Antes do lançamento de Tales of Arise, a série Tales of era vista no Ocidente como um produto de nicho, ao ponto de alguns dos seus capítulos nunca terem saído do território japonês. Durante muitos anos, a comunidade foi composta sobretudo por fãs dedicados de JRPGs que acompanhavam cada novo lançamento desde os tempos de Tales of Phantasia, lançado originalmente em 1995.
Em 2021, a Bandai Namco Entertainment acabou por transformar por completo a perceção da série com o lançamento de Tales of Arise para PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series e PC. A combinação entre uma narrativa envolvente, um sistema de combate fluido e visualmente espetacular e uma direção artística diferente criada pela primeira vez pelo motor gráfico Unreal Engine 4 permitiram ao jogo conquistar um novo núcleo de jogadores de todo o mundo. Sem colocar de lado as origens clássicas da série, fez a proeza de “reinventar-se” e aproximar-se dos padrões modernos dos RPGs da atualidade.
O jogo venceu o prémio de “Best RPG” nos The Game Awards 2021, algo inédito para a série.
Com o lançamento da Nintendo Switch 2 e a recente aposta da Bandai Namco Entertainment em remasterizações da série, era apenas uma questão de tempo até surgir uma versão nova deste jogo. E foi exatamente isso que aconteceu. No dia 22 de Maio chega à consola da Nintendo Tales of Arise: Beyond the Dawn Edition, uma edição que inclui não só o jogo base mas também a sua expansão Beyond the Dawn.

A primeira impressão que fica desta versão é que não temos novidades em relação ao lançamento original. Novas masmorras, inimigos, missões secundárias ou até personagens jogáveis adicionais são sempre conteúdos que gostamos de ver em relançamentos, mas isso acaba por não acontecer aqui. No entanto, com o hardware da Nintendo Switch 2, é sempre uma boa oportunidade para aumentar o catálogo da Bandai Namco na consola e, ao mesmo tempo, permitir que mais jogadores descubram uma das experiências mais marcantes da série Tales of. Além disso, a inclusão da expansão Beyond the Dawn torna esta edição mais completa, especialmente para quem nunca chegou a adquirir o conteúdo adicional em separado.
Esta proposta entrega aquilo que os fãs esperam de um RPG de excelência, uma história emocionante marcada por crescimento pessoal e temas sociais surpreendentemente maduros. Neste capítulo somos transportados para um mundo dividido entre dois planetas, Rena e Dahna, onde os Renans, tecnologicamente superiores, dominaram e escravizaram os Dhanans durante mais de 300 anos. Desde os primeiros momentos sente-se o peso dessa opressão, seja através das cidades destruídas, da desigualdade constante ou da maneira como a população vive sem qualquer esperança no futuro.
É neste cenário que surge Alphen, conhecido inicialmente como Máscara de Ferro, um homem sem memórias e incapaz de sentir dor. A personagem torna-se imediatamente intrigante não só pelo mistério que envolve do seu passado, mas também pelo seu lado emotivo e humano que está constantemente presente. O encontro com Shionne, uma Renan amaldiçoada que magoa qualquer pessoa que lhe toque, acaba por servir de ponto de partida para uma relação construída em contraste, duas personagens marcadas pelo isolamento, mas que acabam por encontrar uma estranha compatibilidade uma na outra.

A partir daí, Tales of Arise desenvolve uma aventura que combina revolução, descoberta pessoal e sacrifício. Mesmo seguindo alguma da estrutura habitual do género, o jogo consegue manter uma narrativa constantemente cativante, muito por mérito da forma como cada personagem ganha maturidade ao longo da aventura e contribui ativamente para a identidade da história.
Falando de Beyond the Dawn, a expansão incluída nesta edição, funciona como um epílogo direto aos acontecimentos finais do jogo principal. Em vez de tentar criar uma nova ameaça à escala do conflito entre Rena e Dahna, o DLC segue uma abordagem mais focada nas consequências da paz alcançada no final de Tales of Arise. A história decorre cerca de um ano depois dos eventos principais e mostra um mundo ainda longe de estar realmente unido, com tensões constantes entre os Renans e Dhanans, mesmo após a queda do antigo regime.
Desta vez, é através da Nazamil, uma jovem com origens associadas aos dois povos, que a narrativa traz ao de cima um novo conflito. Através dela, Beyond the Dawn explora temas como discriminação, trauma e aceitação, mostrando que o ódio acumulado durante séculos não desaparece simplesmente de um dia para o outro. O mais interessante nesta expansão é precisamente a forma como aprofunda vários dos problemas sociais que o jogo original começou por abordar, mas que ficaram por resolver.

