
No Japão, pedir dias de baixa ao patrão tornou-se algo tão desconfortável para uma parte dos trabalhadores que já existe um mercado dedicado a fazer esse pedido por eles. O escritório de advogados Kawagoe Mizuho Law, sediado na prefeitura de Saitama, tem visto a procura pelo seu serviço de pedido de baixa por procuração, conhecido em japonês como kyushoku daiko, a disparar desde o início do atual ano fiscal, com uma média de cerca de 40 novos clientes por mês.
Este tipo de intermediação não é propriamente uma novidade no país. Há vários anos que existem empresas especializadas em taishoku daiko, ou seja, serviços que comunicam a demissão de um trabalhador diretamente à entidade patronal, evitando-lhe o desconforto de o fazer pessoalmente. Este fenómeno tem vindo a crescer de forma consistente desde 2017 e já levou várias empresas japonesas a melhorar salários e outras condições para tentar reter pessoal.
A cultura empresarial japonesa, historicamente associada à lealdade vitalícia a uma empresa, ajuda a explicar este tipo de procura. Segundo a Associated Press, Yoshihito Hasegawa, responsável pelo serviço de demissão por procuração Guardian, compara este processo a uma separação conturbada, imaginem um divórcio complicado, segundo a sua descrição citada pela AP através da AOL. O mesmo responsável associa ainda a resistência de muitos trabalhadores a sair de empregos infelizes a um sentimento de sacrifício pessoal em nome de um bem maior, tal como Hasegawa terá comparado os seus clientes a pilotos kamikaze da Segunda Guerra Mundial.
A Kawagoe Mizuho Law oferece o seu serviço de pedido de baixa há cerca de dez anos, mas só recentemente começou a registar este volume elevado de pedidos, um sinal de que a lógica que sustenta os serviços de demissão por procuração está agora a alastrar-se a situações em que o trabalhador não quer necessariamente sair da empresa.
Importa esclarecer que este serviço não serve para justificar um dia de folga para ir a um concerto ou a um evento desportivo. Os clientes da Kawagoe Mizuho procuram, sobretudo, ausências prolongadas do local de trabalho, muitas vezes relacionadas com problemas de saúde ou com responsabilidades familiares que precisam de ser geridas.
Nos casos ligados à saúde, incluem-se situações de stress psicológico e outras questões de saúde mental. É precisamente nestes casos que o recurso a um intermediário faz mais sentido, um trabalhador já fragilizado pode não ter energia para lidar com toda a burocracia associada ao pedido de baixa, e teme que uma resposta cética ou hostil da entidade patronal possa agravar ainda mais o seu estado psicológico.
Pedir baixa é bem mais complicado do que demitir-se
Ao contrário do que acontece com a demissão, em que a lei japonesa obriga a entidade patronal a aceitar a saída do trabalhador sem margem para veto, o pedido de baixa depende de uma negociação bilateral. Não existe legislação genérica que regule este tipo de ausência, critérios de elegibilidade, prazos, duração máxima e procedimentos de reintegração variam de organização para organização.
Isto torna o trabalho do agente responsável pelo kyushoku daiko significativamente mais complexo do que o de um agente de demissão. Enquanto este último se limita, na maioria dos casos, a transmitir uma decisão unilateral e a tratar de eventuais pendências como salários em atraso ou compensações por despedimento, o profissional que trata de um pedido de baixa precisa de negociar diretamente com a empresa, indo e voltando com propostas até se chegar a um entendimento. Para um trabalhador exausto ou sob elevado stress, delegar esta negociação num terceiro pode ser especialmente valioso, sobretudo quando a origem do desgaste é precisamente o superior hierárquico com quem seria necessário negociar.









