
Takeshi Natsuno vai manter-se à frente da Kadokawa, a editora japonesa que detém a FromSoftware, estúdio responsável por Elden Ring. A confirmação chegou a 24 de junho, durante a 12.ª assembleia geral anual de acionistas da empresa, depois de uma campanha pública para o afastar do cargo movida pelo maior acionista da Kadokawa, o fundo Oasis Management.
Apesar de ter conseguido votos suficientes para continuar como administrador e diretor executivo, Natsuno está longe de sair reforçado do processo. O apoio à sua reeleição caiu para 59,68%, uma quebra acentuada face aos 90,26% obtidos no ano anterior. Na prática, mais de 40% dos votos representados na assembleia não deram apoio à continuidade do CEO à frente da empresa.
Uma campanha construída sobre números
A Oasis Management, fundo de investimento fundado por Seth Fischer em 2002 e sediado nas Ilhas Caimão, detém atualmente 15,25% do capital da Kadokawa, posição que a torna a maior acionista da empresa desde março, altura em que ultrapassou a Sony Group Corporation nessa condição. Foi com essa influência que o fundo lançou, ainda antes da assembleia, uma campanha pública a pedir a saída de Natsuno, sustentada em indicadores financeiros da editora.
De acordo com a Reuters, a Oasis apresentou aos restantes acionistas um retrato de degradação contínua dos resultados da Kadokawa desde que Natsuno assumiu a liderança, em junho de 2021: o lucro por ação caiu 89%, a rentabilidade dos capitais próprios recuou de 8,2% para 0,5% e a margem operacional encolheu de 6,5% para 2,9%. O fundo apontou ainda cortes sucessivos nas previsões financeiras da empresa, incluindo uma redução de 38,3% nas estimativas de lucro operacional em novembro de 2025, seguida de um resultado que voltou a ficar abaixo mesmo dessas metas já revistas em baixa, em maio deste ano.
Um dos argumentos mais citados pela Oasis prendia-se com as próprias palavras de Natsuno. Em fevereiro de 2023, o CEO tinha admitido publicamente que, caso a expansão do negócio não desse resultados, a sua saída “entraria em consideração”. Foi precisamente esse critério que o fundo usou contra ele, alegando que esse momento já tinha chegado.
FromSoftware no centro da disputa
Para além dos números, grande parte da pressão da Oasis centrou-se na forma como a Kadokawa tem gerido o seu ativo mais valioso: a FromSoftware, criadora de Elden Ring. O fundo criticou o recuo da editora em relação a compromissos anteriores de autopublicação dos jogos do estúdio, defendendo que essa opção permitiria à Kadokawa reter mais valor económico das vendas, em vez de o deixar em mãos de editoras terceiras como a Bandai Namco.
Segundo a proposta formal da Oasis, Natsuno seria “manifestamente inadequado para exercer funções de administrador da empresa”. O fundo criticou ainda a estratégia de “quantidade sobre qualidade” seguida nos últimos anos, que levou a Kadokawa a apostar na criação de milhares de novas propriedades intelectuais por ano, em detrimento, segundo a Oasis, da rentabilidade de cada título.
A Kadokawa respondeu publicamente à investida antes da votação. Em comunicado divulgado a 12 de junho, a empresa defendeu que a saída de Natsuno sem um sucessor definido, uma estrutura de gestão alternativa ou um plano de substituição para o seu Plano de Gestão de Médio Prazo poderia “criar incerteza significativa tanto quanto à continuidade dessas reformas como quanto à estabilidade da gestão da empresa”.
Outros nomes também sob escrutínio
A contestação dos acionistas não se limitou à figura do CEO. De acordo com a Oasis, também Hiroo Unoura, presidente do conselho de administração e da comissão de nomeações, e Nobuo Kawakami, administrador interno desde 2014, obtiveram níveis de apoio relativamente baixos para os padrões habituais, com 75,56% e 77,86% de votos favoráveis, respetivamente.
Do lado dos acionistas de referência da Kadokawa, a estrutura acionista tem vindo a mudar nos últimos meses. Até março deste ano, a Sony Group Corporation era a maior acionista, posição que ocupava desde janeiro de 2025, na sequência de uma aliança estratégica de capital e negócio entre as duas empresas. Com a subida da Oasis para 15,25%, a Sony passou para segunda maior acionista, mantendo cerca de 10% do capital da editora.
Vale ainda notar que, tecnicamente, entidades como a Korea Security Depository, ligada à Samsung, e a Master Trust Bank of Japan chegaram a deter percentagens de ações superiores às da Sony, mas a Kadokawa esclareceu tratar-se de instituições que gerem essas participações como ativos fiduciários, pelo que não são consideradas acionistas de referência para este efeito.
Como resultado desta assembleia geral, a Kadokawa nomeou também Koji Okura, antigo administrador da Mitsubishi Heavy Industries, para o conselho de administração, uma escolha proposta pela própria gestão liderada por Natsuno.









