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10 animes de fantasia sombria que quase ninguém se lembra de ter visto

O género de fantasia sombria não precisa de audiências milionárias para deixar marca. Isso é algo que se percebe rapidamente ao revisitar o catálogo de anime dos últimos vinte e cinco anos, onde continuam escondidas séries capazes de rivalizar, em atmosfera e construção de mundo, com muito do que hoje domina o streaming. A diferença é que praticamente ninguém fala delas.

10
Rage of Bahamut: Genesis

Rage of Bahamut Genesis

Um dragão preso há séculos, uma caça ao tesouro que rapidamente se transforma em algo bem maior, e um elenco de personagens divididos entre lealdades que mudam a cada episódio. É este o esqueleto de Rage of Bahamut: Genesis, produzido pelo estúdio MAPPA, que consegue transformar uma premissa de aventura relativamente simples numa guerra entre humanos, demónios e deuses cujo desfecho ninguém consegue prever com facilidade.

O que distingue esta série de outras produções de fantasia mais previsíveis é o equilíbrio entre tons opostos. Favaro traz humor e sarcasmo praticamente a cada cena, mas isso nunca retira peso ao conflito principal, porque todas as personagens têm algo genuíno a perder caso Bahamut desperte. É essa combinação entre leveza e consequência real que torna as tragédias da série ainda mais difíceis de engolir quando finalmente acontecem.

9
Le Chevalier D’Eon

Poucas séries se atrevem a misturar figuras históricas reais com ocultismo da forma como Le Chevalier D’Eon o faz. A acção decorre na França do século XVIII, e segue D’Eon de Beaumont numa investigação à morte misteriosa da irmã, cujo espírito passa a possuir o seu corpo durante os confrontos contra uma conspiração ligada a forças ocultas que ameaçam toda a Europa.

A grande qualidade da série está em nunca tratar a História apenas como cenário decorativo. Cortes reais, sociedades secretas e tensões religiosas influenciam diretamente a investigação, o que dá credibilidade a uma história onde espíritos e rituais divinos surgem constantemente. Esse cuidado em ancorar o sobrenatural na política real da época é o que torna Le Chevalier D’Eon praticamente único dentro do subgénero de fantasia histórica.

8
Boogiepop Phantom

Boogiepop Phantom

Aqui não há monstros no sentido tradicional. Boogiepop Phantom prefere explorar cicatrizes emocionais deixadas por trauma, solidão e obsessão, através de uma narrativa fragmentada em que personagens aparentemente sem qualquer ligação entre si acabam unidas por acontecimentos sobrenaturais difíceis de explicar. Cada episódio funciona quase como uma peça de puzzle, recompensando quem presta atenção em vez de entregar respostas óbvias.

Mais do que a história em si, é a atmosfera que torna esta série memorável. Imagens esbatidas, um design sonoro perturbador e uma estrutura deliberadamente confusa criam um desconforto constante, ao ponto de o mundo comum começar a parecer ameaçador muito antes de qualquer coisa sobrenatural surgir de facto. A sugestão de que as forças mais sombrias nascem, muitas vezes, dos próprios medos das personagens é o que fica na memória depois dos créditos finais.

7
Wolf’s Rain

Wolf's Rain anime visual

Estreado em 2003 pelo Studio Bones, o mesmo por trás de Cowboy Bebop, Wolf’s Rain continua a ser recordado com carinho por quem já o viu, mas raramente aparece nas conversas atuais sobre fantasia sombria. A premissa é simples de resumir e difícil de esquecer, lobos disfarçados de humanos atravessam um mundo em colapso à procura do Paraíso, na crença de que essa é a última hipótese de salvação antes do fim da civilização.

A série nunca reduz o seu cenário pós-apocalíptico a mero pano de fundo. Cada paisagem reflete o estado emocional das personagens, e a determinação de Kiba, o cinismo de Tsume, o optimismo de Hige e a inocência de Toboe entram em choque constante ao longo da viagem, permitindo que a dinâmica do grupo evolua de forma orgânica. A banda sonora de Yoko Kanno acaba por ser o toque final numa atmosfera que continua difícil de replicar mais de vinte anos depois da estreia.

6
Vampire Princess Miyu

Vampire Princess Miyu vai regressar

Enquanto a maioria dos animes de vampiros aposta em acção ou romance, Vampire Princess Miyu segue um caminho bem mais melancólico. Miyu não caça vampiros comuns; a sua função é devolver à escuridão os Shinma que conseguiram escapar, seres sobrenaturais que se alimentam de humanos. Cada missão obriga-a a testemunhar o medo, o arrependimento ou a solidão de outra pessoa, transformando cada episódio numa pequena tragédia em vez de um simples combate.

