Designer de personagens de Jojo desabafa sobre o seu desapontamento com a indústria de animes

No seguimento dos reportes às más condições de trabalho do estúdio Madhouse, onde seus trabalhadores chegaram a trabalhar 220 horas extras e cerca de 393 horas em apenas um mês, a designer de personagens de JoJo’s Bizarre Adventure: Diamond Is Unbreakable e também animadora em animes como Saint Seiya, Death Note, One Piece, Inuyasha etc, Terumi Nishii, desabafou sobre as suas experiências na indústria e digamos que essas declarações não foram nada levianas.

Junto com a entrevista ao assistente de produção autointitulado de Sr. A, o próprio revelou também a reação do resto do staff quando a situação foi revelada ao publico.

Por ser uma situação bem atribulada, como era já claro, o diretor e o resto do staff ficaram zangados comigo. Eu às vezes zangava-me com a staff e com o produtor, vou sentir falta disso! Foi-me dito que antes de ir para casa eu devia fazer um pedido de desculpas e assumir a responsabilidade pela situação!

Sobre a “Black Corporate Union”, Sr. A referiu que a corporação está a ser cada fez mais reconhecida e notada na indústria e muitas pessoas já a declaram como um “mal” necessário para a constituição da indústria. A corporação é apenas constituída por voluntários que trabalham ou trabalharam antes na indústria com apenas o objetivo de melhorar as suas condições. Qualquer membro da indústria que se sinta em sofrimento pelas fracas condições de trabalho será bem vindo a pedir aconselhamento.

Sr. A terminou dizendo,

Este caso não é apenas limitado ao estúdio Madhouse. O mesmo processo de produção é usado em outros estúdios, principalmente em animes regulares transmitidos na TV, onde chegam a ser contabilizadas cercas de 100 a 200 horas de trabalho extras. Conheço até um estúdio de produção subcontratada que não tem cartão que marca as entradas e saídas dos empregados.

Naturalmente, maior parte das pessoas que trabalham na indústria, gosta mesmo que um pouco de anime. Eu também gosto de anime, no entanto não estou disposto a produzir animes ao preço de comida, roupa e abrigo. Eu pretendo considerar a produção de animes como um ‘trabalho’.

A Madhouse questionada sobre a situação revelou que recebeu uma indicação do Departamento de Motorização dos Padrões de Trabalho, e que irá dar uma resposta apropriada.

Naturalmente, depois de todas estas notícias, os diretores, animadores e outros membros da indústria deram os seus pontos de vista sobre a situação. E nas últimas horas, das mais notáveis declarações têm sido de Terumi Nishii, agora designer de personagens e anteriormente animadora. Terumi começou por dizer:

A coisa mais assustadora sobre a indústria de animes é que o mesmo processo de produção que tem sobrecarregado os staffs tem sido usado também no passado e até hoje não mudou incluindo o sistema de produção.

Terumi continuou o seu desabafo dizendo que não é recomendável ir para o Japão para trabalhar em animes, porque é muito sobcarregada por tantos trabalhos. Acrescentou ainda:

“Estou muito desapontada com a indústria de animação japonesa”

Terumi falou ainda sobre o sistema de royalty, ou a sua falta, na indústria. Citando que simplesmente não existe, para os designers de personagens, o material que é desenhado é coletado e simplesmente descartado. Continuou dizendo que a industria não tem melhorado ao longo das décadas e que os animes têm um orçamento surpreendentemente baixos, no entanto a sua qualidade é elevada, por isso existem os salários baixos e as longas horas de trabalho. Mesmo que seja possível, os orçamento não serão aumentados, e pensa que os animadores japoneses deviam procurar beneficiar mais do capital de fora. (Como a própria Terumi, que vende os seus trabalhos de arte, como ilustrações e o seu próprio manga para todo o mundo e costuma frequentar eventos fora do Japão para divulga-los e também vende-los)

Terumi ainda comentou sobre o seu salário como iniciante e freelancer (muitas vezes abaixo do salário mínimo). O seu primeiro salário foi de apenas 2800 ienes, ao fim de um mês de experiência passou a receber 60 mil a 100 mil ienes por mês.

O animador americano Henry Thurlow que trabalha na indústria de anime no Japão à cerca de 10 anos, também comentou o caso e disse que no começo como animador iniciante com o que ganhava por pouco dava para sobreviver, embora muito dificilmente. No entanto, subindo de posição para animador-chave e diretor no seu novo estúdio a situação melhorou ligeiramente, apesar de que a diferença do que ganha com a sua experiencia no Japao seria drasticamente maior em produções ocidentais. Terminou dizendo que sendo um animador experiente de 34 anos, não ganha um decimo do que um animador iniciante de 23 anos ganha nos EUA.

Thomas Romain que trabalhou em Space Dandy como artista de backgrounds e recentemente está envolvido com a arte de background de Carole &Tuesday com o seu recém fundado estúdio “No Border” em Tokyo, contou uma história que revela bem a mentalidade de uma trabalhador japonês.

Há cerca de dois anos um amigo meu trabalhou por cerca de 55 horas consecutivas para terminar alguns backgrounds para um anime comercial. Ninguém da staff o aconselhou a ir para casa. Ele destruiu a sua saúde e não recebeu nada pelas suas horas extra. Na verdade, eu penso que ninguém se apercebeu que ele estava a fazer todas aquelas horas. Quando ele contou ao diretor que trabalhou tanto, ele apenas sorriu. Eu fiquei muito irritado na altura. Esta e outras dúzias de historias definiram uma certa distancia entre mim e a má gerência. Muitas pessoas na indústria de anime perderam simplesmente o bom senso. Condições horríveis se tornaram a norma.

Gem animadora em Mob Psycho 100, Boruto #65 e Black Clover também comentou a situação do ponto de vista de alguem que trabalha em anime mas de fora do Japão como animadora webgen (digital).