
A Kadokawa, o conglomerado japonês responsável por algumas das maiores franquias mangá, anime e videojogos do mundo, incluindo títulos produzidos pela sua subsidiária FromSoftware, criadora de Elden Ring, anunciou o lançamento de um “programa especial de reforma antecipada” dirigido a funcionários com 45 anos ou mais e pelo menos cinco anos de antiguidade na empresa.
O anúncio, feito de forma oficial pela empresa cotada na Bolsa de Tóquio, surge num momento em que a Kadokawa atravessa uma fase intensa de expansão e reorganização interna. A justificação apresentada é direta, a necessidade de “construir uma estrutura organizacional mais ágil e eficiente” num setor de conteúdos que descreve como cada vez mais polarizado.
Segundo o comunicado, as candidaturas ao programa estarão abertas entre 1 e 26 de junho, com as saídas previstas para 30 de junho de 2026, embora todas as datas sejam indicadas como provisórias. Os funcionários que aderirem receberão uma compensação adicional por cima do subsídio de rescisão habitual, bem como apoio opcional na procura de novo emprego.
Os custos associados a este processo serão registados como uma perda extraordinária nas contas do exercício fiscal em curso. A Kadokawa não especificou quantos funcionários pretende ver aderir ao programa.
Numa tradução direta das palavras usadas pela empresa, “construir uma estrutura organizacional mais ágil e eficiente”, é a expressão que resume a lógica por detrás da decisão.
O que torna este anúncio particularmente curioso é o facto de a Kadokawa estar, simultaneamente, a investir em várias frentes. Em março deste ano, a empresa revelou planos para abrir o Studio One Base, um novo polo de produção de anime em Ikebukuro, Tóquio, com o objetivo de consolidar vários estúdios de animação num único espaço. Também em março, anunciou uma joint venture com a Aniplex para distribuição de filmes anime, e em abril estabeleceu a Kadokawa Retail Ventures para o mercado norte-americano.
A empresa tem igualmente estado a recrutar ativamente produtores de videojogos para desenvolver adaptações das suas propriedades intelectuais, mangás e animes, com o objetivo declarado de deixar de ser “apenas uma editora tradicional” e passar a controlar todo o processo, da criação à adaptação para outros meios.
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É neste contexto que a redução de trabalhadores seniores ganha um significado mais ambíguo, a empresa parece querer rejuvenescer certas áreas da sua estrutura enquanto aposta em expansão noutras.
Os números mais recentes da Kadokawa apontam para uma quebra acentuada na rentabilidade. Para o ano fiscal com término em março de 2026, a empresa previu uma queda de 38,1% no lucro operacional, para 10,3 mil milhões de ienes, e uma descida de 33,7% no resultado líquido. A pressão sobre as margens, combinada com os custos crescentes de uma estratégia de expansão ambiciosa, cria um contexto que torna a redução de custos com pessoal mais compreensível, ainda que não menos polémica.
A Kadokawa não é caso isolado. O setor de entretenimento japonês tem visto várias empresas recorrer a programas semelhantes nos últimos meses. A produtora de jogos COLOPL dispensou 104 funcionários em fevereiro, depois de ter aberto um programa de saída voluntária que acabou por atrair mais candidatos do que o inicialmente previsto, a empresa contava com 70 adesões, mas recebeu 34 a mais.
A lógica por trás destes programas é semelhante em todos os casos, oferecer uma saída com benefícios acrescidos, evitando o desgaste associado a despedimentos coletivos, ao mesmo tempo que se reduz a fatura com salários mais elevados, que tendem a concentrar-se precisamente nas faixas etárias mais experientes.