O que torna esta série especialmente marcante é a ausência quase total de resoluções fáceis. Salvar alguém tem quase sempre um custo emocional elevado, e a própria Miyu vive presa entre a humanidade e a imortalidade, sem pertencer verdadeiramente a nenhum dos dois lados. Em vez de recorrer a violência explícita, constrói a sua fantasia sombria através de tristeza persistente e imagens quase oníricas, deixando sempre claro que há feridas que nunca chegam a sarar.

5
Mars Red

Imagem promocional de Mars Red

Ambientado no Japão da década de 1920, Mars Red aborda os vampiros de uma forma pouco comum dentro do género: com contenção. O governo cria uma unidade militar especial para investigar o aumento da actividade vampírica, mas rapidamente a história se afasta da caça a monstros para se concentrar em identidade, luto e no que significa continuar a viver depois de perder tudo o que dava sentido à existência.

A apresentação quase teatral dá à série um ritmo muito próprio, distante das produções sobrenaturais mais aceleradas do mesmo tema. As conversas pesam tanto quanto os combates, porque cada personagem principal reage de forma diferente à imortalidade, criando conflitos movidos por filosofia pessoal em vez de simples sobrevivência. Esse ritmo mais lento pode ter limitado o alcance de Mars Red junto de um público habituado a mais acção, mas é também o que dá aos momentos emocionais um peso que raramente se vê noutras histórias de vampiros.

4
Trinity Blood

Mangá de Trinity Blood termina em Abril

Séculos depois de um apocalipse devastador, humanos e vampiros tentam manter uma paz frágil em Trinity Blood, enquanto extremistas de ambos os lados ameaçam constantemente reacender uma guerra catastrófica. O Padre Abel Nightroad parece um sacerdote comum, mas esconde capacidades assustadoras que o tornam uma das poucas pessoas capazes de evitar o colapso total desse equilíbrio.

O que separa esta série de um anime de acção convencional é a complexidade política que a atravessa. Instituições religiosas, famílias reais e líderes militares perseguem objectivos frequentemente contraditórios, o que garante que nenhum conflito tem uma solução simples e que nenhuma facção sai completamente inocente. Em vez de tratar a guerra como inevitável, Trinity Blood questiona repetidamente se a paz consegue sobreviver depois de gerações inteiras moldadas pelo medo mútuo.

3
Bastard!!

Bastard!!

Bastard!! nasceu numa altura em que o mangá e o anime de fantasia celebravam abertamente o exagero, e a adaptação nunca esconde essas raízes. Dark Schneider domina praticamente todas as cenas com um poder mágico esmagador, mas o interesse da série vai bem além de ver um feiticeiro demasiado poderoso a destruir tudo à sua volta.

O mundo construído à sua volta está cheio de reinos caídos, profecias antigas, demónios e magos rivais, oferecendo conflitos suficientemente grandiosos para acompanhar um protagonista tão desmedido. Em vez de procurar qualquer realismo contido, a série entrega-se por completo a uma estética de fantasia inspirada em heavy metal, tornando cada feitiço e cada batalha propositadamente extravagante. Por baixo de todo esse espectáculo, mantém-se uma pergunta constante, será que alguém com tanto poder consegue algum dia escapar aos próprios erros do passado?

2
Witch Hunter Robin

Ao contrário da maioria dos animes sobrenaturais, que costumam abrir logo com batalhas em grande escala, Witch Hunter Robin começa devagar, quase como uma série policial. Robin Sena junta-se à STN-J, uma organização responsável por localizar bruxas cujas capacidades ameaçam a sociedade, mas cada missão vai revelando verdades desconfortáveis tanto sobre quem caça como sobre quem é caçado.

É essa paciência que sustenta a série. Em vez de correr para a acção, prefere construir tensão através de pequenos detalhes e silêncios, deixando que a suspeita substitua lentamente a certeza. Quando a conspiração se revela por completo, Witch Hunter Robin já deixou de ser um simples mistério sobrenatural episódico para se tornar uma reflexão bem mais séria sobre medo, preconceito e controlo institucional.

1
Now and Then, Here and There

Os maiores horrores de Now and Then, Here and There não vêm de criaturas sobrenaturais, mas de acções humanas, o que torna esta série particularmente devastadora. Shu, um rapaz comum, é subitamente transportado para um mundo árido governado pelo tirânico Rei Hamdo, onde crianças são obrigadas a servir no exército e sobreviver depende de suportar níveis de crueldade quase incompreensíveis.

Cada dificuldade parece dolorosamente credível, o que aproxima este cenário de fantasia de conflitos muito reais. O que separa esta série da maioria dos animes esquecidos do género é a recusa em suavizar a mensagem, o sofrimento nunca é usado apenas para chocar, e cada tragédia reforça as consequências da guerra e do autoritarismo. A recusa de Shu em abdicar da própria humanidade acaba por ser o pequeno acto de resistência que sustenta toda a história.

ViaCBR
Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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