
A Pokémon Company confirmou, esta segunda-feira, que vai passar a exigir uma identificação oficial do governo japonês para a compra de determinados produtos do Pokémon Card Game. A medida, que entra em vigor a partir de agosto, junta-se a uma série de tentativas da empresa para travar a revenda descontrolada de cartas, um problema que já dura há vários anos e que tem afastado colecionadores e jogadores das lojas.
O anúncio, feito no site oficial do Pokémon Card Game no Japão a 13 de julho, torna definitivo aquilo que já vinha sendo estudado desde maio. Na altura, a empresa tinha admitido estar “a analisar a introdução” de um sistema de verificação de identidade, mas a conta oficial da Pokémon no Twitter/X já era mais assertiva, garantindo que a medida “vai ser mesmo implementada”. Agora, o comunicado confirma a decisão nestes termos:
“Obrigado pelo carinho e apoio ao Pokémon Card Game. No âmbito dos nossos esforços para garantir oportunidades justas a todos os clientes e um serviço seguro, protegido e agradável, estamos atualmente a preparar a implementação de um sistema de identificação que utiliza o My Number Card […] Este sistema de identificação vai recorrer à aplicação de Identificação Digital da Agência Digital”.
Na prática, quem quiser comprar determinados artigos através da Pokémon Center Online, a loja oficial da marca, vai ter de confirmar a sua identidade através da app de Identificação Digital, desenvolvida pela Agência Digital japonesa, um organismo que depende diretamente do gabinete do primeiro-ministro. Essa aplicação funciona em conjunto com o My Number Card, o cartão de identificação civil criado em 2016, que inclui nome, morada, data de nascimento, fotografia e um número de identificação pessoal único de 12 dígitos. Desde 2021 que o cartão inclui também um chip IC, que é precisamente o elemento que a app vai ler através da câmara do smartphone para confirmar a identidade do titular.
O processo passa por utilizar “um serviço externo para ler o chip IC do My Number Card através do smartphone e autenticar a conta do Players Club”, sendo que o número pessoal em si nunca chega a ser armazenado pela empresa. O objetivo declarado é impedir que uma mesma pessoa consiga contornar os limites de compra através de várias contas ou de scripts automáticos, algo recorrente entre os revendedores mais organizados.
O novo sistema não se vai aplicar a todas as compras. A identificação vai abranger sobretudo os produtos vendidos através de sorteios de acesso prioritário, alguns artigos de elevada procura disponíveis na Pokémon Center Online e ainda as inscrições em torneios oficiais realizados no Japão. Ou seja, continuará a ser possível comprar produtos comuns sem passar por este processo, pelo menos para já.
Ainda assim, a medida deixa de fora um grupo considerável de potenciais compradores. O My Number Card só é atribuído a residentes no Japão, sejam cidadãos japoneses ou estrangeiros com residência no país, o que significa que turistas em visita ao Japão ficam automaticamente impedidos de comprar os produtos abrangidos. Essa exclusão poderá até ser intencional, já que existe no Japão a perceção de que uma parte significativa dos revendedores é estrangeira, algo reforçado pelo facto de as cartas japonesas serem impressas exclusivamente em japonês e dificilmente utilizáveis em competições fora do país.
Também as crianças com menos de 15 anos ficam, em princípio, fora do sistema, uma vez que o My Number Card normalmente só é emitido a partir dessa idade. Na prática, isso não deverá alterar muito a forma como as crianças mais novas compram produtos, já que essas compras dependem quase sempre de um cartão de crédito de um adulto, pelo que o My Number Card de um dos pais poderá servir de identificação de substituição.
Mesmo entre os residentes no Japão, nem todos possuem atualmente um My Number Card. O documento não é obrigatório e uma parte da população continua a preferir outras formas de identificação, como a carta de condução, o cartão do seguro de saúde ou o cartão de residente estrangeiro, precisamente por reservas quanto à privacidade e à segurança dos dados pessoais. Nenhum destes documentos é compatível com a aplicação de Identificação Digital, pelo que quem não tiver o My Number Card físico ficará também impedido de utilizar este método de compra, a menos que trate da emissão do cartão, um processo que pode demorar entre um a dois meses.
O contexto que levou a este passo é conhecido de qualquer pessoa que tenha tentado comprar cartas de Pokémon nos últimos anos. O valor do mercado do Pokémon Trading Card Game cresceu mais de 145% entre março de 2024 e março de 2025, com compradores a gastar até 450 milhões de dólares num único mês. Cartas icónicas, como o Charizard da primeira coleção, chegam a ser vendidas por milhares de dólares no mercado secundário. O fenómeno tem gerado confrontos junto de lojas e máquinas de venda automática, com colecionadores a esgotar stocks em minutos apenas para revender os produtos pouco depois a preços muito superiores ao valor de venda original.
A ideia de recorrer à identidade oficial do Estado não surge isolada. A Pokémon Company já tinha explorado outras vias antes de chegar a esta solução, incluindo limites de compra por conta, sistemas de fila digital e acordos com plataformas de revenda para remover anúncios de produtos comprados em grandes quantidades. Nenhuma destas medidas se mostrou, porém, suficientemente eficaz para travar os grupos mais organizados, que recorrem frequentemente a dezenas de contas falsas e a bots para esgotar o stock em segundos.
Há ainda quem levante a questão de até onde este tipo de verificação poderá chegar no futuro. A Pokémon Company está inclusivamente a incentivar os fãs japoneses a ativar a aplicação com antecedência, por recear que o sistema fique sobrecarregado quando a exigência entrar em vigor em agosto. A publicação levanta ainda a possibilidade de o novo sistema vir a recorrer a um esquema de sorteio associado à própria aplicação, o que poderia significar o fim das longas filas junto às lojas Pokémon Center nos dias de lançamento.
Por agora, a Pokémon Center Online continua a vender uma vasta gama de produtos que não exigem qualquer identificação, incluindo peluches, brinquedos e outros artigos de merchandising sem barreira linguística nem restrições de utilização fora do Japão. Esses artigos também são, por vezes, alvo de revenda, o que deixa em aberto a possibilidade de a exigência do My Number Card vir a ser alargada no futuro a outras categorias de produtos.









