Há precisamente sete anos, a batalha entre Tanjiro Kamado e Rui, no episódio 19 de Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba, tornou-se num dos momentos mais marcantes da história recente do anime. Mais do que uma cena memorável, o confronto estabeleceu-se como um verdadeiro ponto de viragem para a indústria que além demonstrar o impacto que uma produção televisiva de anime podia alcançar também moldou as expectativas em torno da qualidade visual e da realização na industria. Embora Demon Slayer já fosse uma adaptação bem recebida desde a sua estreia em 2019, foi esta cena que transformou a obra num fenómeno global e alterou a forma como estúdios, editoras e comités de produção passaram a encarar os animes de grande orçamento.
Antes de Demon Slayer, a indústria seguia um modelo bastante diferente. Durante muitos anos, as séries eram produzidas de forma contínua, com dezenas ou centenas de episódios transmitidos semanalmente que obrigavam os estúdios a trabalhar com prazos extremamente apertados. Como consequência, era difícil manter uma qualidade de animação consistente ao longo de toda a série. Os episódios mais importantes recebiam algum cuidado adicional, mas raramente existia um investimento capaz de elevar uma produção televisiva a um nível próximo do cinema. O mercado internacional também tinha um peso muito inferior ao atual, uma vez que as plataformas de streaming ainda não desempenhavam o papel central que têm hoje e muitos animes demoravam meses ou até anos a chegar ao Ocidente.
De salientar que Attack on Titan iniciou parte desta transformação. Quando estreou em 2013, a adaptação do manga de Hajime Isayama demonstrou que um anime podia tornar-se um fenómeno mundial graças à qualidade da produção, à narrativa madura e ao lançamento quase simultâneo em vários mercados através do streaming. A série ajudou a conquistar uma nova geração de espetadores fora do Japão e provou que o anime podia competir diretamente com grandes produções televisivas ocidentais, tais como Game of Thrones. No entanto, foi Demon Slayer que levou esta evolução um passo mais além, ao demonstrar que um único episódio podia tornar-se viral em todo o mundo e redefinir os padrões técnicos da animação televisiva.

Produzida pela Ufotable, a batalha entre Tanjiro e Rui destacou-se pela extraordinária combinação entre animação tradicional e efeitos digitais, pela utilização de ângulos de câmara ousados, pela iluminação dinâmica, pela composição cinematográfica e por uma fluidez de movimentos raríssima numa série televisiva semanal. No entanto, o verdadeiro impacto desta cena não resultou apenas da sua qualidade técnica. O momento em que Tanjiro desperta a Hinokami Kagura, acompanhado pela música “Kamado Tanjiro no Uta”, enquanto Nezuko utiliza o seu poder para proteger o irmão, criou uma das cenas mais emocionantes da animação moderna. A luta conseguiu equilibrar ação, emoção, narrativa, desenvolvimento das personagens e banda sonora de uma forma que marcou milhões de espetadores em todo o mundo.
O impacto foi imediato. O episódio dominou as redes sociais em todo o mundo, gerou milhões de visualizações em vídeos de reação e análise e impulsionou significativamente as vendas do mangá de Koyoharu Gotouge. Demon Slayer deixou de ser apenas um anime popular para se tornar um fenómeno cultural à escala mundial. Este sucesso abriria caminho para Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba – The Movie: Mugen Train, que se tornou o filme de anime com maior receita da história e demonstrou que uma adaptação produzida com elevados valores de produção podia gerar retornos financeiros sem precedentes.

O episódio 19 também alterou profundamente a estratégia da indústria. Os estúdios perceberam que investir mais tempo, orçamento e talento em episódios decisivos podia transformar uma série num fenómeno global. A partir deste momento, tornou-se cada vez mais comum reservar meses de produção para os confrontos mais importantes recorrer a alguns dos melhores animadores da indústria, a uma realização cinematográfica e a uma banda sonora cuidadosamente sincronizada com cada momento emocional. Paralelamente, consolidou-se o modelo de temporadas mais curtas e com maior qualidade que substituíram gradualmente as longas séries contínuas que dominaram o mercado durante décadas.
Esta mudança pode ser observada em várias das maiores produções da atualidade. Em Black Clover, confrontos como Asta contra Dante, Asta e Yami contra Dante ou Noelle contra Megicula receberam um tratamento visual muito superior ao habitual, com animação mais elaborada, efeitos especiais mais sofisticados e uma direção artística focada em criar momentos memoráveis.

One Piece representa um dos exemplos mais claros desta transformação. Durante anos, a adaptação da Toei Animation foi frequentemente criticada pelas limitações impostas pelo ritmo semanal. No entanto, a partir do arco de Wano, o estúdio iniciou uma profunda renovação da sua abordagem visual. Batalhas como Luffy contra Kaido, Zoro contra King e Sanji contra Queen receberam uma animação muito mais fluida, enquadramentos cinematográficos, efeitos visuais modernos e uma direção artística que aproximou a série dos padrões estabelecidos pelas produções cinematográficas de altíssimo orçamento. Esta evolução manteve-se no arco de Egghead, onde a qualidade da animação voltou a atingir níveis muito elevados, e julgo que com 25 episódios por ano daqui em diante se deve manter.

BLEACH também reflete esta nova realidade. O regresso da série com BLEACH: Thousand-Year Blood War demonstrou uma mudança significativa na filosofia do Studio Pierrot. Em vez de regressar ao formato semanal contínuo, a adaptação passou a ser lançada em partes o que permitiu mais tempo para a produção trabalhar em cada episódio. O resultado foi uma animação muito mais consistente, com batalhas como Yamamoto contra Yhwach, Kenpachi contra Gremmy, Ichigo contra Yhwach e Shunsui contra Lille Barro a apresentarem uma qualidade visual e cinematográfica muitíssimo superior à do anime original.

