
Há duas décadas que o anime deixou de ser um fenómeno de nicho associado a uma cultura “nerd” e passou a ocupar um lugar central no entretenimento mundial. Mas esse crescimento trouxe consigo um efeito colateral que o crítico de animação japonês Ryota Fujitsu considera cada vez mais difícil de ignorar, a transformação progressiva do meio num produto descartável, cada vez mais parecido com qualquer outro.
Num artigo de opinião publicado no Anime! Anime!, Fujitsu questiona se este caminho de comoditização poderá representar, no limite, “o fim do anime” tal como o conhecemos.
Quando o público deixa de procurar o que quer ver
Segundo o crítico, qualquer obra de animação pode ser entendida simultaneamente como “arte” e como “produto”, numa espécie de espectro entre os dois extremos. O problema, alerta, é que a tendência para o lado do produto tem-se reforçado de forma consistente ao longo dos últimos anos, sem sinais de inversão.
Fujitsu recorda uma frase que ouviu há mais de vinte anos, quando o número de animes de madrugada começou a aumentar e os hábitos dos espectadores começaram a mudar, a ideia de que o público já não procura motivos para ver um anime, mas sim motivos para o abandonar. Segundo o autor, essa frase descreve com precisão o fenómeno da comoditização, quando um produto que antes tinha identidade própria passa a ser visto como substituível por qualquer outro semelhante.
Com a oferta de séries a não parar de crescer, os espectadores deixaram de procurar ativamente aquilo de que gostam e passaram a filtrar pelo que não querem ver. Qualquer obra que não cumpra as expectativas é rapidamente descartada, sabendo o espectador que há sempre alternativas em abundância à espera. Nesse contexto, a obra deixa de ser tratada como algo único e passa a ser apenas mais uma peça substituível dentro de um catálogo interminável.
O autor liga ainda este fenómeno às mudanças na cultura do streaming e da publicidade digital. Segundo Fujitsu, anúncios em vídeo, histórias de curta duração e plataformas de streaming têm vindo a utilizar dados sobre o tempo de atenção e os pontos exatos em que o espectador abandona o conteúdo para uniformizar estruturas mais seguras e formulaicas. O crítico cita como exemplo uma reportagem da revista norte-americana The New Yorker sobre a ascensão global dos microdramas, na qual uma realizadora chinesa do género explica que a primeira coisa que tem em conta é o público e o método de distribuição, ajustando depois o formato e a abordagem criativa em função disso.
Fujitsu admite que o anime poderá vir a ser pressionado a adotar métodos semelhantes para conseguir competir neste ecossistema. A isso soma-se o avanço da inteligência artificial generativa, que poderá reduzir custos de produção e encurtar prazos de entrega, intensificando ainda mais esta tendência. Nesse cenário, defende o crítico, passa a contar mais a quantidade de conteúdo produzido e os canais de distribuição utilizados do que a criatividade inerente a cada obra.

“Tanto faz, desde que seja divertido”
Para Fujitsu, a comoditização também alterou a própria mentalidade de quem consome anime. O autor descreve uma atitude cada vez mais comum nas redes sociais, segundo a qual o entretenimento pode ser “qualquer coisa, desde que seja divertido”, uma frase que, na sua opinião, é tão abrangente que praticamente não diz nada, mas que revela bem a falta de procura por valor além do entretenimento superficial.
Citando diretamente o crítico: “Não importa quão única possa ser a obra; se o espectador a considerar substituível, então a obra deixou de ser arte e tornou-se um produto”.
Fujitsu sublinha que esta mentalidade nasce de uma certa aceitação por parte do público, segundo a qual o anime não é mais do que um passatempo. Se as obras não forem encaradas criticamente como criações com valor próprio, correm o risco de se perder no meio de um mar cada vez maior de conteúdo descartável, engolidas por formatos curtos ainda mais ávidos de atenção.
É aqui que o crítico chega à sua reflexão mais marcante sobre aquilo a que chama “o fim do anime”: “Quando penso no ‘fim do anime’, pergunto-me muitas vezes se isso poderá ser um estado em que, no limite da comoditização, as pessoas deixam de procurar significado no facto de uma obra estar a ser expressa através do meio anime. O próprio anime não desapareceria, mas ninguém prestaria atenção à sua existência”.
Olhar para o anime como obra, não apenas como produto
Apesar do tom de aviso, Fujitsu não encerra o seu raciocínio de forma fatalista. O crítico defende que é fundamental preservar a capacidade de analisar uma obra ao seu próprio nível, como forma de contrabalançar o avanço acelerado da comoditização.
Segundo o autor, foi precisamente essa capacidade de olhar para o anime como algo mais do que “apenas desenhos animados para crianças” que permitiu ao meio florescer ao longo das últimas décadas. Por isso, conclui, continua a haver um valor enorme em manter vivas as perspetivas críticas que ajudam a preservar a dimensão artística do anime, num momento em que as forças do mercado empurram cada vez mais o meio para o lado do produto descartável.








