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Fim dos discos da PlayStation: analista diz que os protestos dos fãs não vão convencer a Sony

Sony e o fim dos discos físicos: os números que explicam a decisão

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A Sony confirmou, no início de julho, que vai deixar de produzir discos físicos para os novos jogos da PlayStation a partir de janeiro de 2028. A partir dessa data, todos os títulos lançados nas consolas da marca passarão a estar disponíveis apenas em formato digital, através da PlayStation Store e de outros retalhistas. Os jogos já lançados, ou que sejam lançados antes desse prazo, continuam a poder ser comprados em disco, algo que a própria empresa fez questão de esclarecer no anúncio publicado no PlayStation Blog, assinado por Sid Shuman, diretor sénior de comunicação de conteúdos da Sony Interactive Entertainment.

A reação da comunidade não se fez esperar. Uma petição a pedir à Sony que recue na decisão já reúne mais de 247 mil assinaturas e milhares de jogadores têm cancelado a subscrição do PlayStation Plus como forma de protesto. Nas redes sociais, o descontentamento é generalizado, com muitos utilizadores a apontar preocupações relacionadas com a preservação de jogos e com a perda de controlo sobre as suas próprias bibliotecas.

Ainda assim, segundo o Dr. Serkan Toto, CEO da consultora japonesa especializada na indústria dos videojogos Kantan Games, este movimento dificilmente terá qualquer efeito prático sobre a decisão da Sony.

“Estão à espera que a tempestade passe”

Em declarações à IGN Toto foi direto: “Simpatizo com os fãs dos suportes físicos, mas a Sony não vai reverter esta decisão. [A Sony] sabia, claro, como seria a reação online, e agora esperam que esta tempestade passe”.

O analista sublinha que, apesar de compreender a frustração de quem prefere jogar com discos, os números tornam uma marcha atrás praticamente impensável do ponto de vista financeiro. Segundo Toto:

  • A Sony tem atualmente mais de 120 milhões de utilizadores ativos na PlayStation.
  • Cerca de 50 milhões de pessoas são subscritoras do PlayStation Plus.
  • Ainda que 500 mil jogadores cancelassem a subscrição em protesto, um número já de si expressivo, isso representaria apenas 1% da base de subscritores.

“Cerca de 50 milhões de pessoas subscrevem a PlayStation Plus. Como exercício de raciocínio, digamos que 500 mil cancelam em protesto, isso representaria apenas 1% desse negócio perdido, claramente insuficiente para levar a Sony a reconsiderar”, explicou Toto.

Uma questão de contas, não de sentimento

Para o analista, o cerne da questão está nas margens de lucro. Num relatório publicado em 2020 no seu próprio site, Toto detalhou como funciona a economia por trás das vendas físicas e digitais de jogos. Embora os valores exatos não sejam divulgados publicamente pela Sony, as suas estimativas apontam para que a empresa fique com cerca de 65% da receita de um jogo físico de produção própria, depois de descontada a margem de cerca de 30% que fica para os retalhistas. Já nas vendas digitais, a Sony retém praticamente a totalidade da receita.

O mesmo padrão aplica-se aos jogos de terceiros, nas vendas digitais, a Sony fica com cerca de 30% do valor, praticamente o dobro da percentagem associada às cópias físicas. Feitas as contas, Toto acredita que os ganhos de empurrar os jogadores para a PlayStation Store compensam largamente as eventuais perdas com cancelamentos de subscrições, mesmo que estes cheguem a várias centenas de milhares ou até se aproximem do milhão.

Toto foi ainda mais direto sobre as razões que terão levado a Sony a tomar esta decisão: “A margem de lucro atual tem sido demasiado fraca há anos, por isso sentem que têm de agir. Do ponto de vista económico, as vendas digitais fazem demasiado sentido, especialmente para quem detém as plataformas”.

A tendência de queda das vendas físicas já vinha, de resto, a desenhar-se há vários anos. De acordo com dados da consultora de mercado Circana os jogadores gastaram apenas 1,5 mil milhões de dólares em jogos físicos novos em 2025, o valor mais baixo desde que a empresa começou a acompanhar este indicador, em 1995. Em 2008, ano de pico, esse número tinha chegado aos 11,6 mil milhões de dólares.

Também a nível corporativo há sinais de que a Sony antecipava uma reação intensa por parte dos consumidores. O CEO da Sony Group, Hiroki Totoki, vendeu 56,5% das suas ações na empresa poucos dias depois do anúncio, uma decisão que, embora possa não estar diretamente relacionada com o caso, tem alimentado especulação entre os fãs mais céticos em relação às reais intenções da empresa.

Para já, a Sony mantém-se em silêncio sobre as críticas, e nenhum jogo de peso já anunciado para lançamento antes de 2028, como é o caso de Marvel’s Wolverine, deverá ser afetado pela transição. O que resta saber é se a pressão dos fãs, por mais visível que seja nas redes sociais, será suficiente para alterar os planos da empresa a médio prazo, ou se, como defende Toto, tudo não passa de uma tempestade que a Sony prefere simplesmente esperar que passe.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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