As temporadas finais de Attack on Titan, produzidas pelo MAPPA, também evidenciam esta evolução. O estúdio continuou o incrível trabalho do WIT Studio das temporadas anteriores, mas imprimiu-lhe uma abordagem mais cinematográfica com uma direção cuidada, iluminação dinâmica composição digital avançada e episódios concebidos para causar um enorme impacto emocional. Confrontos como Levi contra Zeke, a ativação do Rumbling e a batalha final contra Eren demonstram a nova filosofia da indústria, onde as sequências mais importantes recebem um investimento muito superior ao habitual. A decisão de dividir a reta final da série em várias partes permitiu ainda mais tempo para aperfeiçoar a produção, uma estratégia cada vez mais utilizada pelos grandes estúdios.
Até Dragon Ball, uma das séries que definiu o género shonen muito antes de Demon Slayer, acabou por refletir esta evolução. Embora a série sempre tenha sido conhecida pelas suas batalhas épicas, projetos recentes, tais como Dragon Ball Super: Broly e Dragon Ball Daima demonstram uma maior preocupação com a coreografia, a realização cinematográfica, a animação de personagens e a integração entre técnicas tradicionais e efeitos digitais. A prioridade deixou de ser apenas apresentar confrontos intensos e passou também por criar um espetáculo visual capaz de impressionar quer para os fãs de longa data como para uma nova geração de espetadores.

Mais do que influenciar o estilo visual de outras obras, a batalha entre Tanjiro e Rui mudou a mentalidade da indústria. Os estúdios compreenderam que uma única sequência, quando produzida com o máximo cuidado, podia transformar um anime num fenómeno mundial, impulsionar as vendas do mangá, aumentar a procura por merchandising, atrair novos assinantes para as plataformas de streaming e gerar receitas suficientes para justificar investimentos cada vez maiores. O conceito de “episódio evento” ou “Breaking the Internet” pensado para dominar as redes sociais e tornar-se viral em todo o mundo, tornou-se uma estratégia seguida por inúmeras produções.
Se Attack on Titan abriu as portas para a globalização do anime moderno, Demon Slayer mostrou como essa popularidade podia ser amplificada através de uma produção de excelência e de momentos capazes de marcar uma geração. Juntas, estas duas obras redefiniram os padrões da animação japonesa e influenciaram diretamente a evolução de séries, tais como One Piece, BLEACH, Black Clover e Dragon Ball. O legado da batalha entre Tanjiro e Rui continua evidente vários anos depois da sua estreia e permanece como um dos momentos que mais contribuíram para moldar o presente e o futuro da indústria do anime.










Só faltou dizer que demon Slayer foi o primeiro anime de ufotable, e que ep 19 foi foi o ep mais bem animado de ufotable até aquela data. 🤦🤦
Para ser sincero acho que foi um dos Fate (talvez o Zero) não tenho a certeza. Quanto ao episódio 19 foi o que conciliou o sucesso da série. Anteriormente tiveste ótimas animação, mas foi este episódio que foi mais além.
O ponto principal da matéria não foi exaltar o episódio, e sim constatar um fato. O episódio 19 de Demon Slayer quase parou a internet, ainda que até hoje eu não entenda exatamente o porquê (Fate já existia).
Penso que foi devido à época. Lembro-me muito bem de anime semanal ter uma péssima arte e animação, por exemplo o episódio 5 de Dragon Ball Super foi lendário por ter uma das piores artes. Anteriormente tiveste ótima arte e animação, mas encaixares tudo numa cena Demon Slayer foi o primeiro.
Sempre achei que esse episódio realmente mudou a indústria na época com a repercussão absurda que teve (apesar de eu nunca ter achado grande coisa, visto que a Ufotable já entregou cortes extraordinários antes), que bom que encontrei alguém fazendo uma matéria sobre isso.
Excelente escrita!
Quanto a isso, eu discordo. Não sei se foi tradução, então faltou revisão. No primeiro parágrafo com um erro de escolha vocabular e no terceiro parágrafo seria adequado o verbo delegação e não uma preposição para iniciá-lo. Quanto à análise, essa percepção natural do impacto docepisodio, eu concordo totalmente. Assistam com as luzes apagadas. Só a luz da TV. O impacto para mim, mudou minha visão do nível de tratamento do episódio, fora a construção do roteiro até esse ponto.
O que o Mappa fez com Attack o Titan nunca vai chegar aos pés do que o WIT fez na ultima temporada que trabalharam. E dividir o final num monte de partes pequenas e um filme, e não manter o Sawano na composição das músicas só fez tudo ficar ainda pior.
Se a wit studios tivesse continuado com AOT, o anime teria tido muito mais sucesso, tudo que o MAPPA agarrou da wit só estragou, exemplo perfeito, viland saga
O que o Mappa foi levar direção a de AOT para uma vertente mais cinematográfica por exemplo a fotografia neste estúdio apresenta um maior cuidado. Quanto ao Vinland Saga , as suas temporadas são radicalmente diferentes.
Por mais que eu achei Mappa bem inferior, PELO MENOS a mudança de staff, compositor, arte, combinou com o timeskip e a nova atmosfera da história, coincidência ou não.
Não nos podemos esquecer que Attack on Titan 4 é um anime do estado. O WIT Studio queria mesmo parar na temporada 3, mas pelo desejo dos fãs, e até país, o comité e a NHK aceitaram acarretar o financiamento e dar a imagem para produzir a última temporada. No que diz respeito a várias partes não sei se teve influência, ou foi mesmo para monetizar o máximo possível.
DRAGON BALL SEMPRE SERÁ O MELHOR ANIME♡
Um dos mais influentes sem dúvida.