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O amigo do assassino em massa que impediu uma nova tragédia em Tóquio

Um homem de 53 anos foi detido no Japão por preparar um ataque indiscriminado em Tóquio, depois de a polícia ter sido alertada por uma fonte pouco habitual, um antigo amigo próximo do autor do massacre de Akihabara, ocorrido em 2008. O caso, confirmado por várias agências noticiosas japonesas e internacionais, voltou a colocar em cima da mesa o peso das dificuldades económicas na origem deste tipo de violência.

Katsumi Mori, residente na cidade de Namerikawa, na prefeitura de Toyama, e atualmente desempregado, tinha reservado um bilhete de autocarro para Tóquio e preparado uma faca dentro da mochila, com a intenção de atacar aleatoriamente um grande número de pessoas na capital japonesa. A polícia de Toyama recebeu uma informação, no dia 11 de julho, de que um homem estaria a planear matar várias pessoas, e conseguiu identificar e deter Mori já no dia seguinte.

Em interrogatório, Mori admitiu grande parte das acusações que lhe são feitas. O motivo apresentado à polícia prende-se diretamente com o atual contexto económico do país: “Eu queria morrer porque estou com dificuldades em ganhar a vida com a inflação”, disse. O suspeito terá ainda explicado que esperava ser morto a tiro pela polícia ou condenado à pena de morte caso concretizasse um homicídio em massa na capital.

Mori foi indiciado por preparação de homicídio, uma acusação rara no sistema japonês precisamente por exigir provas de intenção antes de qualquer crime ter sido cometido. Tatsuyuki Narumi, antigo investigador da polícia da prefeitura de Kanagawa, elogiou a rapidez da resposta policial ao caso, se o suspeito tivesse chegado a Tóquio e cometido o crime, “teria sido tarde demais”.

A ligação a um dos crimes mais marcantes da história recente do Japão

Tudo indica que Mori se terá inspirado no massacre de Akihabara, ocorrido a 8 de junho de 2008, quando Tomohiro Kato conduziu um camião alugado contra uma multidão de peões numa das zonas mais movimentadas de Tóquio e, de seguida, esfaqueou várias pessoas ao acaso. O ataque matou sete pessoas e feriu outras dez. Kato foi condenado à morte e acabou executado em 2022, aos 39 anos.

Foi precisamente um antigo colega próximo de Kato quem, quase duas décadas depois, ajudou a travar um possível novo ataque com contornos semelhantes. Shuitsu Otomo, hoje com 50 anos, tem-se dedicado desde então a conversar com pessoas que revelam pensamentos violentos ou homicidas, um trabalho voluntário de sensibilização que o levou a receber uma mensagem direta do suspeito através da rede social X, a 1 de julho. Segundo o próprio Otomo, a mensagem sugeria algo como: “Talvez fosse bom morrer depois de causar um incidente como o de Akihabara”.

Como Otomo reconheceu os sinais de alerta

Este não foi o primeiro contacto do género recebido por Otomo ao longo dos últimos anos. A sua rotina, sempre que alguém lhe escreve deste modo, passa por deixar claro desde a primeira resposta que qualquer situação de risco de vida será reportada às autoridades. Neste caso, perante a ambiguidade da mensagem, Otomo perguntou diretamente ao suspeito se tencionava avançar com o plano; o homem não confirmou nem negou. Otomo convidou-o então para jantar, na tentativa de o distrair, mas o suspeito manteve o foco na viagem a Tóquio.

Quando Otomo voltou a questioná-lo de forma direta sobre as suas intenções, o homem respondeu que preferia não comentar, uma reação que, segundo o próprio Otomo, nunca tinha ouvido antes em todos os anos deste trabalho, e que o levou a decidir alertar a polícia de imediato.

Apesar de ter possivelmente evitado uma nova tragédia, Otomo não descreve o desfecho como um alívio simples. Sente que pouco mais fez do que denunciar alguém que procurava a morte, e teme que o problema tenha apenas sido adiado, e não resolvido. Diz esperar poder voltar a falar com o homem no futuro, “como um ser humano para outro ser humano”.

Um problema que ultrapassa este caso isolado

O episódio surge num momento em que o Japão enfrenta uma subida generalizada do custo de vida, um fator que tem sido repetidamente associado, em notícias recentes, a situações de desespero económico extremo. Casos como este reacendem o debate sobre a falta de redes de apoio social e de saúde mental disponíveis para pessoas em situação de grande vulnerabilidade financeira e emocional, e sobre até que ponto figuras como Otomo, que atuam de forma essencialmente voluntária e informal, acabam por preencher um vazio que deveria ser coberto por estruturas públicas mais robustas.

Se sentir que precisa de apoio, em Portugal pode contactar a linha SOS Voz Amiga através dos números 213 544 545, 912 802 669 e 963 524 660, disponível todos os dias entre as 16h00 e a 00h00.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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