Há séries anime que nunca tiveram problemas em incomodar quem as vê. Ao longo dos últimos anos, alguns títulos foram tão longe em termos de violência, temas psicológicos pesados ou críticas políticas disfarçadas de comédia que acabaram mesmo por ser proibidos em determinados países, seja por decisão de tribunais, seja por pressão popular.
5Hetalia: Axis Powers
Hetalia: Axis Powers segue uma lógica pouco comum, em vez de heróis e vilões, a série transforma países inteiros em personagens caricatas, cujas relações servem de paródia a episódios reais da história mundial, com destaque para a Segunda Guerra Mundial.
Essa abordagem descontraída acabou por gerar um dos maiores escândalos da história recente do anime fora do Japão. Em 2009, dias antes da estreia da série no canal japonês Kids Station, surgiu uma petição a exigir o cancelamento da emissão, que reuniu mais de 10 mil assinaturas em menos de 24 horas. Chegaram mesmo a circular relatos de ameaças de morte dirigidas ao estúdio responsável pela produção.
No centro da polémica estava a personagem que representa a Coreia do Sul, Im Yong Soo, cuja caracterização recuperava estereótipos associados ao período de ocupação colonial japonesa na península coreana. O timing não podia ter sido pior, as relações diplomáticas entre os dois países viviam então um momento particularmente delicado, marcado por disputas históricas em torno de reparações de guerra ainda por resolver.
Perante a pressão, o estúdio optou por retirar a personagem sul-coreana da emissão televisiva, na esperança de acalmar os ânimos. Não resultou. O problema nunca foi apenas uma personagem, mas sim a forma como toda a série tratava com humor um período histórico marcado por décadas de ocupação e sofrimento. Aquilo que no Japão podia passar por simples sátira despretensiosa tinha um significado completamente diferente para gerações de coreanos cujos avós viveram esse domínio colonial na pele.
4Elfen Lied
Poucas séries anime carregam uma reputação tão pesada quanto Elfen Lied. Em 2015, o Ministério da Cultura chinês decidiu incluir a obra na sua lista negra de conteúdos proibidos, apontando como justificação os níveis extremos de nudez e violência gráfica presentes ao longo da série, que consideraram incompatíveis com as normas de decência pública do país.
A verdade é que Elfen Lied nunca foi pensada para ser confortável. A série recusa-se a permitir que o espectador aprecie a violência à distância, sem confrontar a sua origem. A ideia central que a atravessa é a de que a capacidade de infligir sofrimento extremo e a experiência de o sofrer não são opostos, mas sim duas faces da mesma ferida, uma abordagem que a distingue de outras obras que exploram a violência apenas pelo choque visual.
Um bom exemplo disso são os chamados Vectors da protagonista Lucy, braços invisíveis capazes de desmembrar tudo o que tocam, e que estão diretamente ligados a uma infância marcada por isolamento e crueldade institucional. O contraste entre a icónica abertura da série, com pinturas de Klimt animadas ao som do tema Lilium, e a violência crua que se segue quase de imediato, continua a ser um dos momentos de contraste tonal mais discutidos.
Curiosamente, a China não foi o único país a reagir a Elfen Lied, embora cada um o tenha feito por motivos diferentes. A Rússia, a Alemanha e a Austrália impuseram também restrições à série ao longo dos anos, seja por preocupações ligadas ao impacto psicológico do conteúdo, seja por questões relacionadas com normas de transmissão televisiva ou limites de classificação etária. O facto de quatro sistemas regulatórios tão distintos terem decidido intervir, cada um à sua maneira, diz muito sobre até que ponto esta série testou os limites daquilo que cada mercado estava disposto a tolerar.
3Inuyashiki: Last Hero
Nem todos os vilões de anime são tratados com a mesma distância confortável do costume, e Hiro Shishigami é prova disso. O antagonista adolescente de Inuyashiki: Last Hero usa o seu corpo mecânico para cometer assassínios em massa de forma praticamente aleatória, sem que a série tente humanizá-lo através de uma história de fundo redentora. Em vez disso, Hiro é retratado com um vazio emocional muito particular, que a obra nunca suaviza para tornar mais digerível.
