
Existe uma tensão que qualquer fã de anime conhece bem. Entras numa loja, vês um expositor cheio de embalagens fechadas, sabes que há uma boa hipótese de ficares com duplicados, mas acabas por comprar na mesma. Agora há números que provam que este ciclo é universal, pelo menos no Japão.
A Hamaru Strategy, uma empresa japonesa especializada em negócio de propriedade intelectual, realizou um inquérito entre 28 de março e 3 de abril de 2026 a 35.866 consumidores sobre o que pensam dos chamados “random goods”, a denominação japonesa para merchandise vendido em formato blind bag, onde só se descobre qual a figura ou merchandise que se recebeu após abrir o produto.
Os números que a indústria preferia não ver
Os dados são claros, 89,9% dos inquiridos afirmaram não gostar ou não gostar nada deste formato. Ainda assim, quase todos admitiram comprar estes produtos na mesma.
As razões para a antipatia são previsíveis, mas a escala em que surgem é reveladora. A possibilidade de não receber o produto desejado foi citada por 98,5% dos respondentes como o principal motivo de desagrado. Logo a seguir, 91,6% referiram o custo mais elevado em comparação com merchandise normal, o que, na prática, não se refere ao preço unitário de cada embalagem, mas ao facto de muitos consumidores precisarem de fazer várias compras até conseguir o item específico que procuram.
A consequência natural disto é o recurso ao mercado de revenda, 63,3% dos inquiridos admitiu comprar o produto desejado a revendedores, tipicamente a preços acima do valor original de venda.
O impacto vai além da carteira. Segundo o inquérito, 85,2% dos respondentes disseram que a imagem que têm de um determinado IP piorou por causa da sua associação com merchandise em formato aleatório. É um número que dificilmente pode ser ignorado pela indústria, e que coloca as empresas perante uma questão difícil sobre se o aumento de vendas a curto prazo compensa o desgaste da relação com os fãs.
Curiosamente, 89,7% dos inquiridos afirmaram que estariam dispostos a pagar um valor mais elevado por um produto se pudessem escolher antecipadamente o design que queriam. Por outras palavras, o problema não é o preço, é a incerteza.

A resposta a um inquérito que irritou os fãs
Este estudo da Hamaru Strategy não surgiu no vazio. Em março de 2026, a Bandai Spirits, a divisão de brinquedos e hobby da Bandai Namco, publicou os resultados do seu próprio inquérito sobre o mesmo tema, dirigido a 1.032 adultos entre os 18 e os 59 anos. A receção nas redes sociais japonesas foi péssima.
O problema, segundo os utilizadores que criticaram o relatório, foi a forma como os dados foram apresentados. O estudo da Bandai Spirits focou-se principalmente nos aspetos positivos da experiência, a emoção de tentar a sorte, a satisfação de tirar o item desejado, e sublinhou com destaque a frequência com que os consumidores compram estes produtos. Para muitos fãs, tratou-se de uma representação deliberadamente enviesada da realidade, mais próxima de uma peça de marketing do que de um estudo sério sobre sentimentos dos consumidores.
Foi precisamente nesse contexto que a Hamaru Strategy lançou o seu próprio inquérito, com uma amostra significativamente maior e com perguntas que deixaram espaço para respostas críticas. A diferença nos resultados obtidos é, por si só, uma resposta bastante eloquente ao relatório da Bandai Spirits.
Do ponto de vista das empresas, o formato aleatório tem vantagens óbvias, aumenta o volume de vendas e evita que designs menos populares fiquem em stock sem rotação. Mas os dados agora publicados sugerem que esse cálculo pode estar a ser feito de forma incompleta, sem contabilizar o custo reputacional que o modelo impõe às franquias que o adotam.


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