção, registaram melhorias consideráveis nos últimos anos.
Segundo o próprio, os salários têm vindo a subir e a ser pagos com maior regularidade, ao mesmo tempo que as horas extra e as noites passadas no local de trabalho se tornaram menos frequentes. Nas suas palavras:
“A era em que o salário baixo era a norma e as horas extra eram dadas como garantidas na indústria do anime chegou ao fim”.
Tanaka foi mais longe e afirmou que o próprio estigma associado a trabalhar em animação, muitas vezes visto como algo vergonhoso ou como um emprego destinado apenas a otaku, está também a desvanecer-se. Na sua perspetiva, o anime tornou-se um património cultural tão relevante para o Japão que quem nele trabalha deveria sentir orgulho da profissão. Ainda assim, o responsável reconheceu que a área continua longe de ser fácil, com casos de pagamentos atrasados ou insuficientes e de horas extra a persistirem, apesar de considerar que, no geral, pode ser um trabalho muito gratificante.
Nem tudo está resolvido, mas o tom começa a ser outro
O próprio Tanaka fez questão de não pintar um quadro totalmente cor-de-rosa. Ao admitir que os atrasos nos pagamentos e as horas extra continuam a existir em determinados casos, deixou claro que a mudança não é uniforme em toda a indústria, variando bastante consoante o estúdio e a função desempenhada.
Ainda assim, a mensagem foi recebida com algum alívio por parte de quem acompanha de perto os bastidores da produção de anime, num momento em que o setor enfrenta pressão crescente, tanto da comunidade internacional como do próprio governo japonês, para reformar práticas laborais há muito enraizadas. Depois de anos a ouvir sobretudo más notícias, ouvir um responsável de estúdio admitir progressos reais é, para muitos, um sinal de que a indústria pode estar, lentamente, a entrar numa fase diferente.









