Estes dez filmes que se seguem funcionam como experiências que ficam cá dentro durante dias, às vezes anos. Alguns já têm décadas, outros são relativamente recentes, mas todos partilham uma coisa, são impossíveis de esquecer depois de vistos.
10Grave of the Fireflies
Há filmes tristes e há Grave of the Fireflies. Isao Takahata, co-fundador do Studio Ghibli e frequentemente eclipsado pela fama de Miyazaki, realizou em 1988 aquele que é provavelmente o retrato mais devastador da Segunda Guerra Mundial já feito em qualquer formato. A história segue Seita e a sua irmã mais nova, Setsuko, dois irmãos que tentam sobreviver sozinhos no Japão nos últimos meses do conflito, depois de perderem a mãe num bombardeamento.
O que torna o filme insuportavelmente bom é a recusa total em suavizar o que está a acontecer. Não há momentos de alívio calculados, não há reviravolta reconfortante no final. Takahata filma a degradação e o sofrimento com uma frontalidade que raramente se vê no cinema de animação, e é precisamente essa honestidade que faz com que o filme doa tanto. É o tipo de obra que se vê uma vez na vida e nunca mais se consegue ver da mesma forma.
Existe uma razão pela qual Grave of the Fireflies continua a ser referido, décadas depois, sempre que se fala de anime a pessoas que nunca viram nada do género. É um argumento irrefutável de que a animação pode ir a lugares onde o cinema convencional raramente tem coragem de ir.
9Akira
Lançado em 1988, Akira de Katsuhiro Otomo é uma daquelas obras que toda a gente conhece de nome, a moto vermelha, a slide icónica, mas que poucos viram de verdade. E quem finalmente o faz percebe rapidamente porque é que o filme continua a ser estudado em escolas de cinema e referenciado em séries, videojogos e filmes de todo o mundo.
A história passa-se numa Neo-Tokyo futurista em plena decomposição social, onde Kaneda tenta resgatar o seu melhor amigo Tetsuo depois de este desenvolver poderes telequinéticos incontroláveis na sequência de um acidente de mota. Mas resumir Akira à sua trama é um pouco como descrever 2001: Odisseia no Espaço como “um filme sobre uma viagem ao espaço”. O que Otomo está realmente a fazer é um comentário visceral sobre o poder, a corrupção, o colapso institucional e o que acontece quando a tecnologia avança mais depressa do que a humanidade consegue acompanhar.
A produção é um feito técnico que ainda impressiona hoje, mais de 160.000 fotogramas desenhados à mão, uma banda sonora gravada antes da animação, ao contrário do método habitual, e um nível de detalhe nos cenários que faz com que Neo-Tokyo pareça um lugar real e vivido. Quase 40 anos depois, Akira ainda não foi superado.
8Ghost in the Shell
Se Akira abriu o mundo ocidental ao anime, Ghost in the Shell de Mamoru Oshii foi o filme que mostrou até onde a animação japonesa podia ir em termos de profundidade filosófica. Lançado em 1995, o filme antecipou debates sobre identidade digital, vigilância e consciência artificial que só se tornaram mainstream duas ou três décadas depois.
A Major Motoko Kusanagi é uma ciborgue que trabalha numa unidade de contraterrorismo e que passa o filme inteiro a questionar a própria existência, se o corpo é artificial e as memórias podem ser manipuladas, o que é que a torna humana? É uma pergunta que o filme nunca responde diretamente, e é precisamente essa ambiguidade que lhe confere uma longevidade que muito cinema live-action não consegue igualar.
A influência de Ghost in the Shell no cinema e na cultura pop é difícil de exagerar. As irmãs Wachowski citaram-no explicitamente como uma das inspirações principais de Matrix. Ver o filme hoje é perceber quantas das ideias que tomamos como garantidas no cinema de ficção científica vieram daqui.
7Princess Mononoke
Hayao Miyazaki regressou várias vezes ao tema da relação entre a humanidade e a natureza ao longo da carreira, mas Princess Mononoke, de 1997, é o filme onde esse conflito é tratado com maior complexidade e menor sentimentalismo. Não há um vilão claro, não há uma mensagem simples para levar para casa. Há interesses opostos, cada um com a sua lógica própria, e um protagonista, Ashitaka, que tenta navegar entre eles sem conseguir salvar tudo ao mesmo tempo.
