
Um psiquiatra italiano radicado no Japão está a testar uma abordagem pouco convencional para tratar a depressão, sessões de aconselhamento psicológico em que o terapeuta aparece no ecrã sob a forma de um avatar de anime, com voz digitalmente alterada. O projeto, desenvolvido na Universidade Municipal de Yokohama, chama-se “aconselhamento baseado em personagens”, e a ideia por detrás dele é que a ficção pode ser precisamente o que falta para ajudar quem nunca conseguiria pedir ajuda de outra forma.
Francesco Panto cresceu na Sicília rural, onde admite ter sentido dificuldade em encaixar-se. Foi através do anime e dos videojogos que encontrou uma saída emocional, em particular no Final Fantasy, cujos protagonistas descreveu à AFP como figuras com as quais se identificava profundamente.
“O recurso ao mangá e ao anime apoiou-me muito… foram ferramentas de suporte emocional muito importantes”, disse Panto. “Crescer em Itália, na Sicília, havia estereótipos muito fortes em relação ao género e à autoexpressão. Mas quando tinha 12 ou 13 anos comecei a jogar um jogo chamado ‘Final Fantasy’… e eu identificava-me com os protagonistas. Eram tão masculinos e fixes, mas à sua própria maneira”.
Esse percurso pessoal está diretamente na origem do estudo-piloto que terminou em março de 2026. Durante seis meses, Panto e a sua equipa recrutaram 20 jovens com idades entre os 18 e os 29 anos com sintomas de depressão e ofereceram-lhes sessões de aconselhamento online conduzidas por um psicólogo que aparecia no ecrã como um avatar animado, com voz alterada digitalmente.
O “filtro da fantasia” e as seis personagens do estudo
Para o ensaio foram criadas seis personagens originais, cada uma baseada num arquétipo específico do mangá. A ideia era que os participantes pudessem escolher livremente com qual se identificavam mais. Entre elas estava uma figura materna, estável e de confiança, que empunha uma espingarda de assalto, e um personagem masculino emocionalmente perspicaz com aspeto de “príncipe” e que usava capa.
Cada personagem carregava também uma luta psicológica própria. Panto deu como exemplo Kuroto Nagi, uma das figuras criadas para o estudo: “É afetada por traços de personalidade bipolar”. Outras debatem-se com perturbação de stress pós-traumático, ansiedade ou problemas relacionados com o consumo de álcool. A instrução aos psicólogos era clara, contar a história da personagem no início da sessão, mas sem tornar os problemas de saúde mental demasiado explícitos. O objetivo era que os avatares fossem, acima de tudo, “divertidos”.
Panto acredita que este “filtro da fantasia” pode ajudar as pessoas a baixar a guarda e a reconhecer os seus próprios problemas, e espera que os resultados do ensaio confirmem essa hipótese.
Um dos participantes, de 24 anos, fã de anime e criador de jogos, explicou como foi atraído ao estudo pela descrição de uma das personagens, que estava alegadamente “à procura da verdadeira força”. “Fez-me sentir que poderia ajudar-me a aproximar da resposta para os meus próprios problemas”, disse. O mesmo participante, que não pode ser identificado pelo nome ao abrigo das regras do ensaio e cujos animes favoritos incluem The End of Evangelion e Girls Band Cry, afirmou que o anime lhe tinha dado a “vontade de viver, ao ver personagens cheias de vida enquanto trabalham arduamente para alcançar os seus sonhos”.

O estigma da saúde mental no Japão
O projeto insere-se num contexto mais amplo de crise de saúde mental entre os jovens japoneses. De acordo com dados do Fórum Económico Mundial, em 2022 apenas 6% da população japonesa tinha recorrido a aconselhamento psicológico para problemas de saúde mental, um número muito inferior ao registado na Europa e nos Estados Unidos, onde a taxa chegava aos 52%.
Mio Ishii, professora auxiliar que co-lidera o projeto, enquadra o estudo neste problema estrutural. “Há muitos jovens que não conseguem ir à escola ou continuar a trabalhar. Por isso, o nosso objetivo é dar-lhes… novas opções para recuperar das suas dificuldades”, afirmou, acrescentando que persiste um enorme estigma no Japão associado ao facto de se pedir ajuda.
O conceito japonês de ikizurasa, que designa a sensação de “dificuldade em viver, dificuldade em sobreviver na sociedade”, resume bem o tipo de sofrimento que o projeto procura endereçar.
Este ensaio faz parte de um projeto de investigação de dez anos da Universidade Municipal de Yokohama dedicado a desenvolver novas abordagens para as dificuldades que os jovens enfrentam.
Panto está também a ponderar se a terapia poderá ser prestada com recurso à inteligência artificial, sem a mediação de um psicólogo real.









