
A cerimónia dos Crunchyroll Anime Awards 2026, realizada a 23 de maio em Tóquio, deveria ter sido uma noite de celebração pura para Kei Urana. O anime de Gachiakuta, adaptação do seu mangá publicado na Weekly Shōnen Magazine desde fevereiro de 2022, com animação do estúdio Bones, saiu da cerimónia com três prémios: Melhor Série Nova, Melhor Design de Personagens e Melhor Arte de Fundo. Horas depois, a sua conta no X estava apagada.
O problema foi um vídeo que Urana partilhou nos seus Instagram Stories dias antes, um clip de um homem japonês a colocar alho-porro na cabeça de forma a imitar o penteado de Jabber, personagem de Gachiakuta conhecida pelos seus dreadlocks espessos. Para Urana, tratava-se de um conteúdo criativo e bem-humorado de um fã; para uma parte do público internacional, foi pretexto suficiente para a acusar de insensibilidade racial e de se estar a rir de características físicas negras.
Confrontada com as críticas, Urana respondeu com uma clarificação: “Este é um excerto de um vídeo de dança que recria a cena utilizando cabelo para se parecer com um alho-porro. Peço desculpa se causou ofensa. Vou remover o excerto. Partilhei a dança porque achei divertida, e não tive nenhuma intenção de me rir da cultura”. Acrescentou ainda que gosta de ver os fãs a recriar as danças das personagens da série de forma criativa.
A resposta não travou a escalada. Em vez de aliviar a situação, a publicação fez crescer a pressão. Vários utilizadores passaram a referir-se-lhe como “KKKei Urana”, uma variação deliberadamente ofensiva do seu nome, acusando-a de “microagressões” ou de “se vitimizar”. A conversa alastrou às comunidades de anime e ao Reddit, onde os utilizadores discutiam se as críticas a Urana tinham já deixado de ser legítimas para se tornarem puro assédio.
Urana acabou por anunciar a saída do X, citando o impacto que o caos da plataforma estava a ter no seu trabalho criativo. Hideyoshi Andou, o artista de graffiti responsável pelo design visual característico de Gachiakuta e parceiro criativo de Urana, também abandonou a plataforma pouco depois.

Kei Urana era uma das poucas mangakas com presença activa nas redes sociais, conhecida precisamente por interagir regularmente com os fãs. Continua activa no Instagram, onde publica actualizações e ocasionalmente faz transmissões em directo, mas a presença mais imediata e pública no X ficou encerrada.
Muitos fãs reagiram com desapontamento genuíno, não necessariamente por concordarem ou discordarem da origem da polémica, mas por considerarem que o desfecho é sintomático de um problema mais amplo, criadores japoneses que tentam aproximar-se do público internacional acabam por se retirar exactamente por isso. O ciclo é conhecido, uma publicação, uma tempestade de indignação, uma tentativa de esclarecimento que alimenta ainda mais o fogo, e o resultado é quase sempre o afastamento de quem criou a obra em primeiro lugar.









