
Takeshi Natsuno, presidente executivo da KADOKAWA, afirmou em abril que existem demasiadas empresas no sector do anime e da edição japonesa, e que essa proliferação está a tornar o negócio menos rentável. Os comentários, feitos numa transmissão na Niconico e partilhados no X por Naoto Misaki, geraram debate e ganharam uma dimensão irónica quando, semanas depois, a própria KADOKAWA anunciou uma queda de 82,7% no lucro líquido para o exercício fiscal terminado em março de 2026.
O que disse Natsuno
Nas suas declarações de 26 de abril, Natsuno foi direto ao ponto, focar apenas nos salários dos animadores é uma visão demasiado estreita do problema, e o verdadeiro obstáculo é estrutural. Na sua perspetiva, o sector está fragmentado em demasiadas pequenas empresas onde a maioria das pessoas são presidentes, executivos e pessoal de vendas, em vez de criadores. Adiantou que seria necessário criar grupos maiores que absorvessem estas estruturas, reconhecendo que isso faria desaparecer muitos desses presidentes, ou tornaria os seus cargos desnecessários.
Natsuno deu como exemplos de consolidações bem-sucedidas no sector dos videojogos, a fusão entre Square e Enix que deu origem à Square Enix, a união entre Koei e Tecmo para formar a Koei Tecmo, e a combinação da Sega com a Sammy. Citou ainda a Electronic Arts nos Estados Unidos como modelo de empresa que, ao unificar os departamentos de suporte de várias equipas, permitiu que os criadores se concentrassem efectivamente em criar.
A ministra do Partido Liberal Democrático Kimi Onoda, cuja área de responsabilidade inclui propriedade intelectual e as iniciativas Cool Japan, respondeu a Natsuno defendendo o modelo oposto, afirmou que trabalhou numa empresa de jogos muito pequena, o que permitia que as gerações mais jovens trouxessem ideias experimentais e de vanguarda, e argumentou que a diversidade é precisamente o ponto forte do conteúdo japonês.
A KADOKAWA também é parte do problema
A KADOKAWA, que faz parte do grupo de quatro grandes editoras japonesas a par da Shogakukan, Shueisha e Kodansha, anunciou a 14 de maio uma queda de 82,7% no lucro líquido para o ano fiscal terminado em março de 2026, com o lucro a cair para 1.278 milhões de ienes. O lucro operativo diminuiu mais de metade face ao ano anterior, e o segmento de publicação e criação de IP registou uma queda de 51,6% no lucro operativo.
Na sua análise interna, a KADOKAWA apontou a “dependência excessiva de padrões de sucesso já existentes”, nomeadamente o género isekai e as obras de estilo narou-kei (ficção científica de fantasia originada em plataformas de escrita na internet), como um dos principais fatores da queda. O plano passou por aumentar o número de títulos publicados por editor sem sobrecarregar as equipas, mas o resultado foi o oposto do pretendido, mais títulos sem originalidade ou qualidade, sem hits a compensar, e saturação de mercado.
O segmento de anime também registou uma deterioração acentuada, passando de um lucro operativo de 4,7 mil milhões de ienes no ano anterior para uma perda operativa de 460 milhões de ienes. A KADOKAWA citou a competição feroz por material-fonte popular, o aumento dos custos de produção, a escassez de mão de obra e a concorrência crescente pela capacidade de produção de animação como factores agravantes.
A pressão dos accionistas
Natsuno não enfrenta apenas problemas financeiros,enfrenta também pressão política dentro da própria empresa. A Oasis Management Company, fundo ativista com sede em Hong Kong e maior accionista da KADOKAWA com cerca de 13,76% do capital desde 30 de março de 2026, lançou uma campanha pública a pedir aos outros accionistas que votem contra a reeleição de Natsuno como director e CEO na assembleia geral anual marcada para 24 de junho de 2026.
A Oasis lançou um site dedicado, abetterkadokawa.com, com uma apresentação de 133 páginas a detalhar as falhas percecionadas na liderança de Natsuno. Entre os argumentos apresentados constam:
- Queda de 89% no lucro por acção durante o mandato de Natsuno
- Estratégia de “quantidade em vez de qualidade” no núcleo editorial
- Falha em aproveitar os direitos globais de publicação de jogos da FromSoftware (como Elden Ring), deixando-os a cargo de terceiros como a Bandai Namco
- Depreciação do valor de activos como o estúdio anime Doga Kobo
- Vulnerabilidades de governança reveladas pelo ciberataque de 2024
- Polémicas públicas protagonizadas pelo próprio CEO
O conselho de administração da KADOKAWA, do qual Natsuno faz parte, rejeitou os argumentos da Oasis, defendendo que a empresa tem estado a reforçar as suas fundações para o futuro e que o CEO é indispensável aos seus planos. Em resposta à crise financeira, a KADOKAWA anunciou um plano de reestruturação que inclui um programa de reforma antecipada voluntária para funcionários com 45 anos ou mais e pelo menos cinco anos de serviço, e apresentou um plano de gestão de médio prazo para o período FY2026-FY2031.
Kadokawa culpa excesso de anime isekai pela queda nos lucros
A queda de lucros não é universal na indústria, a Toei Animation registou um aumento de 25,7% no lucro líquido entre FY2024 e FY2025, e um crescimento adicional de 6,1% de FY2025 para FY2026. A IG Port tem também mostrado tendência de crescimento em termos de rentabilidade nos últimos anos.
Para fazer face à pressão competitiva no domínio da distribuição de filmes, área onde empresas como a Toei beneficiaram de sucessos como Demon Slayer e Chainsaw Man, a KADOKAWA e a Aniplex anunciaram em março de 2026 uma nova joint venture de distribuição e promoção chamada Animec.
A questão que fica por responder é se a solução passa pela consolidação que Natsuno defende, ou se a diversidade de empresas menores, como Onoda argumentou, é precisamente o que tem mantido o anime japonês criativo e globalmente relevante.