Foi provavelmente esse tom cru que levou a agência reguladora russa Roskomnadzor a proibir a série em 2018, ainda que o motivo formal apresentado tenha sido a ausência de uma classificação etária adequada nas plataformas de streaming que a disponibilizavam no país. A proibição chegou a ser levantada assim que essa classificação foi corrigida, mas o alívio durou pouco.
Em 2021, um tribunal de São Petersburgo voltou a colocar Inuyashiki: Last Hero na mira, desta vez como parte de um processo mais alargado que visava simultaneamente Death Note, Tokyo Ghoul e Elfen Lied. Segundo os juízes, os conteúdos retratavam crueldade, assassínio e violência de uma forma capaz de influenciar negativamente o comportamento de menores.
Há, no entanto, algo de irónico nesta reação. As autoridades russas não estavam propriamente erradas ao dizer que a série retrata crueldade e morte de forma explícita, estavam é erradas ao assumir que mostrar essas coisas com seriedade, sem as filtrar ou embelezar, equivale automaticamente a promovê-las.
2Tokyo Ghoul
Tokyo Ghoul é, à primeira vista, uma história de terror visceral. Mas por trás do sangue e das cenas mais gráficas esconde-se uma narrativa profundamente humana sobre identidade, preconceito e sobrevivência. A transformação do protagonista Ken Kaneki, de estudante universitário comum a meio-ghoul, obriga-o a viver permanentemente dividido entre dois mundos em conflito, dando à história um peso emocional que ultrapassa em muito a sua ação mais brutal.
Essa crise de identidade nunca se resolve de forma simples. Kaneki não se torna claramente humano nem claramente monstro; vive antes numa negociação constante e desgastante entre duas naturezas biológicas incompatíveis. Foi precisamente essa combinação de violência gráfica, desmembramento e canibalismo que transformou a série num alvo recorrente de censura em diferentes países.
Em 2015, a China decidiu banir Tokyo Ghoul no âmbito de uma campanha nacional mais vasta contra conteúdos considerados excessivamente violentos ou prejudiciais para menores, que resultou na remoção de dezenas de séries anime e mangá das plataformas chinesas. A Rússia seguiu-se em 2021, depois de surgirem relatos de adolescentes que teriam começado a coser linhas na própria pele, imitando a estética visual da série.
Apesar de tudo isto, Tokyo Ghoul continua a ser uma das franquias de terror mais reconhecíveis do panorama do anime, e a sua reflexão sobre a fronteira ténue entre humanidade e monstruosidade continua a conquistar novos fãs, ano após ano, por todo o mundo.
1Death Note
Death Note foi outro dos nomes incluídos na lista negra chinesa de 2015, desta vez devido à alegada influência corruptora que a série poderia exercer sobre os espectadores mais jovens. A preocupação das autoridades não era meramente teórica, chegou a haver relatos de alunos na província de Guangzhou que criaram os seus próprios cadernos ao estilo do caderno da morte, escrevendo neles nomes de colegas e professores, à semelhança do que faz o protagonista Light Yagami ao longo da série.
A Rússia acabaria por seguir um caminho semelhante em 2021, quando um tribunal de São Petersburgo determinou que Death Note incentivava a violência e a crueldade entre menores. Durante o processo, um perito ligado à acusação chegou mesmo a argumentar que o conteúdo da série era prejudicial para a saúde psicológica dos jovens espectadores.
O que torna este caso particularmente interessante não é tanto a proibição em si, mas aquilo que ela revela sobre o impacto real que Death Note teve junto do público. Governos raramente decidem proibir obras que não têm qualquer tipo de repercussão social, e o facto de duas das maiores potências mundiais terem chegado, de forma completamente independente uma da outra, à mesma conclusão de que esta fantasia sobre um caderno capaz de matar exigia intervenção legislativa, acaba por ser talvez a prova mais convincente de que o fascínio psicológico gerado por Death Note foi, de facto, muito real.








