
A Netflix deixou de tratar a inteligência artificial generativa como um projeto secundário e assumiu, pela primeira vez com números concretos, a escala a que já recorre a esta tecnologia na produção do seu catálogo. Segundo a carta aos acionistas relativa ao segundo trimestre de 2026, cerca de 300 títulos da plataforma já incorporaram fluxos de trabalho baseados em IA generativa este ano, com maior incidência na fase de pós-produção. O documento pode ser consultado na íntegra no site de relações com investidores da Netflix.
Entre os exemplos citados pela própria empresa estão três projetos que recorreram a estas ferramentas para criar sequências particularmente complexas: Glory, produzido na Índia, Brasil 70: A Saga do Tri, do Brasil, e The American Experiment, dos Estados Unidos. A Netflix não detalhou que tipo de efeitos ou cenas foram gerados por IA em cada um destes títulos, mas deixou claro que estes três casos são apenas uma amostra de uma utilização já bastante mais alargada.
Esta não é a primeira vez que a Netflix confirma o recurso a este tipo de tecnologia. Já em julho do ano passado, a plataforma tinha reconhecido ter aplicado IA generativa a pelo menos uma série original, através de uma ferramenta usada para criar um efeito visual em The Eternaut. Desde então, a empresa tem vindo a reforçar claramente esta aposta, tanto através de aquisições como da criação de novas estruturas internas dedicadas ao tema.
Um dos movimentos mais visíveis nesse sentido aconteceu em março deste ano, quando a Netflix adquiriu a InterPositive, uma startup de inteligência artificial fundada em 2022 pelo ator Ben Affleck e que operava até então praticamente em segredo. A empresa desenvolve modelos de IA treinados a partir do material bruto de cada produção, permitindo depois aos realizadores usar essas ferramentas em tarefas de pós-produção como montagem, correção de cor, reiluminação de planos e efeitos visuais. Ben Affleck manteve-se como conselheiro sénior da Netflix após o negócio, e toda a equipa da InterPositive foi integrada na empresa.
A Netflix também tem investido em estúdios próprios vocacionados especificamente para este tipo de produção, nomeadamente para a criação de curtas de animação recorrendo a IA generativa. O objetivo, segundo a própria carta aos acionistas, passa por conseguir “entregar um resultado de maior qualidade, de forma mais rápida e a um custo mais baixo do que os métodos tradicionais”.









