
O número de suicídios entre alunos do ensino básico e secundário no Japão atingiu em 2025 o valor mais alto desde que existem registos comparáveis, iniciados em 1980. Foram 538 casos, mais nove do que no ano anterior, segundo os dados finais divulgados pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar japonês. É a segunda vez consecutiva que o país bate este triste recorde, depois de o valor já ter ultrapassado a barreira dos 500 casos em quatro dos últimos quatro anos.
Por trás do número está uma tendência que preocupa investigadores e educadores: o silêncio. Uma equipa da Universidade de Tokai entrevistou 100 menores hospitalizados na sequência de tentativas de suicídio para perceber se alguma vez tinham partilhado com alguém o desejo de morrer. Em 76 dos casos, a resposta foi não, mantiveram tudo só para si.
Katsuo Mikami, professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Tokai, associa este isolamento a um padrão que se instala desde cedo na vida destas crianças e jovens. Nas suas palavras: “Por várias razões, parece que vão perdendo gradualmente a capacidade de pedir conselhos a outras pessoas ou de expressar as suas emoções desde muito novos“.
Para tentar inverter esta espiral de silêncio, a Direção de Educação da cidade de Akashi, na província de Hyogo, promoveu recentemente uma sessão de trabalho para ensinar alunos do ensino básico e do ciclo preparatório a lançar um “SOS” quando precisam de ajuda. A iniciativa foi conduzida por Satomi Takahashi, especialista em enfermagem psiquiátrica e investigadora convidada na Universidade de Chuo, que perguntou diretamente aos alunos a quem recorreriam se estivessem a ser vítimas de bullying ou de exclusão por parte dos colegas.
As respostas revelaram uma desconfiança profunda em relação aos adultos que os rodeiam. Um dos alunos admitiu: “Provavelmente não contaria aos meus pais, porque eles ficariam só preocupados“. Outro foi mais longe, queixando-se de que os adultos “não ouvem a sério mesmo quando estamos a falar a sério“.
Quanto à hipótese de recorrer a um professor, a rejeição foi imediata. “De maneira nenhuma, nunca“, respondeu um dos jovens, acrescentando que os docentes “fazem disso um caso enorme“.
A inteligência artificial como confidente
Foi nesse contexto que surgiu, sem que ninguém tivesse perguntado diretamente por isso, uma alternativa inesperada: a inteligência artificial. “Eu usaria a IA“, confessou um dos alunos, gerando concordância imediata entre vários colegas, que se assumiram orgulhosamente do “lado da IA“. Um deles resumiu a razão de forma direta: “A IA é simplesmente mais fácil“.
A reação não surpreende quem acompanha a forma como os mais novos no Japão se relacionam com as ferramentas digitais, mas alerta para o vazio que estas parecem estar a preencher, a ausência de um adulto de confiança a quem recorrer num momento de crise.
Apesar dessa relutância generalizada em falar com adultos, Takahashi insistiu junto dos alunos para que não desistissem de procurar uma ligação humana. “Mesmo que a primeira pessoa não vos ouça, quero que continuem a tentar e não desistam até chegarem a uma terceira pessoa“, disse aos estudantes. “Existe definitivamente um adulto que quer ajudar-vos, por isso, por favor, procurem ajuda“.
A especialista sublinhou ainda que o primeiro passo passa por os próprios jovens reconhecerem o seu “SOS” interno, aprendendo a identificar quando se sentem magoados ou desconfortáveis. Já aos adultos, deixou uma indicação clara sobre como lidar com jovens em crise: “Não os tratem como crianças. Tenham um diálogo verdadeiro com eles“.
Os números de 2025 confirmam uma trajetória que já vinha a desenhar-se nos últimos anos. O total geral de suicídios no Japão caiu para 19.097 em 2025, o valor mais baixo desde que há registos, em contraste direto com a subida registada entre estudantes, um grupo que continua a ser afetado sobretudo por dificuldades escolares e por incerteza quanto ao futuro. Já em 2024, o país tinha registado 529 casos entre estudantes, um recorde histórico na altura.