O que mais surpreende em Princess Mononoke, especialmente para quem conhece Miyazaki sobretudo através de filmes mais acessíveis como My Neighbor Totoro, é a brutalidade. As sequências de batalha têm um peso físico que raramente se vê em filmes de animação, e a violência tem consequências reais e visíveis. É um filme que trata o seu público como adulto, e isso nota-se em cada cena.
San, a princesa do título, é uma das personagens mais bem construídas do diretor, crescida entre lobos, incapaz de confiar nos humanos, mas também incapaz de os ignorar completamente. A tensão entre ela e Ashitaka é o coração emocional do filme, e Miyazaki tem a sabedoria de não a resolver da forma que seria mais fácil.
6Millennium Actress
Satoshi Kon morreu em 2010 com apenas 46 anos, deixando uma filmografia pequena e absolutamente sem obras descartáveis. Perfect Blue, Paprika, Tokyo Godfathers, cada um deles seria o ponto alto da carreira de qualquer outro diretor. Mas Millennium Actress, o seu segundo filme, é talvez o trabalho mais pessoal e mais emocionalmente generoso de toda a sua obra.
O filme segue um documentarista e o seu assistente que visitam Chiyoko Fujiwara, uma atriz lendária que se retirou décadas antes. À medida que ela conta a sua história, a narrativa começa a misturar memória, ficção e realidade de uma forma que só Kon saberia executar sem cair no artificialismo. Os três períodos temporais têm estilos visuais distintos que refletem as épocas e os géneros cinematográficos que a vida de Chiyoko atravessou, e a transição entre eles é sempre surpreendente.
É um filme sobre o que significa dedicar a vida a perseguir algo, uma pessoa, um sonho, uma ideia, e sobre se essa perseguição tem valor independentemente de chegar ou não ao destino. Para quem nunca viu nada de Satoshi Kon, é um bom lugar para começar. Para quem já conhece o diretor, é o filme que confirma porque é que a sua morte foi uma perda tão grande para o cinema.
5Your Name
Your Name de Makoto Shinkai estreou em 2016 e tornou-se rapidamente num fenómeno. Não apenas dentro do universo anime, foi o filme de animação com maior bilheteira de todos os tempos durante algum tempo, e continua a ser um dos títulos mais vistos do género em todo o mundo. O sucesso não foi por acaso.
O ponto de partida é uma troca de corpos entre Taki, um rapaz de Tóquio, e Mitsuha, uma jovem de uma pequena cidade rural. O que parece ser uma premissa para uma comédia ligeira transforma-se gradualmente numa história sobre o tempo, a perda e a estranha persistência da memória emocional. Shinkai tem um dom particular para capturar o sentimento de que algo importante está prestes a desaparecer antes de sequer o termos compreendido completamente.
A animação é deslumbrante, os planos de Tóquio à noite parecem pinturas, mas o que faz Your Name durar é a construção da relação entre os dois protagonistas. Desenvolvida através de notas deixadas nos telemóveis um do outro, de gestos quotidianos e de pequenos detalhes que só quem vive a vida de outra pessoa perceberia, essa ligação torna-se genuína antes de o espectador dar conta. O terceiro ato é um dos mais bem executados do cinema de animação recente.
4A Silent Voice
Kyoto Animation é um estúdio com um talento específico para histórias íntimas e emocionalmente precisas, e A Silent Voice, de 2016, é talvez o melhor argumento a favor dessa reputação. O filme segue Shoya, um rapaz que em criança liderou uma campanha de bullying contra Shoko, uma colega surda, e que na adolescência tenta encontrar uma forma de se redimir desse passado.
O que distingue A Silent Voice de outros filmes do género é a recusa em absolver o protagonista demasiado facilmente. Shoya é uma personagem que genuinamente se odeia a si própria, e o filme leva esse peso a sério em vez de o usar apenas como dispositivo dramático. A ansiedade social que ele experimenta é filmada de uma forma visualmente muito específica, rostos substituídos por cruzes, o som do ambiente que desaparece, que comunica um estado interno de uma forma que o diálogo nunca conseguiria fazer sozinho.
