Há uma sensação muito específica em rever um anime que adoravas quando eras mais novo e perceber que já não é bem o que lembravas. Não é que tenhas mudado de gosto, é que o tempo não foi igualmente generoso com todas as séries. Algumas resistiram muito bem, mas outras obras que eram tratadas como clássicos obrigatórios revelam, hoje, fragilidades que a nostalgia conseguia esconder na altura.
10Soul Eater
Soul Eater é, em muitos aspetos, um anime extraordinário. O estúdio Bones fez um trabalho visual notável, a direção de arte é inconfundível, com aquela estética gótica e carnavalesca que ainda hoje se destaca. As personagens têm personalidade, os combates têm energia e o humor funciona bem. Durante a maior parte dos seus 51 episódios, emitidos entre abril de 2008 e março de 2009, a série justifica plenamente a sua reputação.
O problema está mesmo no fim. A produção ultrapassou o material publicado do mangá de Atsushi Ohkubo e foi obrigada a criar um desfecho original, e esse desfecho é, para dizer o mínimo, uma grande desilusão. Não se trata de ser ligeiramente fraco, é um final que contradiz o tom e a lógica interna de tudo o que a série foi construindo. Para quem chega hoje ao Soul Eater sem saber o que o espera, o impacto é ainda maior, porque não tem sequer a memória afetiva de o ter vivido na época para amenizar a frustração.
Existe uma versão melhor desta história, o mangá original, que tem um desfecho à altura do que a série prometia. Mas o anime fica a meio caminho de ser uma obra completa, e isso pesa quando se avalia a experiência no seu todo.
9D.Gray-man
D.Gray-man é talvez o caso mais frustrante desta lista, porque o potencial estava mesmo ali. A história de Allen Walker e a sua luta contra o Millennium Earl num universo de fantasia sombria e vitoriana é genuinamente fascinante. O mangá de Katsura Hoshino tem uma mitologia rica, personagens com profundidade real e uma narrativa que sabe ser ao mesmo tempo épica e muito humana.
A adaptação anime de 2006 nunca chegou a fazer jus a isso. O ritmo é irregular, há demasiados episódios filler que interrompem o fluxo da história em momentos importantes, e a série termina sem resolver praticamente nada. Para quem investiu tempo e atenção, é uma experiência que deixa um gosto amargo.
O regresso em 2016 com D.Gray-man Hallow parecia ser a segunda oportunidade que os fãs esperavam. Infelizmente, a nova adaptação optou por alterações narrativas que muitos consideraram incompreensíveis, apressando arcos fundamentais e mudando detalhes que importavam. O resultado foi ainda mais divisivo do que a primeira série. Hoje, a recomendação honesta para quem quer conhecer D.Gray-man é clara: lê o mangá.
8RahXephon
Quando RahXephon estreou em 2002, o anime psicológico de mecha vivia ainda muito à sombra de Neon Genesis Evangelion, estreado alguns anos antes. A série do estúdio Bones é bonita, tem momentos genuinamente emotivos e uma ambição narrativa que se sente em cada episódio. Não é uma série má, está longe disso.
O problema é que RahXephon nunca consegue escapar completamente à comparação inevitável. A premissa, as dinâmicas entre personagens, o tom existencial, tudo aponta para Evangelion de forma demasiado direta para ser ignorada. E quando se coloca RahXephon ao lado do seu predecessor, perde claramente em coesão, originalidade e impacto emocional. Evangelion tinha algo visceral e perturbador que RahXephon imita mas não consegue replicar.
Para quem ainda não viu nenhum dos dois, a ordem faz toda a diferença na perceção. Mas para a maioria das pessoas que chegam a RahXephon hoje, a experiência vai ser a de ver uma série que lembra constantemente outra que foi melhor.
7Lucky Star
Lucky Star é provavelmente o exemplo mais puro de um anime que pertence absolutamente ao seu tempo. Quando estreou em 2007, era o reflexo perfeito de uma certa cultura otaku da internet, autorreferencial, cheia de humor de nicho, completamente consciente do seu próprio público. Era um anime sobre gostar de anime, e isso ressoou de forma enorme numa comunidade que raramente se via representada assim.
O humor de Lucky Star vive de referências. Referências a outros animes, a jogos, a memes da internet japonesa de meados dos anos 2000, a convenções culturais muito específicas de uma época que já passou. Para quem viveu esse momento, ainda há nostalgia a tirar. Para quem chega hoje sem esse contexto, é muito difícil perceber o que há para gostar, os episódios avançam sem conflito, sem desenvolvimento de personagens, sem qualquer arco narrativo, apoiando-se inteiramente num humor que entretanto ficou desatualizado.
Não é uma série que envelheceu mal porque ficou datada nos valores, envelheceu mal porque o seu único propósito era ser um espelho de um momento cultural que já não existe.
6Zero no Tsukaima
Em 2006, quando The Familiar of Zero (Zero no Tsukaima) estreou, o isekai ainda não era o género dominante que é hoje. A história de Saito, um rapaz japonês convocado para um mundo de fantasia como familiar de uma jovem maga chamada Louise, tinha uma frescura relativa, muitos dos seus clichés eram, naquele contexto, ainda relativamente novos.
Hoje, esse contexto desapareceu completamente. O isekai é provavelmente o género mais saturado do anime atual, e The Familiar of Zero não tem o suficiente para se distinguir do oceano de séries que o sucederam e que, em muitos casos, fizeram coisas mais interessantes com as mesmas ideias. O que na época parecia um ponto de partida criativo é agora uma fórmula esgotada.