Como seria de esperar, o cerne deste conteúdo continua a ser o grupo principal. Existe uma maior proximidade entre as personagens, principalmente porque já não estamos perante uma aventura focada em descobrir quem elas são, mas sim em perceber como vivem depois de tudo o que passaram. Outro ponto positivo de salientar, tal como acontece na narrativa principal, é que os diálogos e as tradicionais skits continuam a auxiliar no desenvolvimento do elenco e enredo, entregando vários momentos mais pessoais e descontraídos que reforçam a ligação entre todos.
Mesmo assim, Beyond the Dawn é uma expansão relativamente pequena e um tanto segura em conteúdo. A estrutura segue praticamente inalterada, com a reutilização de várias áreas e inimigos, e o próprio ritmo da narrativa poderia ter sido um pouco mais consistente. Para quem terminou Tales of Arise e pretende passar mais algumas horas com o elenco carismático do jogo, o DLC acaba por ser uma boa forma de o fazer. No entanto, não esperem o mesmo impacto ou sensação de descoberta da aventura antes destes acontecimentos.
Deixo aqui o convite para descobrirem mais ainda sobre a narrativa e a jogabilidade de Tales of Arise, especialmente para perceberem melhor como funciona o sistema de combate e todas as qualidades que tornaram este capítulo num dos mais importantes da série.
No que diz respeito à qualidade gráfica de Tales of Arise: Beyond the Dawn Edition na Nintendo Switch 2, não foram feitas alterações que nos façam sentir que temos em mãos uma versão inferior às anteriores. Se a consola híbrida consegue correr jogos como Final Fantasy VII Remake e Resident Evil: Requiem, é natural que o título da Bandai Namco também se adapte muito bem ao hardware.

Em 2021 fomos presenteados com um dos jogos visualmente mais impressionantes daquela altura, algo que continua bastante evidente neste port. A direção artística e a escolha de cores mais garridas continuam a funcionar de forma exemplar na consola da Nintendo, com um desempenho estável tanto em modo TV como em portátil, sendo este último particularmente apelativo para quem prefere o conforto de jogar no sofá, na cama ou até fora de casa.
Em Fevereiro de 2024, foi revelado que já tinha vendido mais de 3 milhões de cópias em todo o mundo, tornando-se um dos capítulos mais bem-sucedidos da série.
As texturas mantêm-se impecáveis e a fluidez em combate permanece intacta, enquanto as animações produzidas pela Ufotable voltam a brilhar pela sua qualidade impressionante, algo que o estúdio já nos habituou a ver em obras como Fate/Zero e Kimetsu no Yaiba.
Confesso que esperava ver alguns modos gráficos dedicados ou definições que mostrassem melhor as diferenças técnicas desta versão. Ainda assim, tendo em conta que estamos diante um port, não é algo que acabe por fazer muita falta.
Tales of Arise foi o mais recente capítulo da série Tales of a conseguir conquistar não só os fãs de longa data, mas também muitos outros jogadores do Ocidente que estavam a descobrir o género. Com o lançamento iminente na Nintendo Switch 2, esta surge como uma excelente maneira de dar a conhecer a uma nova audiência uma das jornadas mais cativantes da série e um dos elencos mais completos que a equipa da Bandai Namco já criou.
Este port pode muito bem ser a forma perfeita de revisitar, ou descobrir pela primeira vez, uma aventura que continua a destacar-se como um dos grandes JRPGs da atualidade.











