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Porque é que tanto mangá nunca chega ao Ocidente? Criador japonês explica os custos da tradução

Sempre que um mangá fica sem tradução oficial nos dias seguintes à estreia no Japão, há quem na internet use o argumento de que as editoras japonesas ignoram o público estrangeiro para justificar a pirataria. Foi a esse raciocínio que o criador japonês Yu Mashiro respondeu numa publicação longa no X.

A ideia central de Mashiro é que o mangá continua a ser feito a pensar apenas no público do Japão. São as vendas no território japonês que decidem se uma série continua ou é cancelada, pelo que o interesse internacional é uma boa surpresa, mas não o motor do negócio. Para as editoras, levar uma obra para o Ocidente é um risco financeiro e não uma obrigação para com os leitores estrangeiros. Na visão do criador, muitos leitores internacionais passaram a esperar que as editoras ofereçam os seus mangás favoritos em todo o mundo, mesmo quando nunca foram montados os acordos de distribuição necessários.

Segundo Mashiro, localizar uma obra é muito mais do que trocar o idioma dos balões de texto. É preciso adaptar referências culturais difíceis de perceber fora do Japão, redesenhar vinhetas quando o formato ou o sentido de leitura o exigem e suportar custos de licenciamento que, em muitos casos, não são recuperados com as vendas no estrangeiro. Se as projeções financeiras não garantirem um lucro aceitável, o investimento não avança.

O criador também criticou casos de localizações mal conseguidas no mercado de língua inglesa. Lembrou as versões em inglês de Crayon Shin-chan, que americanizaram o humor com piadas da cultura pop ocidental, e as alterações em Gundam, onde foram inventados termos de ficção científica que não existiam no material original. Lamentou ainda os casos em que os próprios tradutores mexem nos diálogos para introduzir opiniões ou agendas pessoais, afastando-se do que o autor pretendia.

A reação de leitores de fora do Japão não demorou. Muitos defendem que as editoras não podem esperar que se comprem traduções oficiais que não existem nas suas regiões, e outros apontam que mesmo as edições disponíveis podem ser caras. Uma das propostas que circularam passa por uma plataforma acessível e fiável, traduções rigorosas e colaboração entre editoras japonesas e grupos de tradução feita por fãs.

Em junho de 2026, a Agência para os Assuntos Culturais do Japão criou um consórcio público-privado para construir uma plataforma de distribuição internacional de mangá de nova geração. A iniciativa reúne editoras e outros intervenientes da indústria, entre os quais a Orange Inc., o estúdio por trás de Beasters e Trigun Stampede, e procura alargar o acesso legal a traduções oficiais.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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