Kaze and the Wild Masks, produzido pela equipa brasileira Vox Game Studio e distribuído pela editora Soedesco, é o regresso aos videojogos de plataforma em deslocação lateral 2D da era de 16 bits que manifesta carinhosamente as suas influências nos títulos propulsores do género que nos marcaram na década de 90, onde se destacam as saudosas Super Nintendo e Mega Drive.

Aqui a nossa jornada que se apresenta através de uma breve animação antes de se iniciar, acompanha a história de uma coelha antropomórfica chamada Kaze, através das Ilhas de Cristal com o principal objetivo de libertar o seu amigo Hogo de uma maldição que causou o caos ao redor de toda a área do arquipélago. Embora siga um enredo descomplicado, percebemos ao longo do videojogo que a jogabilidade e o cuidado artístico são o ponto central de Kaze and the Wild Masks. Estes manifestam cenários coloridos e com um design encantador, que vão de imediato buscar inspirações ao universo 2D de Sonic the Hedgehog com um aspecto mais contemporâneo.

Para começar, tudo se enquadra de modo agradável, desde a concepção dos sprites, aos diferentes ambientes, que se podem sentir na construção dos níveis transmitindo a nostalgia que nos faz evocar as boas memórias de infância enquanto jogávamos os clássicos de plataformas. Cada nível das diferentes ilhas do jogo, manifesta a sua diversidade, o que torna o mundo deste jogo mais valioso. Alguns deles são adornados pelo fundo de um oceano com gaivotas a pairar, bosques tempestuosos, montanhas geladas ou outros característicos dos livros de contos de fada ilustrados à mão. Além do mais, este mundo onde a nossa heroína se encontra, é também ocupado por um simpático grupo de criaturas que se apresentam com aparência de vegetais mutantes. Vamos dar com tomates impetuosos que disparam de bazucas, cenouras que deslizam com pranchas de gelo, beringelas monstruosas e outros vegetais bizarros que fazem parte da pirâmide alimentar de um herbívoro comum.

Para os enfrentar é aí que entram as habilidades da protagonista, que por sua vez são bem familiares para quem está acostumado ao estilo aqui mencionado. Para além dos movimentos básicos, como o salto e o uso das orelhas para agarrar em objectos ou voar por pequenos instantes, (semelhante ao protagonista Tails da série Sonic), Kaze pode ainda rodopiar contra os inimigos, usar a força da gravidade para bater no chão, e saltar para cima da cabeça dos vegetais o que por sua vez é o golpe que até hoje permanece sempre com êxito.

Mas não é aqui que notamos a singularidade do título. Onde é manifestada a particularidade da jogabilidade de Kaze and the Wild Masks é no tempo em que manipulamos as máscaras selvagens que vão surgindo ao longo dos níveis. As máscaras invocam na nossa corajosa coelha, aptidões exclusivas que alteram a sua aparência para um outro animal. De imediato a sua mobilidade e as suas técnicas de ataque são alteradas e tornam-se mais apropriadas para superar os desafios do terreno que nos envolve. A máscara do falcão, uma das minhas favoritas, dá o poder de voar e cruzar os céus, que terá maior eficiência em terrenos que não conseguimos alcançar de modo habitual. Já as restantes máscaras concedem outros atributos que variam entre respirar e navegar naturalmente dentro de água ou escalar rochas à velocidade de um tigre. É a partir dos momentos em que podemos utilizar habilidades selvagens que existe um aprofundamento na jogabilidade. As suas multiplicidades permitem que desfrutemos de momentos de exploração e ação mais divertidos e mais variados.

A produtora também não desiludiu com os habituais objetivos que favorecem a longevidade da aventura. À medida que progredimos, no interior dos níveis estão espalhadas joias vermelhas para coleccionar, quatro letras que representam o nome da heroína que geralmente estão posicionadas em áreas perigosas, e localizar dois portais que representam as fases bónus do jogo, que depois de completas libertam uma das duas joias que podem ser conseguidas em jogo. No caso das fases de bónus, os desafios são quase sempre similares, mas requerem alguma concentração. Ao contrário dos níveis normais, aqui temos sempre um limite de tempo para derrotar um número de vegetais, enquanto em outros, o propósito passa por colher uma quantidade de joias cuidadosamente sem atingir os inimigos que protegem o seu corpo com uma cobertura de picos. É por meio destas tarefas que vamos ter acesso às ilustrações dedicadas ao mundo de Kaze and The Wild Masks e ainda conseguir desbloquear novos níveis.

Em suma, este jogo parece ter a finalidade de proporcionar ao jogador uma jogabilidade bastante intuitiva, que seja desfrutada de modo divertido e descontraído. Sentimos isso justamente graças à pouca dificuldade de jogo e na existência dos “checkpoints” que tendem a facilitar a nossa progressão, ainda que sejamos testados essencialmente perante os obstáculos que os níveis carregam, abismos, plantas com espinhos e outras armadilhas naturais que nos podem fazer voltar numerosas vezes ao local inicial. Todavia, um dos pontos que mais ansiava embarcar, ficou aquém das expectativas. Refiro-me á exigência mediana que se faz sentir quando surgem os bosses, que por sua vez, deveria ser um momento em que o desafio fosse um pouco mais acentuado. Estes embora sigam um padrão lógico de movimentos e de ataques em simultâneo com surpresas pelo meio, ficam muito na sombra dos super vilões do universo Mario, Bowser, e do universo Sonic, Dr. Ivo Robotnik.

Sendo um jogo em que o objetivo é homenagear e não renovar, graficamente, Kaze é um encanto para os nossos olhos. Como já aqui referido, o universo pixel art é tão variado como detalhado, carregado de pormenor e carismáticos cenários a conhecer. A sua execução decorre sem qualquer tipo de problemas na PlayStation 4, sem sinais de arrastamento ou quebras de FPS. Em suma, o mundo flutuante das ilhas de cristal tem um carácter visual bastante puro e nostálgico. Em contrapartida, está presente uma banda sonora que não transmite a mesma magia que a vertente artística consegue, ficando um pouco desproporcional.

Por fim, Kaze and the wild masks é um extraordinário título de plataformas que nasceu do desejo que o estúdio tinha de entregar aos jogadores o revivalismo da era dos 16 bits que poderia muito bem ocupar o seu espaço ao lado dos videojogos de entretenimento da década de 90. Os seus gráficos encantadores, bem coloridos e detalhados, a sua sensação de nostalgia constante e jogabilidade simples que proporciona bons momentos de diversão, tornam esta obra recomendada.

A versão digital de Kaze and the wild masks estará disponível a 26 de março para a PlayStation 4, Xbox One, Nintendo Switch, PC Steam e Google Stadia, e a versão física a 25 de maio.

Interessado em videojogos com o gosto acentuado para JRPG, está presente na equipa do OtakuPT desde 2013 com propósito de acompanhar e vos informar acerca do que melhor se faz na área do entretenimento gamer.