
A Valve quer que um tribunal de Nova Iorque acredite que proibir loot boxes do Counter-Strike 2 seria o mesmo que proibir os brinquedos surpresa do Happy Meal. É o argumento central de um documento de 42 páginas que a empresa submeteu esta semana como parte do seu pedido de arquivamento do processo movido pela procuradora-geral do estado de Nova Iorque.
A ação judicial foi apresentada em fevereiro de 2026 pela procuradora-geral Letitia James, que acusa a Valve de ter “ganho milhares de milhões de dólares atraindo os seus utilizadores, muitos dos quais são adolescentes ou ainda mais jovens, para o jogo de azar na esperança de ganhar objetos virtuais caros que podem trocar por dinheiro”. No processo, James compara a abertura de uma loot box de CS2 ao ato de rodar uma slot machine, uma animação com uma roda giratória que acaba por assentar num objeto selecionado aleatoriamente.
A procuradora pede ao tribunal que obrigue a Valve a pagar o triplo dos lucros obtidos com as loot boxes e que proíba a venda destas loot boxes a utilizadores em Nova Iorque.
O argumento da Valve – os cromos de basebol
Na sua resposta, a Valve rejeita a comparação com as slot machines e constrói o argumento a partir de uma premissa diferente, ao abrir uma loot box, o jogador recebe sempre exatamente uma skin, não perde nada, não “arrisca” nada no sentido legal do termo. Sem aposta, sem jogo de azar, segundo a lógica da empresa.
Para reforçar o ponto, a Valve argumenta ainda que as skins não constituem “algo de valor” ao abrigo da lei de jogo de Nova Iorque, já que nem a própria empresa nem o mercado do Steam os converte diretamente em dinheiro. E para mostrar o que aconteceria se o tribunal adotasse a lógica da procuradora, a empresa elaborou uma lista de produtos que, segundo ela, também teriam de ser proibidos:
- Pacotes de cromos de basebol
- Blind boxes Labubu
- Brinquedos em caixas de cereais
- Sacos surpresa em lojas de banda desenhada
- Brinquedos do Happy Meal
“Podem os pais comprar pacotes de cromos de basebol para os seus filhos? Podem as famílias ir ao Chuck E. Cheese jogar jogos de sorte e trocar as fichas ganhas por prémios? Pode uma criança meter a mão numa caixa de cereais e apanhar um brinquedo surpresa?”, questiona a Valve no documento.
A empresa acrescenta ainda que o parlamento estadual considerou, e rejeitou, regular este tipo de caixas mistério em várias ocasiões, o que, segundo a Valve, significa que a empresa não tinha razão para acreditar que estava a violar qualquer lei.
A Valve também alertou para o facto de uma decisão contrária “injetar incerteza em centenas de transações comerciais diárias”.

Um ano complicado para a Valve nos tribunais
Este não é o único processo legal que a Valve enfrenta em 2026. Em março, uma ação judicial separada exigiu que a empresa devolvesse “milhares de milhões” ganhos com as loot boxes do CS2. Além disso, um processo de cerca de 900 milhões de dólares, relacionado com os preços praticados na Steam avançou para julgamento pleno no Reino Unido depois de um tribunal ter rejeitado a tentativa da Valve de o arquivar em janeiro. Esse caso, apresentado em 2024 pela ativista de direitos digitais Vicki Shotbolt em nome de cerca de 14 milhões de utilizadores britânicos do Steam, acusa a Valve de abusar da sua posição dominante no mercado ao impor condições que impedem os editores de vender jogos mais baratos noutras plataformas.
O próximo passo no caso de Nova Iorque cabe ao gabinete da procuradora-geral, que terá de responder ao pedido de arquivamento antes de o juiz decidir se o processo avança ou não.








