
Durante anos, quem quisesse aceder rapidamente a episódios de anime ou dramas japoneses recém-estreados sabia que o Nyaa era um dos primeiros sítios a ter esse conteúdo disponível. Agora, pela primeira vez, as autoridades japonesas conseguiram identificar e deter alguém que esteve na origem direta da distribuição de um desses conteúdos na plataforma, um passo que a indústria descreve como inédito no combate à pirataria de material japonês.
O suspeito, residente na cidade de Sagamihara, na província de Kanagawa, foi detido a 28 de julho pela Polícia da Prefeitura de Quioto. É apontado como responsável por ter colocado online, sem autorização, o dorama Midnight Taxi, produzido pela NHK, através de um ficheiro torrent publicado no Nyaa.
O que torna este caso diferente de detenções anteriores é a posição do suspeito na cadeia de distribuição. Ao contrário de sites de streaming que armazenam diretamente os ficheiros piratas, o Nyaa funciona como um indexador, reúne ficheiros torrent que depois permitem a partilha de conteúdo entre utilizadores através de redes P2P, sem que os dados passem pelos servidores da própria plataforma. Isto significa que, para que um conteúdo comece a circular, é sempre necessário que alguém o disponibilize pela primeira vez, o chamado primeiro uploader ou seeder.
Segundo a CODA (Content Overseas Distribution Association), a organização japonesa que lidera a luta contra a pirataria de conteúdos nacionais, é precisamente esse perfil que compensa mais perseguir, uma vez que travar a fonte tem um impacto muito superior ao de ir atrás de quem apenas partilha o conteúdo mais tarde na cadeia.
De acordo com o comunicado da CODA, o Nyaa reuniu cerca de 30 milhões de visitas mensais entre julho de 2025 e junho de 2026, com aproximadamente metade desse tráfego a ter origem no próprio Japão, onde muitos utilizadores recorrem à plataforma para ver anime e doramas praticamente assim que são emitidos.
A investigação que levou a esta detenção começou em 2021, no âmbito do Cross Border Enforcement Project, um projeto apoiado pelo governo japonês. Segundo a organização, uma ferramenta de análise desenvolvida pela Japan Hacker Association foi determinante para identificar o suspeito antes de a Polícia da Prefeitura de Quioto avançar com a detenção.
A CODA já tinha travado outras batalhas contra o Nyaa no passado, incluindo uma colaboração com a Google em 2019 para remover a página principal do site dos resultados de pesquisa. Ainda assim, esta é a primeira vez que se consegue chegar à fonte original de um conteúdo pirateado na plataforma, e não apenas a quem o volta a partilhar mais tarde.
A própria CODA aproveitou o caso para deixar um alerta a quem usa clientes de torrent, muitos destes programas fazem upload automático de ficheiros enquanto ainda estão a ser descarregados, o que significa que qualquer pessoa pode acabar a distribuir conteúdo pirateado sem sequer se aperceber disso.
Esta detenção surge poucas semanas depois de outro golpe importante contra a pirataria de anime, a detenção de sete responsáveis pelo HiAnime, apontado como o maior site de streaming pirata de anime do mundo, numa operação levada a cabo no Vietname. Nesse caso, o grupo era suspeito de gerir mais de 100 sites e de ter disponibilizado ilegalmente mais de 26 mil filmes.
HiAnime: sete detidos no Vietname por operarem o maior site de pirataria de anime
O governo japonês tem vindo a reforçar publicamente a sua estratégia para proteger a indústria do anime e dos jogos, numa altura em que pretende expandir este mercado em 20 biliões de ienes até 2033, o equivalente a cerca de 130 mil milhões de dólares. Combater a pirataria de forma mais eficaz encaixa diretamente nesse objetivo, sobretudo quando se fala de conteúdo que é consumido globalmente quase em simultâneo com a sua estreia no Japão.
Vale ainda notar que este não é o primeiro golpe da Polícia de Quioto contra utilizadores do Nyaa. Em 2025, três pessoas já tinham sido detidas por partilharem ligações de torrent com episódios de séries como Re:Zero, Kowloon Generic Romance e Mobile Suit Gundam GQuuuuuuX, ainda que nesses casos se tratasse de pessoas que apenas voltavam a partilhar o conteúdo, e não da fonte original.