É também um filme sobre Shoko, sobre o que significa crescer diferente num ambiente que não sabe lidar com a diferença, e sobre a dificuldade de aceitar a compaixão de alguém que um dia nos fez mal. A diretora Naoko Yamada trata os dois lados com igual seriedade, e é essa equidade que torna o filme tão difícil de sacudir depois de visto.
3Wolf Children
Mamoru Hosoda construiu a sua carreira em torno de personagens que habitam dois mundos ao mesmo tempo e que têm de escolher onde pertencem. Em Wolf Children, de 2012, essa tensão é vivida por Ame e Yuki, dois irmãos meio-lobo criados pela mãe, Hana, depois da morte do pai.
O que torna o filme extraordinário é o tempo que dedica a Hana. A maior parte das histórias deste tipo centrar-se-ia nas crianças e na sua jornada de autodescoberta. Hosoda passa tanto tempo, talvez mais, na mãe, no esforço físico e emocional de criar dois filhos sozinha, nas escolhas práticas que isso implica, na forma como o amor parental coexiste com a angústia de não saber se estás a fazer o certo. É um dos retratos de parentalidade mais honestos que o cinema de animação já produziu.
Quando o filme chega ao momento em que Ame e Yuki escolhem caminhos opostos, o peso emocional dessa cena vem de uma hora e meia de preparação cuidadosa. Hosoda não precisa de forçar nada, já construiu tudo o que é necessário para que o espectador sinta exatamente o que a personagem sente.
2Angel’s Egg
Angel’s Egg é provavelmente o filme mais estranho desta lista, e também o mais difícil de recomendar a alguém que não saiba o que vai encontrar. Dirigido por Mamoru Oshii em 1985, muito antes de Ghost in the Shell, é uma obra quase sem diálogo que segue uma jovem a proteger um ovo gigante numa paisagem pós-apocalíptica e deserta.
Não há uma narrativa convencional. O filme funciona mais como uma experiência visual e filosófica, com imagens que remetem para simbolismo cristão, mitos bíblicos e questões sobre fé, esperança e o vazio que fica quando a crença desaparece. Oshii realizou-o num momento de crise pessoal, e isso nota-se em cada plano.
Com apenas 71 minutos, Angel’s Egg é denso de uma forma que filmes três vezes mais longos raramente conseguem ser. Foi recentemente restaurado em 4K para assinalar o seu 40.º aniversário, o que o tornou mais acessível do que nunca. Não é um filme para toda a gente, mas quem encontrar a frequência certa dificilmente o esquecerá.
1The First Slam Dunk
Fechar esta lista com um filme de basquetebol pode parecer uma escolha estranha, mas The First Slam Dunk não é exatamente um filme de basquetebol. É isso também, claro, e é muito bom nisso, com sequências de jogo que capturam o ritmo e a fisicalidade do desporto de uma forma que raramente se vê no cinema. Mas é também um filme sobre luto, sobre crescer à sombra de alguém que já não está, e sobre o que fazemos com a dor quando não há vocabulário para a exprimir.
O filme, lançado em 2022 e realizado pelo próprio autor do mangá original, Takehiko Inoue, opta por contar a história através de Ryota Miyagi em vez do protagonista habitual da série. É uma escolha que surpreendeu os fãs e que se revelou absolutamente certa, Miyagi carrega um peso que transforma o jogo de basquetebol no centro do filme em muito mais do que uma competição desportiva.
Os números falam por si, com mais de 279 milhões de dólares de bilheteira mundial, The First Slam Dunk tornou-se o sexto filme anime com maior receita de sempre. Mas o mais impressionante é que conseguiu esse resultado sem depender de nostalgia fácil nem de espetáculo vazio. É um filme que se sustenta completamente por si próprio, e que funciona igualmente bem para quem conhece Slam Dunk de cor e para quem nunca ouviu falar da série.






