
Durante anos, as máquinas de vending foram quase uma extensão da identidade japonesa. Estavam em todo o lado, nas ruas, nos hospitais, nos parques, prontas a dispensar desde refrigerantes a sopas quentes a qualquer hora do dia. Mas esse cenário está a mudar, e os dados de 2025 confirmam aquilo que muitos já suspeitavam, o Japão está a perder as suas máquinas a um ritmo nunca visto.
Segundo dados preliminares do Inryo Soken, instituto de investigação de bebidas com sede em Tóquio, o número de máquinas de refrigerantes em funcionamento no país caiu para 1,95 milhões em 2025, a primeira vez desde 1994 que o total desce abaixo dos dois milhões. Só num ano desapareceram cerca de 90 mil máquinas, a maior queda anual desde que os registos começaram a ser feitos, em 1995.
Para perceber a dimensão da mudança, basta olhar para o pico, em 2014, havia 2,47 milhões de máquinas de bebidas no país. Ou seja, em pouco mais de uma década, o mercado recuou cerca de 20%. E a tendência não dá sinais de abrandamento.
O preço já não compensa
A explicação mais imediata está nas carteiras dos consumidores. O Japão tem enfrentado uma vaga inflacionária que afetou praticamente todos os setores, e as máquinas de vending não foram exceção. A Coca-Cola Japan, por exemplo, anunciou aumentos de preços em mais de 200 produtos, uma garrafa de meio litro da marca passou de 180 para 200 ienes, e outras bebidas registaram subidas semelhantes.
Os custos crescentes de mercadorias e energia, a par da escassez de mão de obra para reposição e distribuição, estão a empurrar os preços das bebidas nas máquinas para níveis em que os consumidores começam a hesitar. Para um produto que sempre dependeu da compra por impulso, essa hesitação é fatal.
O problema não é apenas o valor absoluto, é a comparação com o que está disponível em alternativa. Nos supermercados e drogarias, o mesmo refrigerante pode custar significativamente menos, mesmo numa compra individual. Nas lojas de conveniência, que também subiram os preços, há promoções e cupões de desconto, por exemplo, uma bebida gratuita com a compra de um onigiri ou de um bento, tornando-as mais apelativas para quem está a controlar os gastos.
O impacto já se faz sentir nos resultados das grandes empresas do setor. A Ito En registou perdas de 13,7 mil milhões de ienes no seu negócio de máquinas de vending no exercício fiscal encerrado em janeiro de 2026. A Coca-Cola Bottlers Japan Holdings acumulou um prejuízo de 90,4 mil milhões de ienes no mesmo período.
Em resposta, as empresas estão a reestruturar as operações. A DyDo, terceira maior operadora do país, anunciou a remoção de aproximadamente 7,5% da sua rede de 270 mil máquinas. O seu presidente, Tomiya Takamatsu, admitiu que “o ambiente de negócio das máquinas de vending está a deteriorar-se muito mais rapidamente do que o esperado”.
Um símbolo que ainda resiste, mas com prazo
O Japão continua a ter uma das maiores densidades de máquinas de vending do mundo, uma máquina por cada 30 a 40 pessoas, o que torna o declínio ainda mais notório. A mudança reflete algo mais profundo do que uma simples questão de preços, os japoneses estão a tornar-se mais criteriosos nas compras do dia a dia, menos propensos a gastar por impulso.
A máquina de vending japonesa foi, durante décadas, um ícone de uma sociedade que venerava a conveniência acima de tudo. Que esse ícone esteja agora a encolher diz tanto sobre a inflação como sobre uma geração que aprendeu a pensar duas vezes antes de meter a mão ao bolso.









