
O governo japonês tem um problema com números cada vez mais difíceis de ignorar. Segundo um estudo divulgado em janeiro pelo Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão (METI), os prejuízos causados pela pirataria de conteúdos digitais japoneses no estrangeiro chegaram a 5,7 biliões de ienes em 2025, o equivalente a cerca de 37 mil milhões de dólares, um valor quase três vezes superior ao registado no estudo anterior, realizado em 2022, quando a estimativa ficava pelos 2 biliões de ienes.
O inquérito, encomendado pelo METI à Content Overseas Distribution Association (CODA) e conduzido em seis países, Japão, China, Vietname, França, Estados Unidos e Brasil, abrangeu categorias como anime, mangá digital, videojogos e música. Para 2025, o METI introduziu ainda uma categoria inédita, a pirataria de produtos de personagens, ou seja, figuras, posters, peluches e outros artigos de coleção sem licença, vendidos online fora do Japão. Só este segmento gerou prejuízos estimados em 4,7 biliões de ienes. Somando as duas categorias, o total apurado sobe para 10,4 biliões de ienes.
Em 2024, oito das dez séries de televisão mais pirateadas nos Estados Unidos eram anime, segundo dados da empresa de análise MUSO, ultrapassando produções como House of the Dragon ou The Boys. A plataforma de streaming Crunchyroll detinha os direitos exclusivos da grande maioria desses títulos. No mesmo ano, a pirataria de mangá atingiu números sem precedentes, com mais de 25,7 mil milhões de visualizações só no quarto trimestre, segundo os mesmos dados.
Vale a pena questionar, no entanto, até que ponto estes valores representam perdas reais. O raciocínio do METI pressupõe que cada cópia pirata equivale a uma venda perdida, o que nem sempre é verdade. Quem piratea conteúdo que nunca tenciona pagar não representa necessariamente uma venda falhada. O mesmo argumento é frequentemente aplicado à pirataria de conteúdo japonês em países onde esse conteúdo não está oficialmente disponível ou chega com atraso significativo. Ainda assim, seria ingénuo considerar que ninguém piratea o que pagaria se não houvesse alternativa gratuita, e com o anime e o mangá cada vez mais distribuídos em mercados internacionais com grande rapidez, o argumento da indisponibilidade perde progressivamente força. Os prejuízos reais para os detentores de direitos japoneses são provavelmente inferiores ao total de 10,4 biliões de ienes avançado pelo METI, mas isso não significa que a pirataria não cause danos concretos à indústria.
Para tentar travar a tendência, o METI anunciou um conjunto de medidas que incluem o reforço da cooperação com autoridades locais no estrangeiro, o fortalecimento dos mecanismos de litigância e o desenvolvimento de uma base de dados de direitos de autor para acelerar processos judiciais. Entre as propostas, surge também o recurso à inteligência artificial, não apenas como ferramenta de deteção, mas também como forma de baixar os custos de produção e proteger as margens da indústria criativa.

É precisamente aqui que o plano levanta mais questões. A Agência para os Assuntos Culturais do Japão afetou 100 milhões de ienes para desenvolver um sistema de IA capaz de identificar páginas de mangá pirateadas e rastrear a sua distribuição online, uma ferramenta de deteção que faz sentido na lógica de combate à pirataria. Porém, a proposta de usar IA para reduzir custos de produção como resposta indireta à pirataria é mais problemática. Um dos principais motivos pelos quais o anime e o mangá japoneses se tornaram tão populares no mundo inteiro é precisamente a perceção de qualidade visual e narrativa que os distingue de outra produção animada. Usar IA generativa para baratear a produção arrisca corroer exatamente aquilo que torna estes conteúdos atrativos, e transformar o remédio num problema maior do que a doença.
O comunicado oficial do METI reconhece, aliás, que enquanto houver procura global por conteúdos japoneses, surgirão sempre novas versões pirateadas. A questão é saber se as medidas propostas atacam as causas reais do problema, disponibilidade, acessibilidade e preço nos mercados internacionais, ou se se limitam a responder aos sintomas.










tem que corrigir a matéria
não perdeu, deixou de ganhar.
A gente que comprar e os caras não querem vender.