Acresce que Louise, a protagonista, é uma tsundere levada ao extremo, e o humor que decorre da sua relação com Saito assenta em dinâmicas que envelheceram muito mal. O slapstick violento e o fanservice que estruturam grande parte da série são difíceis de defender com os olhos de hoje, e sem esses elementos, sobra muito pouco de substância.
5Love Hina
Love Hina foi, nos anos 2000, o modelo de referência para as harem rom-com. A série de 2000 baseada no mangá de Ken Akamatsu estabeleceu muitas das convenções do género e influenciou dezenas de títulos que vieram a seguir. Perceber de onde vêm certos clichés do anime romântico é, em si, uma razão válida para ver Love Hina.
Mas se o objetivo for simplesmente entretenimento, a experiência atual pode ser difícil. O humor da série gira muito em torno de Naru a castigar fisicamente Keitaro em situações de mal-entendido e o que na época era lido como comédia slapstick inofensiva é hoje percebido de outra forma por muita gente.
A progressão romântica é outro problema. A série avança a um ritmo glacial, e como o “par certo” é óbvio desde os primeiros episódios, há pouca tensão genuína a alimentar o interesse ao longo dos episódios.
4The Melancholy of Haruhi Suzumiya
Há animes que definem uma era, e Haruhi Suzumiya foi isso nos anos 2000. Quando estreou em 2006, com a sua ordem de emissão não cronológica e a sua protagonista carismática e absolutamente impossível de ignorar, foi um fenómeno cultural real. A dança dos créditos finais tornou-se icónica. Haruhi era uma personagem que toda a gente conhecia, mesmo quem mal seguia anime.
O problema com os fenómenos culturais é que dependem muito do momento. E Haruhi Suzumiya, revisitada hoje, revela que grande parte do seu impacto era inseparável do contexto em que surgiu. A série tem ideias interessantes, mas não tem a profundidade necessária para se sustentar apenas nelas, e o arco Endless Eight, oito episódios emitidos consecutivamente com conteúdo quase idêntico como exercício de estilo, continua a ser uma das decisões criativas mais divisivas da história do anime, que testa a paciência mesmo dos fãs mais devotos.
Quem chega hoje a Haruhi Suzumiya pela primeira vez, sem a carga emocional de a ter descoberto na época, provavelmente vai questionar porque é que esta série teve o impacto que teve. E a resposta honesta é que parte desse impacto simplesmente não sobreviveu ao tempo.
3Vampire Knight
Vampire Knight nunca foi um anime que alguém defendesse como obra-prima. Estreado em 2008, era claramente um produto do seu momento, a estética gótica, os vampiros misteriosamente belos, o triângulo amoroso proibido. Era o guilty pleasure por excelência, e muita gente o via com consciência disso mesmo.
O que mudou é que os elementos que tornavam Vampire Knight um guilty pleasure aceitável na altura são hoje muito mais difíceis de ignorar. As dinâmicas afetivas entre as personagens têm aspetos problemáticos que vão além do melodrama convencional, há relações que, vistas com atenção, levantam questões que o anime nunca aborda com o cuidado necessário. Acrescenta-se um ritmo lento, personagens que raramente saem dos seus arquétipos e uma resolução narrativa que satisfez muito poucos.
Para quem o viu na época e guarda memórias afetivas, ainda há algo ali. Para quem chega hoje, é muito difícil perceber o apelo sem o filtro da nostalgia.
2Fairy Tail
Fairy Tail tem energia. Isso é inegável, desde que estreou em outubro de 2009, a série produzida pela A-1 Pictures e Satelight manteve sempre um entusiasmo contagiante, personagens com carisma e momentos emocionantes que funcionam. É genuinamente difícil não gostar de Natsu, de Erza, de Gray, de Lucy. A série sabe criar afeto pelas suas personagens.
O problema é tudo o resto. As tramas repetem-se com variações mínimas, cada arco segue o mesmo esquema de escalada de ameaça seguida de vitória emocional, sem que nada mude verdadeiramente. O poder da amizade resolve todos os conflitos de forma previsível, o que esvazia qualquer tensão que a série pudesse construir. E as personagens, por mais carismáticas que sejam, raramente evoluem de forma significativa ao longo dos episódios.
Comparado com outros shonen de batalha da mesma época, ou com o que o género produziu nos anos seguintes, Fairy Tail fica claramente aquém. Não por falta de coração, mas por falta de ambição narrativa.
1Elfen Lied
Elfen Lied, estreado em julho de 2004, foi para muita gente a primeira vez que o anime mostrou que podia ser visceralmente perturbador. A violência gráfica do primeiro episódio era um choque genuíno e esse choque circulou em fóruns e sites de download durante anos, atraindo novos espectadores pela promessa de algo que “nunca tinhas visto antes”.
O que acontece quando essa promessa se cumpre é que a série fica sem o seu argumento principal. A violência de Elfen Lied já não surpreende num contexto em que o anime mainstream produziu obras muito mais sombrias, mais violentas e, sobretudo, narrativamente mais ricas. E quando o choque deixa de funcionar, o que fica é uma história que tem dificuldade em se sustentar por si própria, com personagens subdesenvolvidos, uma escrita irregular e temas pesados que raramente são tratados com a profundidade que mereciam.
O mangá original de Lynn Okamoto tem mais para oferecer do que a adaptação anime, e quem quiser explorar este universo provavelmente vai sair mais satisfeito por esse caminho.










É por isso que eu digo e sempre direi: O PASSADO SEMPRE FOI MELHOR.