InícioMangaEscândalo na Shogakukan: editora publicou mangá de autor condenado por crimes sexuais

Escândalo na Shogakukan: editora publicou mangá de autor condenado por crimes sexuais

A Manga ONE admitiu ter contratado novamente um autor previamente condenado, desta vez com um pseudónimo diferente. As suspeitas de encobrimento por parte de um editor estão agora no centro da investigação.

Joujin Kamen vol 1 cover (1)

A Shogakukan, uma das maiores editoras de mangá do Japão, enfrenta uma das crises mais graves da sua história recente. Tudo começou quando um tribunal civil, a 20 de fevereiro de 2026, condenou o autor Kazuaki Kurita, conhecido pelos pseudónimos Shoichi Yamamoto e, mais recentemente, Ichiro Hajime, ao pagamento de 11 milhões de ienes (cerca de 71.000 dólares) em indemnização a uma vítima identificada apenas como “A”. Segundo documentos judiciais, os abusos começaram em 2016, quando a vítima tinha 15 anos e Kurita era professor de desenho numa escola secundária privada em Hokkaido.

Este não foi o primeiro processo legal que envolveu Kurita. Em fevereiro de 2020, foi detido, indiciado e multado em 300.000 ienes ao abrigo da Lei de Proibição da Prostituição Infantil e Pornografia do Japão, por criação e posse de material de abuso sexual de menores. Na sequência dessa condenação, a Manga ONE suspendeu o seu mangá Daten Sakusen, que Kurita publicava sob o nome Shoichi Yamamoto desde 2016. A série foi formalmente descontinuada em outubro de 2022.

O que a Shogakukan admitiu agora é que, nesse mesmo ano de 2022, a plataforma Manga ONE começou a publicar uma nova série, Joujin Kamen (常人仮面), cujo autor original era creditado como Ichiro Hajime. Segundo o comunicado oficial da editora, divulgado a 26 de fevereiro, Ichiro Hajime e Shoichi Yamamoto são a mesma pessoa: “O departamento editorial da Manga ONE descontinuou a série após Yamamoto Shoichi, o autor de ‘Operation Fallen Angel’, ter sido detido e sumariamente indiciado por violar a Lei de Proibição da Prostituição Infantil e Pornografia (produção), e ter sido multado. Apesar disso, utilizaram-no com um pseudónimo diferente, ‘Ichiro Ichi’, como autor original da nova série ‘Ordinary Mask’. Isto nunca deveria ter acontecido”.

A ilustradora de Joujin Kamen, Tsuruyoshi Eri, afirmou publicamente que desconhecia por completo o passado do autor quando aceitou o trabalho e pediu desculpa aos leitores. A Shogakukan também se desculpou formalmente junto da vítima, dos leitores e dos restantes autores da sua publicações, e suspendeu a distribuição digital e os envios físicos dos volumes da obra.

Mas o que agrava consideravelmente a situação vai além da contratação do autor. Um editor da Manga ONE terá participado num grupo de chat via LINE para mediar as negociações entre a vítima e Kurita, numa altura em que Daten Sakusen ainda estava em publicação. Segundo a mesma fonte, esse editor terá proposto um acordo de 1,5 milhões de ienes (cerca de 9.600 dólares) com uma cláusula de não divulgação, que a vítima recusou, o que acabou por levar à ação civil. A vítima, agora na casa dos vinte anos, alega sofrer de PTSD e perturbação dissociativa de identidade como consequência dos abusos.

A Shogakukan negou que o departamento editorial, enquanto organização, tenha estado envolvido nas negociações, afirmando que o editor participou no chat a pedido de ambas as partes e que não tinha pleno conhecimento da gravidade do caso. A promessa de investigação foi formalizada num segundo comunicado: “Para garantir que isto nunca mais volte a acontecer, vamos constituir uma comissão de inquérito, incluindo advogados, para clarificar rapidamente os factos e as causas, incluindo como começou a serialização e o envolvimento do editor, incluindo as negociações de acordo. Depois disso, divulgaremos os resultados da investigação, tomaremos medidas disciplinares rigorosas e formularemos e implementaremos medidas para prevenir a recorrência”.

A reação da comunidade foi imediata e veio de alguns dos nomes mais relevantes do setor. ONE, o criador de One-Punch Man, publicou no X uma posição clara: “MANGA ONE. Não consigo formar equipa com pessoas que não conseguem declarar claramente a sua forte condenação dos danos sexuais contra menores. Isso é óbvio. Aguardo a divulgação das circunstâncias pelas partes envolvidas”. ONE deixou implícito que poderia cortar relações com a Shogakukan se a situação não fosse tratada com transparência.

Ryuhei Tamura, autor de COSMOS, uma das séries mais faladas do ano, pediu a suspensão imediata da sua publicação na plataforma: “À luz deste incidente, acabei de transmitir ao meu editor responsável que gostaria de suspender a serialização de COSMOS na Manga ONE. Eu próprio estou também a viver um forte choque”. Haro Aso, criador de Zom 100: Bucket List of the Dead, fez o mesmo. O autor de Umaru-chan, Sankakuhead, foi mais longe: “Este é um incidente absolutamente imperdoável, e eu, juntamente com os leitores, senti que não podemos continuar a ler mangá com prazer na Manga ONE. Dependendo dos desenvolvimentos futuros e da resposta da Shogakukan, estou a pensar em mudar a minha base de atividade para fora da própria Shogakukan”.

A Shogakukan prometeu divulgar os resultados da investigação interna assim que estiverem disponíveis. A equipa legal de Kurita indicou intenção de recorrer da sentença civil do Tribunal de Sapporo.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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