
Casar deixou de ser uma meta de vida óbvia para uma fatia cada vez maior dos jovens japoneses. É essa a principal conclusão de um novo levantamento do Instituto Nacional de Investigação sobre a População e a Segurança Social do Japão (NIPSSR), divulgado na sexta-feira, dia 11 de setembro, e que traça o retrato mais recente dos hábitos amorosos e reprodutivos do país.
Pela primeira vez desde que este inquérito começou a ser realizado, em 1982, a percentagem de solteiros japoneses que ainda pretende casar um dia caiu abaixo dos 80%. Segundo o Japan Times, entre os 3.459 solteiros entre os 18 e os 34 anos ouvidos no estudo, apenas 75,1% dos homens e 77,8% das mulheres afirmam ter intenção de casar eventualmente. Há quatro anos, na edição anterior do mesmo inquérito, esses valores eram de 81,4% e 84,3%, respetivamente, o que representa uma queda superior a seis pontos percentuais em ambos os sexos.
Do lado oposto, a proporção de pessoas que garantem nunca querer casar disparou. 24% dos homens solteiros dizem hoje que nunca pretendem casar, um aumento de 6,7 pontos percentuais face a 2021, enquanto entre as mulheres essa fatia subiu 6,9 pontos, para 21,5%, ultrapassando pela primeira vez a barreira dos 20%.
Por que motivo os jovens estão a desistir do casamento
O inquérito, conduzido em junho de 2025, recolheu respostas válidas de 6.756 solteiros e 5.024 casais, cobrindo homens e mulheres solteiros entre os 18 e os 54 anos e casais em que a esposa tem menos de 55 anos. No total, participaram mais de 11 mil pessoas.
Um dos dados mais reveladores do estudo tem a ver com a forma como os japoneses encaram hoje os benefícios de estar casado. A proporção de homens que não vê qualquer vantagem no casamento subiu cerca de sete pontos percentuais, para 42,8%, e entre as mulheres a subida foi semelhante, atingindo os 36%. Cada vez menos pessoas acreditam que o casamento lhes traria filhos ou uma família, tranquilidade de espírito ou maior segurança financeira, valores que anteriormente pesavam bastante nesta decisão.
Um responsável do NIPSSR resumiu a mudança de mentalidade da seguinte forma:
“Cada vez mais pessoas acreditam que não se sentirão sozinhas mesmo que continuem a viver sozinhas, ao mesmo tempo que mais pessoas nunca tiveram contacto com bebés, e estas tendências estão também ligadas à baixa vontade de casar e de ter filhos“.
Ainda assim, estas posições não são necessariamente definitivas. Uma parte considerável de quem hoje diz não querer casar admite que essa opinião pode mudar, sobretudo se conhecer alguém com quem realmente queira construir uma vida ou se a sua situação financeira melhorar de forma significativa.
As aplicações de encontros ganham terreno
Enquanto a vontade de casar recua, a forma como os casais japoneses se conhecem está a mudar de forma acentuada. Entre os casais que se uniram nos últimos cinco anos, 20,2% conheceram-se através de aplicações de encontros ou redes sociais, uma fatia praticamente equivalente à de quem se conheceu no trabalho (20,9%) ou através de amigos e familiares (20,2%). Este valor representa quase o dobro do registado no inquérito anterior, altura em que apenas cerca de 11% dos casais recorriam a estes meios digitais para conhecer o par.
Cada vez menos filhos, e cada vez menos vontade de os ter
O desinteresse pelo casamento anda de mãos dadas com uma quebra ainda mais expressiva na vontade de ter filhos. Segundo o mesmo levantamento, um terço dos homens solteiros (33,0%) e quase um terço das mulheres solteiras (32,4%) afirmam não querer ter nenhum filho, um salto de 9,8 e 8,8 pontos percentuais, respetivamente, face a 2021. O número médio de filhos desejado por solteiros caiu para 1,30 nos homens e 1,36 nas mulheres, mínimos históricos que contrastam com o valor de 1,56 registado para ambos os sexos há quatro anos.
Mesmo entre quem já está casado, o otimismo em relação à parentalidade está a esbater-se. O número ideal de filhos apontado pelos casais japoneses ronda os 2,18, mas o número que efetivamente planeiam vir a ter caiu para 1,95, abaixo de dois pela primeira vez. O motivo mais apontado para não ter o número de filhos considerado ideal continua a ser o custo elevado de criar e educar uma criança.
Estes resultados surgem no mesmo momento em que o Japão regista novos mínimos na natalidade. A taxa de fecundidade do país caiu para 1,14 em 2025, um novo recorde negativo, com o número de nascimentos a fixar-se em 671.236, um valor que as próprias projeções oficiais só esperavam atingir em 2040.
Os investigadores do NIPSSR sublinham que o afastamento em relação ao casamento e à parentalidade não resulta de um único fator, mas sim de uma combinação de razões económicas e culturais que se têm vindo a acumular ao longo dos últimos anos, salários que não acompanham o custo de vida, maior aceitação social de viver sozinho e uma relação cada vez mais distante com crianças pequenas, especialmente entre quem cresceu em famílias mais pequenas ou sem irmãos.
Este inquérito é conduzido pelo instituto japonês desde 1940, quase sempre com uma periodicidade de cinco anos, e é um dos principais termómetros usados pelo governo do Japão para acompanhar a evolução da natalidade e da nupcialidade no país, dois indicadores que continuam a pesar fortemente nas políticas públicas voltadas para o envelhecimento da população.









