
Antes de se tornar um dos nomes mais respeitados da animação japonesa, Mamoru Hosoda passou pela Toei Animation, onde assinou a direção de dois filmes de Digimon no início dos anos 2000. Décadas depois, o próprio confirmou aquilo que muitos fãs já suspeitavam há anos, tanto Summer Wars como Belle nasceram, na prática, do trabalho que desenvolveu em Digimon Adventure: Our War Game!.
A revelação foi feita durante o evento de lançamento de BELLE, PROJECT LAYRA, uma iniciativa que dá continuidade ao universo criado em Belle, filme de 2021. Foi nesse contexto que Hosoda explicou a sua fascinação antiga por retratar mundos virtuais no cinema, um interesse que remonta precisamente a Our War Game!, lançado em 2000.
Digimon Adventure: Our War Game! segue Taichi, Koushiro e os restantes DigiDestinados numa corrida contra o tempo para travar Diaboromon, um Digimon vírus que se espalha rapidamente pela internet, infiltra-se em redes militares e chega a lançar um míssil nuclear em direção ao Japão. Segundo Hosoda, o filme nasceu da crença de que seria a geração mais nova, já familiarizada com a internet então emergente, a conseguir resolver problemas que os adultos não tinham sabido resolver.
Hosoda comentou: “Aquilo que coloquei nesse filme foi a minha forte esperança de que, enquanto nós, adultos, enfrentávamos vários problemas no velho mundo que não conseguíamos resolver, a geração mais nova usasse esta nova ferramenta chamada internet para derrubar o velho mundo e construir um novo. Eu queria retratar esse mundo poderoso e vibrante das crianças“.
Nove anos depois, essa mesma filosofia voltou a ganhar forma em Summer Wars, desta vez com um programa de inteligência artificial descontrolado a ameaçar destruir o mundo. Tal como no filme de Digimon, é através da união de uma família, com a ajuda de um jovem prodígio da matemática, que a crise acaba por ser travada. O filme reforça uma ideia recorrente na obra de Hosoda, a de que a força humana e as ligações interpessoais conseguem superar qualquer obstáculo, mesmo perante tecnologias em rápida evolução.
Belle fecha o ciclo iniciado há mais de duas décadas
Depois de Digimon e de Summer Wars, Belle representou o passo seguinte dessa mesma linha narrativa. O filme acompanha Suzu Naito, uma estudante insegura que, ao entrar na plataforma virtual U, se transforma numa cantora reconhecida mundialmente, ao mesmo tempo que se envolve na tentativa de ajudar um utilizador isolado dentro desse mundo digital.
“No fundo, sempre trabalhei com o desejo de retratar a forma como os jovens se apresentam de formas novas dentro de mundos em realidade virtual, bem como o seu poder de traçar o seu próprio caminho,” afirmou Hosoda, reforçando a ligação direta entre os três projetos.
É precisamente esse universo criado em Belle que agora se prepara para crescer através de PROJECT LAYRA, centrado numa nova artista virtual chamada LAYRA. A história decorre cinco anos após os acontecimentos do filme original, com LAYRA a surgir como uma cantora em ascensão dentro da plataforma U, cuja identidade no mundo real permanece desconhecida. A personagem, inspirada a cantar depois de assistir a uma atuação de Belle, é produzida dentro do próprio universo da história por Hiro-chan, antiga responsável pela carreira de Belle.
A apresentação pública de LAYRA está marcada para 10 de outubro de 2026, no Japão, através do espetáculo interativo Animmersive Live BELLE, PROJECT LAYRA. A personagem será interpretada em palco por cinco artistas reais, entre elas miwa, Natsumi Kon, Konomi Suzuki, Maria Miki e ASCA.
Hosoda também comentou o avanço da inteligência artificial
Durante o mesmo evento, o realizador aproveitou ainda para partilhar a sua visão sobre o rápido desenvolvimento da inteligência artificial. “É como se, uma coisa atrás da outra, estivesse prestes a acontecer algo em que se pensa: espera, será que isso vai mesmo tornar-se realidade a partir de agora? É assim tão rápido que o mundo está prestes a mudar. Penso que todos já sentem que a IA está a começar a alterar a realidade, mas existe, na verdade, um futuro entusiasmante à espera, muito, muito para além disso,” afirmou.
Hosoda antecipa que conceitos hoje considerados impensáveis acabarão por ser integrados no quotidiano. Apesar de admitir sentir um “ligeiro receio” perante estes avanços tão rápidos, garantiu que a sua curiosidade em relação ao desconhecido supera largamente essa apreensão: “O futuro vai tornar-se melhor, e os problemas que hoje não conseguimos resolver poderão muito bem vir a ser resolvidos pelo futuro“.
Antes de se dedicar por completo aos seus projetos originais, Hosoda também assinou a direção de One Piece: Baron Omatsuri and the Secret Island, lançado há mais de vinte anos e ainda hoje considerado um dos melhores filmes da franquia, apesar do tom mais sombrio face ao resto da série. Já fora do universo de adaptações, o diretor construiu uma carreira marcada por narrativas centradas na família, com títulos como The Girl Who Leapt Through Time, Wolf Children e The Boy and the Beast.









