Há uma tradição na animação japonesa de tratar os seus protagonistas com uma crueldade que o cinema ocidental raramente se atreve a imitar.
10Neon Genesis Evangelion
Shinji Ikari é, provavelmente, o protagonista mais improvável da história do anime de ação. Não tem ambição, não tem coragem inata, não tem um discurso motivacional guardado para o momento certo. É um adolescente emocionalmente partido que o pai abandonou quando era criança e que é recrutado, quase sem escolha, para pilotar uma máquina de combate e enfrentar criaturas chamadas Anjos. A premissa parece familiar. O que Hideaki Anno fez com ela não tem paralelo.
À medida que a série avança, as batalhas deixam de ser o centro da história. O que importa é o que cada combate faz a Shinji por dentro, e a resposta é sempre a mesma, destrói mais um bocado. A série original de 1995 termina com dois episódios que abandonam completamente a narrativa convencional e mergulham na mente em colapso do protagonista. É desconcertante, divisivo e, para muitos, genial.
The End of Evangelion, o filme de 1997 que oferece uma versão mais literal do mesmo final, não é mais reconfortante. Shinji e Asuka são os únicos sobreviventes de um mundo transformado numa extensão de sangue vermelho. A última fala do anime pertence a Asuka, e é um “que nojo” dirigido a Shinji depois de ele a atacar. Não há redenção, não há esperança, não há sequer a sugestão de que as coisas possam melhorar. É um final que ficou na memória coletiva da cultura pop há trinta anos, e provavelmente vai ficar por mais trinta.
9Attack on Titan
Poucos arcos de personagem na história recente do anime são tão bem construídos, e tão perturbadores, quanto o de Eren Yeager. No início, é simplesmente um miúdo com raiva e determinação, o tipo de protagonista shonen que promete mudar o mundo e que o espectador apoia sem reservas. A série vai alimentando essa expectativa durante anos. E depois vira tudo ao contrário.
O momento em que Eren percebe a verdade sobre o mundo fora das muralhas é o ponto sem retorno. A informação que recebe não o liberta, esmaga-o. E em vez de procurar outra saída, abraça uma lógica que, pela sua própria torção, faz quase sentido, se o mundo quer destruir o povo de Paradis, então o povo de Paradis tem de destruir o mundo primeiro. O Rumble é a consequência direta de um protagonista que foi empurrado longe demais durante tempo a mais.
O que torna o final de Attack on Titan genuinamente trágico não é a morte de Eren, é o facto de ser Mikasa a desferir o golpe final, a mulher que o amou durante toda a vida, que sacrificou a sua própria identidade por ele. E mesmo assim faz-o. Porque percebeu que o Eren que conheceu já não existia há muito tempo. É uma das cenas mais dolorosas do anime moderno, e não porque seja violenta, mas porque é inevitável.
8Death Note
Light Yagami não é exatamente um herói no sentido tradicional, mas a narrativa trata-o como tal durante a maior parte da série, e é precisamente esse enquadramento que torna o seu colapso final tão satisfatório. Durante anos, Light jogou xadrez com o mundo inteiro, eliminando criminosos com a certeza de quem acredita genuinamente ser um deus. Ultrapassou todos os obstáculos. Adaptou-se a cada ameaça. Parecia imbatível.
A queda começa quando Near e Mello, os sucessores de L, conseguem aquilo que o antecessor nunca conseguiu, coordenar-se. Light, que sempre dependeu de adversários a agir sozinhos, não tem resposta para isso. O momento em que percebe que perdeu é filmado de forma quase teatral, um colapso em câmara lenta de alguém cujo ego nunca admitiu a possibilidade da derrota.
E depois vem Ryuk. O shinigami que entregou o Death Note a Light por puro tédio, sem qualquer lealdade ou afeto, escreve o seu nome no caderno com a mesma indiferença com que teria escrito qualquer outro. É a última humilhação para alguém que se achava especial, morrer pela mão de uma criatura que nunca o levou a sério. O final de Death Note é uma das execuções mais elegantes de justiça poética em toda a ficção.
7Devilman Crybaby
Akira Fudo aceita fundir-se com um demónio para ter força suficiente para proteger a humanidade. É um sacrifício calculado, ele cede o corpo, mantém a alma, e usa os poderes resultantes para combater criaturas que a maioria das pessoas nem sabe que existem. O plano faz sentido. O problema é que a humanidade não precisou de demónios para se destruir.
