
Os dados do recenseamento de 2025 não deixam margem para dúvidas, o Japão está a encolher a uma velocidade sem precedentes. Segundo os resultados preliminares divulgados pelo Ministério dos Assuntos Internos e Comunicações japonês, a população do país atingiu os 123.049.524 habitantes a 1 de outubro do ano passado, uma queda de 3.096.575 pessoas face ao censo anterior, realizado em 2020. É o maior declínio registado desde que o recenseamento nacional começou a ser realizado, em 1920.
O mais preocupante não é apenas o número absoluto, mas o ritmo a que a queda se intensifica. Entre 2015 e 2020, a população tinha recuado 0,7%. Agora, entre 2020 e 2025, a taxa de declínio mais do que triplicou, para 2,5%. É a terceira vez consecutiva que o censo regista uma diminuição, tendo o primeiro recuo histórico ocorrido precisamente em 2015.
Para perceber a dimensão deste processo, basta olhar para o pico, em 2008, o Japão tinha 128 milhões de habitantes. Desde então, o país perdeu quase cinco milhões de pessoas, sem guerra, sem epidemia, apenas com nascimentos a ficar muito aquém das mortes.
Tóquio cresce, o resto diminui
Há uma exceção, ou antes, duas, neste quadro de declínio generalizado. Apenas as prefeituras de Tóquio e Okinawa registaram crescimento populacional durante este período. Tóquio ganhou 199.000 habitantes e chegou aos 14,24 milhões, enquanto Okinawa cresceu marginalmente em mil pessoas. As restantes 45 prefeituras perderam população.
O paradoxo é notável, mesmo prefeituras vizinhas da capital, como Kanagawa, Saitama e Chiba, que tinham crescido no censo anterior, inverteram agora a tendência. A Grande Área Metropolitana de Tóquio,— que engloba Tóquio, Kanagawa, Saitama e Chiba, cresceu para os 36,98 milhões de habitantes e concentra agora 30,1% da população total do país. É a primeira vez que ultrapassa os 30%, o que significa que praticamente um em cada três japoneses vive nessa região.
A prefeitura de Hokkaido registou a maior queda em termos absolutos, com menos 239.000 habitantes, seguida de Shizuoka (menos 164.000) e Hyogo (menos 141.000). Mais de 90% dos 1.719 municípios do país perderam população, o que ilustra bem a pressão que recai sobre as comunidades rurais e as cidades de menor dimensão.

Um país que desce no ranking mundial
Os resultados do censo colocam o Japão na 12.ª posição entre os países mais populosos do mundo, segundo estimativas das Nações Unidas, uma descida face ao 11.º lugar que ocupava anteriormente. O país foi ultrapassado pela Etiópia. Entre as 20 nações mais populosas, o Japão foi o que registou a queda mais acentuada no período 2020-2025, a par de China, Rússia e Tailândia, que também encolheram, mas em menor escala.
Comparando com 2010, quando a população atingiu o máximo histórico de 128,05 milhões, o Japão já perdeu cerca de cinco milhões de pessoas em apenas 15 anos.
O que explica este declínio
A causa estrutural é conhecida há décadas, a taxa de natalidade está muito abaixo do necessário para manter a população estável, que é de 2,1 filhos por mulher. O Japão tem uma das taxas de fecundidade mais baixas do mundo, e a proporção de idosos não para de crescer, cerca de 30% da população tem 65 anos ou mais, o que cria uma pressão crescente sobre os sistemas de pensões e de saúde.
O número de agregados familiares aumentou para 57,12 milhões, mais 1,29 milhões do que em 2020. Mas a dimensão média dos agregados caiu para 2,15 pessoas, o valor mais baixo desde que há registos, o que aponta para um aumento dos lares unipessoais, muitos deles compostos por idosos a viver sozinhos.
O número de residentes estrangeiros, que o ministério estima em cerca de 3,21 milhões, está bem acima do recorde anterior de 2,75 milhões registado em 2020, um sinal de que a imigração está a ganhar algum peso, mas ainda insuficiente para compensar a queda natural da população. James Raymo, professor de sociologia na Universidade de Princeton especializado no Japão, afirmou que o declínio não pode ser revertido no curto ou médio prazo sem imigração em massa.
Os resultados do censo deverão intensificar o debate em torno da escassez de mão de obra, da retração das economias locais e da sustentabilidade dos sistemas de proteção social, desafios que não são novos no Japão, mas que os números de 2025 tornam cada vez mais urgentes.









