InícioAnimeJapão quer triplicar exportações de anime, mangá e videojogos até 2033

Japão quer triplicar exportações de anime, mangá e videojogos até 2033

O governo japonês tem um plano ambicioso, transformar a cultura pop do país numa potência económica global

Draw - Look-Back-anime-pv-screenshot-1

O anime nunca esteve tão longe de ser apenas entretenimento de nicho. Em 2024, o mercado global atingiu um valor recorde de 3,84 biliões de ienes (cerca de 25 mil milhões de dólares), segundo dados da Association of Japanese Animations (AJA) apresentados no Tokyo International Film Festival, e pela terceira vez na história, as receitas internacionais ultrapassaram as domésticas. O mercado externo cresceu 26% num único ano, enquanto o interno avançou apenas 2,8%.

É neste contexto que o Ministério da Economia, Comércio e Indústria japonês (METI) realizou, a 27 de março, o seu 18.º Seminário de Política para as Indústrias de Entretenimento e Criatividade. O objetivo foi traduzir em números concretos a ambição já conhecida, levar as exportações de conteúdos criativos japoneses aos 20 biliões de ienes (cerca de 125 mil milhões de dólares) até 2033.

O anime como motor de crescimento

Para o setor do anime, a meta é triplicar o mercado externo. Em 2022, esse mercado valia 1,46 biliões de ienes; em 2023 subiu para 1,72 biliões; em 2024 chegou a 2,17 biliões. O objetivo para 2033 é atingir os 6 biliões de ienes (cerca de 37 mil milhões de dólares).

Para chegar lá, o METI quer apostar na produção de obras de maior escala e visibilidade, aquilo a que chama internamente de obras “blockbuster”, ao mesmo tempo que pretende melhorar as remunerações dos trabalhadores da indústria, há muito apontadas como um problema estrutural. O orçamento público será alocado a três áreas, produção de lançamentos de grande escala, expansão das plataformas de distribuição, e construção de plataformas de desenvolvimento.

Os subsídios para anime passarão a ser reservados a projetos com um custo de produção mínimo de 600 milhões de ienes, o dobro do custo médio atual de uma série de 12 episódios. O METI quer também identificar filmes anime com potencial para financiamento por dívida, um modelo já utilizado por outros países exportadores de conteúdos, e está a explorar a criação de garantias de conclusão para proteger os criadores de credores predatórios.

Os videojogos querem o dobro da fatia

O setor dos videojogos tem uma ambição ainda mais expressiva. O mercado externo atual vale 3,4 biliões de ienes (cerca de 21 mil milhões de dólares), e o objetivo é chegarem a 12 biliões de ienes (cerca de 75 mil milhões de dólares) em 2033. A estratégia passa por ajudar as empresas japonesas a ganhar terreno nos mercados mobile e PC, áreas onde o Japão tem estado historicamente subrepresentado face a concorrentes ocidentais e sul-coreanos, através de apoio à produção de grande escala, construção de plataformas de desenvolvimento e incentivos fiscais para investigação e desenvolvimento.

O mangá e a batalha contra a pirataria

Para o mangá, o caminho é diferente. O mercado externo está atualmente nos 300 mil milhões de ienes (cerca de 1,9 mil milhões de dólares), e a meta é chegar a 1 bilião de ienes (cerca de 6 mil milhões de dólares) em 2033. Aqui, o problema central não é a falta de procura, é a pirataria. A estratégia do METI passa por combater os sites ilegais ao mesmo tempo que apoia a expansão das plataformas de distribuição autorizadas e os esforços de localização.

Uma meta que equivale a superar as exportações de automóveis

Juntos, os objetivos para anime e videojogos somam 18 biliões de ienes, 90% da meta global de 20 biliões. Os restantes 10% ficam a cargo da música e das obras live-action. A ambição do governo japonês fica mais clara quando se compara com outros setores, o valor de 20 biliões de ienes representa quase o dobro do valor das exportações anuais de automóveis japoneses.

Este plano insere-se na chamada “New Cool Japan Strategy“, aprovada em junho de 2024, que definiu objetivos para múltiplos setores da economia criativa. O mercado externo de conteúdos criativos japoneses chegou a cerca de 5,8 biliões de ienes em 2024, já superior ao valor das exportações de semicondutores.

Numa das mais citadas intervenções da AJA no TIFFCOM, Megumi Onouchi, CEO da HumanMedia Inc., sintetizou a perspetiva da indústria: “As receitas no estrangeiro estão a subir de forma constante e ainda não atingiram o pico. Acreditamos que têm potencial para expandir para ainda mais mercados”. E acrescentou que há atualmente 160 eventos relacionados com anime espalhados por 50 países, com os números a continuar a crescer.

O METI reconhece que iniciativas anteriores ficaram aquém do esperado, admitiu não ter conseguido “expandir os ativos tangíveis e intangíveis nem aumentar a produtividade laboral e os salários de forma satisfatória”, e que o próximo período de três anos será decisivo para colocar a estratégia nos carris, antes de o prazo de 2033 apertar.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

Artigos Relacionados

Subscreve
Notify of
guest

0 Comentários
Mais Antigo
Mais Recente
Inline Feedbacks
View all comments
- Publicidade -

Notícias

Populares