Quando um filme anime estreia em primeiro lugar dos títulos mais vistos na Netflix no Japão logo no dia seguinte ao lançamento, e chega ao top 10 em países como a Coreia do Sul, Taiwan, Hong Kong, Tailândia e Vietname, o resultado fala por si. Cosmic Princess Kaguya! (Princesa Cósmica Kaguya! / Chō Kaguya-hime!), lançado a 22 de janeiro de 2026, é um sucesso por qualquer métrica que se queira usar. Arrecadou mais de 2,4 mil milhões de ienes nas salas japonesas, onde chegou apenas em fevereiro, e gerou uma onda de entusiasmo raro para um filme original, sem mangá por detrás, sem franquia estabelecida, sem rede de segurança.
E mesmo assim, parte do debate que o rodeia no Japão não é sobre o filme em si. É sobre o que a sua existência revela sobre o estado da indústria.
Cosmic Princess Kaguya! é uma reinterpretação do conto folclórico mais antigo do Japão, O Cortador de Bambu, transportado para um futuro próximo onde duas jovens se encontram num mundo virtual chamado Tsukuyomi. Iroha Sakayori é uma estudante do secundário que equilibra trabalho, escola e uma vida solitária desde a morte do pai. Kaguya é uma menina da Lua, irreverente e determinada a construir o seu próprio final feliz. Juntas, tornam-se parceiras numa espécie de torneio de streaming dentro deste universo digital.
O dirigido foi realizado por Shingo Yamashita, que até aqui era conhecido sobretudo pelas sequências de abertura de Jujutsu Kaisen (primeira temporada), Chainsaw Man e Urusei Yatsura, trabalhos que deixaram uma marca clara na cultura visual do anime recente. Cosmic Princess Kaguya! é a sua estreia como diretor de uma longa-metragem, e é produzido pelo Studio Colorido e pelo Studio Chromato, sob a alçada da Twin Engine.
A banda sonora é um dos elementos centrais do projeto, construída em torno de produtores da cena Vocaloid: ryo (supercell), kz (livetune), 40mP, HoneyWorks, Aqu3ra e yuigot. O tema principal, Ex-Otogibanashi, é interpretado por Saori Hayami, que empresta a voz à personagem Yachiyo Runami. O elenco inclui ainda Yūko Natsuyoshi como Kaguya e Anna Nagase como Iroha.
Cosmic Princess Kaguya! no habría sido posible sin el apoyo de Netflix
Es realmente triste que los problemas del arduo entorno de producción de anime en Japón se resuelvan con el dinero de empresas extranjeras. pic.twitter.com/iHdHKydUkW
— Z-Media (@NOONCHI_MEDIA) May 13, 2026
O problema que o sucesso não resolve
Foi numa entrevista televisiva recente que Kōji Yamamoto, presidente da Twin Engine, abriu o debate que muitos preferiam não ter. Yamamoto explicou, de forma direta, como funciona o sistema tradicional de financiamento do anime japonês, os chamados comités de produção, nos quais várias empresas, televisões, editoras, agências de publicidade, se juntam para dividir custos e diluir o risco. O modelo existe há décadas e tem uma lógica defensiva, se o projeto falhar, ninguém perde demasiado.
O problema é estrutural. Com este sistema, o orçamento é definido e congelado antes de as filmagens começarem. Se a meio da produção a equipa criativa decidir melhorar a qualidade de uma sequência de animação, a resposta é simples, não há como aumentar o financiamento. O dinheiro é o que é, e não muda.
A Netflix entrou nesta equação de forma diferente. O acordo de coprodução entre o Studio Colorido e a plataforma foi firmado em 2022, e é precisamente esse contrato que permitiu que Cosmic Princess Kaguya! existisse da forma como existe. Segundo o que foi reportado a partir da entrevista de Yamamoto, o orçamento aprovado pela Netflix foi 1,3 vezes superior ao que um comité de produção japonês tradicional teria disponibilizado, uma margem que, no contexto da indústria, representa uma diferença significativa em termos de liberdade criativa.
A Netflix não impôs uma visão externa ao projeto. Segundo Hirofumi Yamano, diretor de conteúdo da Netflix Japão, a plataforma divide o trabalho de promoção e distribuição com os parceiros japoneses, reconhecendo que “quando o Japão sabe mais sobre uma produção, deixamos o estúdio trabalhar nela e adaptamo-la ao país de distribuição”. Não é um modelo de controlo centralizado, é, pelo menos na teoria, uma parceria.

O que os fãs japoneses estão a sentir
O incómodo não é com o filme. É com o que o filme representa. Para muitos espectadores japoneses, o facto de um projeto desta qualidade só ter sido possível com dinheiro americano é, nas palavras de um utilizador que partilhou a entrevista de Yamamoto nas redes sociais, “uma notícia verdadeiramente triste”. A leitura é a de que a indústria doméstica não tem capacidade, ou vontade, de apoiar projectos originais com o mesmo nível de ambição que uma plataforma estrangeira.
O argumento estende-se a questões mais antigas, os salários baixos dos animadores japoneses, a precariedade dos estúdios independentes, a relutância dos investidores nacionais em financiar histórias sem uma base de leitores prévia, um mangá, uma light novel, uma propriedade já testada. Cosmic Princess Kaguya! não tem nada disso. É um original. E é precisamente por isso que, segundo esta leitura, nunca teria existido dentro do sistema tradicional.
A discussão levanta uma questão que a indústria anime tem evitado responder de forma direta, se os melhores projetos criativos do país só conseguem financiamento adequado quando uma corporação estrangeira decide apostar neles, o que é que isso diz sobre as prioridades do próprio Japão em relação à sua cultura?
A Netflix, entretanto, continua a apostar. Para além de Cosmic Princess Kaguya!, a parceria com a Twin Engine inclui The Ribbon Hero, baseado no mangá Princess Knight de Osamu Tezuka, com estreia prevista para agosto de 2026. O modelo está a funcionar, a questão é para quem, e a que custo.







