
O boom turístico do Japão, que parecia imparável desde a reabertura das fronteiras pós-pandemia, acabou de sofrer o primeiro travão em cinco anos. Os dados divulgados esta semana pela Organização Nacional de Turismo do Japão (JNTO) mostram uma quebra de 2% no número de visitantes estrangeiros no primeiro semestre de 2026, face ao mesmo período do ano passado. À primeira vista, pode parecer o fim de um ciclo. Na prática, o que os números revelam é uma reconfiguração, o país está a receber menos chineses, mas mais sul-coreanos, taiwaneses e norte-americanos, e os turistas que continuam a chegar estão a gastar mais do que nunca.
Entre janeiro e junho, o Japão recebeu cerca de 21,08 milhões de visitantes estrangeiros, segundo os dados oficiais avançados pela JNTO. É a segunda vez consecutiva que o país ultrapassa os 20 milhões de chegadas no primeiro semestre, mas é também a primeira quebra homóloga registada para este período desde a pandemia.
Isolar a causa é simples, os visitantes vindos da China caíram para cerca de 2,06 milhões entre janeiro e junho, uma redução de 56,4% face aos aproximadamente 4,72 milhões registados no mesmo período de 2025. Junho foi já o sétimo mês consecutivo de quebra homóloga vinda da China, com uma descida de 57,3% em relação a junho do ano passado.
Por trás destes números está uma crise diplomática. A queda está diretamente ligada a declarações feitas em novembro passado pela primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi, que admitiu a possibilidade de o Japão se envolver militarmente numa eventual contingência relacionada com Taiwan. Pequim, que reclama a soberania sobre a ilha, respondeu apelando aos seus cidadãos para evitarem viajar até ao Japão, um pedido que parece estar a ser amplamente seguido.
Coreia do Sul e Taiwan ocupam o espaço deixado pela China
Enquanto a China regista números cada vez mais baixos, outros mercados asiáticos estão a crescer a bom ritmo. A Coreia do Sul manteve-se como o maior mercado emissor de turistas para o Japão, com 5,68 milhões de chegadas no primeiro semestre, um aumento de 18,6%. Taiwan, por sua vez, cresceu 20,9%, chegando aos 3,97 milhões de visitantes, o suficiente para ultrapassar a China e tornar-se a segunda maior origem de turistas internacionais no país.
Também os Estados Unidos deram o seu contributo positivo, junho de 2026 foi o melhor mês de sempre para chegadas norte-americanas, com um crescimento de 2,7% face ao ano anterior.
Não se trata de um desinteresse generalizado pelo Japão como destino, mas de uma mudança na origem geográfica de quem visita o país.
Apesar da quebra no número total de chegadas, o dinheiro que entra no país através do turismo não parou de crescer. Entre abril e junho, os visitantes estrangeiros gastaram 2,51 biliões de ienes no Japão, o equivalente a cerca de 17 mil milhões de dólares, uma ligeira subida face ao ano anterior. O gasto médio por visitante atingiu também um novo recorde trimestral, fixando-se em 244.457 ienes, cerca de 1.500 dólares por pessoa.
Este é talvez o dado mais relevante para perceber o estado real do setor, mesmo com menos turistas a entrar, o Japão está a faturar mais do que nunca com cada um deles. O iene fraco continua a ser um fator central nesta equação, tornando o país particularmente atrativo para quem recebe salários em moedas mais fortes.