Quando a existência dos demónios se torna pública, o que se segue não é uma mobilização organizada, é pânico, violência e paranoia em massa. As pessoas começam a matar-se umas às outras na suspeita de que o vizinho pode ser um demónio disfarçado. Akira vê o mundo que prometeu defender implodir por razões que nada têm a ver com as criaturas que caçou durante toda a série. É uma crítica à natureza humana que a série não tenta suavizar.
O fim de Akira é o mais cruel possível, é morto por Ryo, o seu melhor amigo desde a infância, que era afinal Lúcifer, e que só percebe que amava Akira depois de o matar. O universo, controlado por um Deus que pune Lúcifer através de ciclos eternos de destruição, ressuscita tudo apenas para repetir o mesmo processo. Devilman Crybaby não tem final. Tem uma sentença.
6Cyberpunk: Edgerunners
Night City é uma cidade construída para esmagar quem não tem dinheiro suficiente para ser importante. David Martinez aprende isso cedo, perde a mãe, perde a escola, perde quase tudo, e decide que a única saída é tornar-se suficientemente poderoso para que a cidade não o possa ignorar. Junta-se a um grupo de edgerunners, instala implantes cibernéticos no corpo, e durante algum tempo parece que vai conseguir. É jovem, é rápido, e tem a Lucy ao lado.
Mas Cyberpunk: Edgerunners tem o cuidado de mostrar o custo real de tudo isso. Cada implante adicional é mais um passo em direção à ciberpsicose, uma condição em que o sistema nervoso deixa de conseguir distinguir entre humano e máquina, e a violência torna-se o único idioma disponível. David resiste mais tempo do que a maioria, mas a pressão acumula-se, mortes de companheiros, traições, escolhas impossíveis. Quando Adam Smasher o encontra no final, David já está tão partido que a morte é quase um alívio.
O que torna Edgerunners devastador não é o final em si, é a Lucy a olhar para a lua de cima de uma nave, a cumprir o sonho que David nunca vai poder partilhar com ela. A cidade ganhou. Como sempre.
5Puella Magi Madoka Magica
À superfície, Puella Magi Madoka Magica parece um anime de magical girls bastante convencional. O design é fofo, as cores são vivas, e Madoka Kaname é exatamente o tipo de protagonista gentil e hesitante que o género costuma colocar no centro. A série usa tudo isso como armadilha.
Episódio após episódio, o véu vai sendo levantado. As magical girls não são heroínas protegidas por uma força benevolente, são recursos explorados por Kyubey, uma criatura que manipula adolescentes vulneráveis para colher a sua energia emocional. O contrato que assinam parece uma dádiva. É uma condenação. As bruxas que combatem não são inimigas naturais — são o que as próprias magical girls se tornam quando a esperança as abandona completamente.
Quando Madoka finalmente faz o seu desejo, no último episódio, é de uma generosidade que corta a respiração, elimina o sofrimento de todas as magical girls antes que se transformem em bruxas, em todos os pontos do tempo. Salva-as a todas. E ao fazê-lo, apaga-se da realidade, a sua família não se lembra dela, as suas amigas não se lembram dela. Existe como uma força cósmica invisível, sozinha para sempre. É a vitória mais solitária alguma vez animada.
4Berserk
Guts cresceu sem nada e aprendeu que confiar em alguém era uma fraqueza que o mundo aproveitaria para o destruir. Durante anos, foi exatamente o tipo de pessoa que essa filosofia produz: brutal, isolado, eficaz. A Bando do Falcão mudou isso. Griffith, o seu líder carismático, e os companheiros que o rodeavam deram a Guts algo que nunca tinha tido, um lugar onde existir, e pessoas por quem lutar.
O Eclipse destruiu tudo isso de forma tão completa que é difícil descrever sem parecer exagerado. Griffith sacrificou todo o Bando para ascender a demónio, e o que aconteceu nessa noite marcou Guts de formas que vão muito além do físico. Perdeu o braço, perdeu o olho, perdeu os companheiros, mas o que a adaptação de 1997 capta melhor é o que perdeu por dentro, a capacidade de acreditar que o mundo pode ser diferente do que sempre foi.
