
Um videojogo tornou-se tema de debate na Assembleia Nacional da Coreia do Sul. Call of Duty: Modern Warfare 4, cuja campanha retrata uma invasão norte-coreana, passou a ser citado por políticos da oposição como argumento nas críticas à política de segurança do Presidente Lee Jae Myung. O caso mais recente é o do deputado independente Han Dong-hoon, que recomendou publicamente ao chefe de Estado que jogue o jogo.
Antigo ministro da Justiça, Han Dong-hoon publicou a sugestão no Facebook a 23 de outubro, dia em que o jogo chegou ao mercado. Escreveu: “Recomendo que o presidente jogue este jogo e sinta em primeira mão o tipo de devastação que se desenrola quando a preparação da defesa fica aquém. Espero que a imagem de uma Seul reduzida a cinzas no jogo permaneça no domínio da ficção”.
O deputado reconheceu que se trata de ficção, mas defendeu que a história coloca uma pergunta pertinente. Escreveu que a invasão norte-coreana de 25 de junho de 1950 “foi uma realidade histórica” e que a ameaça militar norte-coreana “continua a ser muito real hoje”. Admitiu também a preocupação de quem teme que o jogo alimente a hostilidade contra a Coreia do Norte, mas considerou que a questão de fundo é saber se o país estaria preparado para uma nova invasão. A sua conclusão: “A segurança nacional não é uma questão de esperança, mas de preparação”.
A intervenção de Han Dong-hoon chega na sequência de outras. A 19 de outubro, durante um encontro com jornalistas, o Presidente Lee descreveu o arsenal nuclear norte-coreano como uma “arma defensiva de último recurso”, questionando se Pyongyang chegaria a usá-lo em combate. Han Dong-hoon criticou essas declarações e apontou o dedo a outras linhas da política do Governo, como a transferência antecipada do controlo operacional das forças em tempo de guerra de Washington para Seul e a redução dos exercícios militares conjuntos com os Estados Unidos.
Um dia depois das declarações do presidente, a 20 de outubro, o deputado Ahn Cheol-soo, do principal partido da oposição, o People Power Party, já tinha feito uma recomendação semelhante, sugerindo que mesmo ver imagens de jogo ajudaria a perceber as consequências de pressupostos de segurança que considera ingénuos. Também o pequeno Partido da Reforma entrou na conversa, ligando a guerra ficcional do jogo a um incidente recente na fronteira entre as duas Coreias, duas explosões de minas na Zona Desmilitarizada, a 21 de setembro, que feriram três soldados sul-coreanos, dois deles com gravidade. Segundo uma investigação conjunta das forças armadas sul-coreanas e do Comando das Nações Unidas, as minas eram norte-coreanas.
O tema chegou à auditoria anual da Assembleia Nacional, onde o ministro da Cultura, Choi Hwi-young, foi questionado sobre se o jogo deveria ser alvo de escrutínio governamental. A resposta foi direta: “Os jogos não estão sujeitos a censura prévia”. O ministro lembrou que a Constituição protege a liberdade de expressão.
Entre os deputados do partido no poder, o Partido Democrático, a reação foi mais descontraída. Kim Han-kyu publicou um vídeo a brincar com o nome do jogo e afirmou que os videojogos só devem ser regulados se violarem a lei. “Tendo em conta que tecnicamente ainda estamos sob um armistício, seria mais estranho se não existissem jogos sobre uma guerra contra a Coreia do Norte”, disse.
all of Duty: Modern Warfare 4 foi lançado a 23 de outubro para PC, PlayStation 5, Xbox Series X e S e Nintendo Switch 2. É desenvolvido pela Infinity Ward e a sua campanha passa-se numa guerra fictícia na Península Coreana, desencadeada por uma invasão em larga escala da Coreia do Norte. O jogador assume o papel de um jovem soldado sul-coreano, com combates que incluem cenas de guerra urbana em Seul. A história já tinha gerado debate no país, com algumas vozes a recear que o jogo aumente a hostilidade em relação ao Norte.