O Guts que sobrevive ao Eclipse não é o mesmo que entrou no Bando do Falcão. Continua a lutar, continua a avançar, mas já não é por esperança. É por uma espécie de teimosia furiosa que recusa dar a Griffith a satisfação de o ver parar. Berserk é a história de alguém que sobreviveu ao pior que o mundo tem para oferecer e ficou tão danificado pelo processo que a sobrevivência em si se tornou questionável.
3Cowboy Bebop
Spike Spiegel é um dos personagens mais bem construídos do anime precisamente porque a série demora tanto tempo a revelar o que há por baixo da superfície. Durante a maior parte de Cowboy Bebop, é simplesmente um caçador de recompensas competente e desdenhoso, com um sentido de humor seco e um talento óbvio para a violência. O passado aparece em fragmentos, Julia, Vicious, o Red Dragon Syndicate, sem nunca ser explicado por completo.
Quando Julia reaparece, a série muda de tom de forma irreversível. Spike não está a tentar resolver uma situação, está a fechar um capítulo que ficou aberto há demasiado tempo. A morte de Julia não o destroça porque o apanhou de surpresa; destroça-o porque confirma aquilo que alguma parte dele sempre soube, que esse futuro possível onde as coisas podiam ter corrido de outra forma já não existe, e provavelmente nunca existiu realmente.
O confronto final com Vicious não é um ato de heroísmo nem de vingança. É a decisão consciente de um homem que já não tem razões para evitar o inevitável. Spike sobe as escadas do Red Dragon sabendo o que o espera. O bang final, sugerido, nunca mostrado, é menos uma morte do que uma escolha. É por isso que Cowboy Bebop ainda ressoa tanto, não conta a história de alguém que falhou, mas de alguém que desistiu de tentar sobreviver ao seu próprio passado.
2Code Geass
Lelouch Lamperouge começa com um objetivo que é difícil não apoiar, libertar o Japão de uma ocupação imperial brutal e reencontrar a irmã que o sistema oprimiu. É inteligente, carismático, e tem um poder, o Geass, que lhe permite dar ordens irresistíveis a qualquer pessoa, que parece feito para alguém com as suas ambições. O problema é que o poder e a inteligência, sem os freios certos, produzem monstros.
Ao longo de Code Geass, Lelouch vai usando as pessoas como peças num tabuleiro que só ele vê na totalidade. Às vezes com boa intenção, às vezes não. Vai cometendo erros que custam vidas, e vai aprendendo a viver com isso com uma frieza que preocupa mais do que tranquiliza. Quando finalmente tem o poder absoluto que sempre quis, usa-o para construir a armadilha perfeita, torna-se o tirano que o mundo inteiro odeia, para que a sua morte una a humanidade contra um inimigo comum.
É um plano brilhante. É também um suicídio com produção de alto orçamento. Lelouch sabia desde o início que não sobreviveria ao seu próprio objetivo, e escolheu-o de qualquer forma. O que fica no ar, depois dos créditos, é a pergunta sobre se um homem que usou toda a gente à sua volta como instrumentos merecia um final diferente. Code Geass não responde. Apenas deixa a questão.
1Texhnolyze
Texhnolyze é provavelmente o anime mais exigente desta lista, e o mais perturbador, por razões que têm menos a ver com violência do que com resignação. A série começa com Ichise, um lutador de rua que perde um braço e uma perna como punição por uma ofensa cometida contra um chefe do crime. É dado à ciência, recebe membros cibernéticos, chamados texhnolyzações, e acaba envolvido involuntariamente nos conflitos que determinam o futuro de Luz, uma cidade construída sob a superfície da Terra.
A particularidade de Texhnolyze é que não trata a texhnolyzação como um upgrade, mas como um sintoma. A cidade de Luz está a morrer, não por causa de um vilão, não por causa de uma guerra, mas porque a humanidade que a habita simplesmente perdeu a vontade de continuar. As revoluções fracassam. A tecnologia desumaniza. Os idealismos esgotam-se. E a série observa tudo isso com uma cadência deliberada que não permite ao espectador olhar para o lado.
O final não tem explosões nem confrontos épicos. Ichise vagueia por uma cidade deserta enquanto os últimos humanos desaparecem em silêncio. Não há vilão a derrotar, não há sistema a desmantelar, há apenas o fim gradual e inevitável de uma espécie que deixou de acreditar em si própria. É o tipo de final que não assusta pelo que mostra, mas pelo que implica sobre nós.









