Não tenho a certeza se isto é apenas a nostalgia a falar ou uma recaída emocional provocada por décadas de videojogos, mas conduzir em Forza Horizon 6 pareceu-me uma viagem involuntária pela minha própria memória enquanto jogador, como uma rajada de pétalas de flores de cerejeira rosadas ao de leve levadas pelo vento enquanto deslizava de lado nas suas sinuosas curvas por este Japão virtual magnificamente recriado que despertou uma avalanche inesperada de referências da cultura pop. Mas como poderia não despertar!? A Terra do Sol Nascente é, há décadas, um dos pilares dos jogos de corridas.

Se, tal como eu, aprendeste a tirar a carta antes de conduzir com o primeiro Gran Turismo, vais adorar a seleção de carros japoneses disponível em Forza Horizon 6. Alguns são tão compactos, peculiares, ou do dia a dia, que parecem inclusões feitas quase por provocação ou referência aos jogadores. Quem jogou verdadeiro simulador da condução na saudosa PlayStation original, sabe que o trovão escarlate conhecido como Mitsubishi GTO twinturbo era um dos melhores carros que os nossos créditos podiam comprar. Da mesma forma, quem cresceu a jogar Sega Rally Championship 1995 nas Arcadas e SEGA Saturn dificilmente ficará indiferente quando descobrir que o Toyota Celica GT-Four também é um dos três carros iniciais, pensem como se fossem a escolha de um trio Pokémon inicial, Posso também confirmar que o lendário Lancia Delta também marca a sua presença.

Mesmo para quem não é conhecedor de automóveis, certamente vai encontrar algo neste Japão virtual que lhe vai causar uma sensação constante de déjà vu. Percorrer as vias rápidas da expansão urbana remete imediatamente para diversos clássicos como Tokyo Highway Challenge da SEGA Dreamcast ou a festiva pista final de Ridge Racer Type-4 na PlayStation Original. As estradas nas montanhas também são puro fanservice para qualquer fã de anime ou cultura japonesa, porque sejamos honestos, é impossível conduzir por estas estradas sinuosas sem pensar num Toyota AE86 com pintura branca e preta a passar por nós em drift como se tivesse acabado de sair diretamente de Initial D.

Esta é verdadeira força de Forza Horizon 6 e como a Playground Games quer que os jogadores se sintam. O prólogo coloca-nos imediatamente ao volante de um Nissan GT-R Nismo 2024 enquanto atravessamos estradas cobertas por pétalas de sakura, e saltamos de veiculo em veiculo, rodeadas por campos floridos acompanhados por um shinkansen a toda a velocidade. É uma introdução extremamente cinematográfica e deixa logo claro que a ambição do estúdio é transformar o Japão no maior e mais ambicioso parque de diversões automóvel da história da série.

A verdade é que consegue. Durante anos, o Japão foi um dos cenários mais pedidos pelos fãs de Forza Horizon, não só pela cultura automóvel japonesa, como também porque o país encaixa de forma quase perfeita na identidade arcade e festiva da série. A Playground Games, Xbox Game Studios, e os Turn 10 Studios aproveitaram este elemento ao máximo para criarem uma versão condensada da ilha de Honshu recheada de cidades gigantescas, autoestradas intermináveis, montanhas cobertas de neve, aldeias rurais, arrozais, zonas costeiras e estradas sinuosas inspiradas nos famosos “Touge”, travessias de montanhas japonesas. O resultado aproxima-se muito daquela fantasia automobilística que tantos jogadores imaginavam desde os tempos de Need for Speed Underground, Tokyo Highway Challenge, ou até do anime Initial D.

Existem vários momentos onde Forza Horizon 6 parece quase uma fusão entre Forza Horizon 5, Need for Speed Heat e Midnight Club: Los Angeles, sobretudo nas corridas noturnas em Tóquio. Pela primeira vez na série, as empresas apostam verdadeiramente numa metrópole moderna e muda completamente a dinâmica da condução. Enquanto as áreas rurais mantêm uma sensação clássica de liberdade arcade pela qual a série Forza Horizon ficou conhecida, Tóquio aproxima-se muito mais da experiência urbana do trio de jogos referidos. As corridas tornam-se mais apertadas, agressivas e rápidas e obrigam a travagens fortes, acelerações curtas e muita atenção ao trânsito.

No entanto, esta Tóquio virtual não é perfeita. Apesar da escala impressionante e da atenção ao detalhe em locais inspirados em Shibuya, Akihabara ou na célebre Tokyo Tower, a cidade não transmite totalmente a sensação de vida que encontramos, por exemplo, no controverso The Crew Motorfest. O trânsito continua relativamente reduzido, algumas ruas parecem demasiado largas e certas zonas acabam por soar artificiais. Contudo, há que reconhecer que este é um excelente primeiro passo e mostra claramente que a Playground Games quis sair da sua zona de conforto.

O mais interessante é que o Japão não serve apenas como pano de fundo visual. A sua produção integrou vários elementos diretamente ligados à cultura automóvel japonesa. Além impressionantes corridas contra um mecha, os desafios “Touge” são provavelmente o melhor exemplo. Estas corridas de um contra um decorrem em estradas de montanha repletas de curvas sinuosas, mudanças bruscas de elevação e secções perfeitas para o drift, que fazem imediatamente lembrar outros jogos como Initial D Arcade Stage, Wangan Midnight Maximum Tune ou até alguns mods criados pela talentosa comunidade em Assetto Corsa. Também existem referências claras à cultura tuning japonesa através de locais inspirados em Daikoku Parking Area na Shuto Expressway, onde os jogadores podem reunir-se online para mostrar carros personalizados e interagir.

Outra das grandes novidades passa pela introdução de circuitos profissionais fechados diretamente integrados no mapa. Esta abordagem aproxima Forza Horizon 6 de experiências mais técnicas e próximas das séries Forza Motorsport ou Gran Turismo. Estes circuitos oferecem curvas mais exigentes, mudanças de elevação e percursos que incentivam os jogadores a memorizar trajetórias e pontos de travagem para criar uma sensação muito mais próxima da competição tradicional. Pela primeira vez, a série parece verdadeiramente encontrar uma ponte entre a sua vertente arcade com a exigência de um simulador automóvel.

Apesar de todas estas novidades, o verdadeiro coração de Forza Horizon 6 continua a ser a condução pura e dura. A física arcade mantém-se extremamente acessível e divertida, mas existe agora um pouco mais de profundidade para quem quiser explorar configurações avançadas que incluem o desgaste natural dos pneus e algumas opções inspiradas em simuladores, tais como afinar motores ou suspensões. Certamente que o jogo não atinge o nível de realismo de Assetto Corsa Competizione, ou dos célebres, iRacing ou rFactor 2, mas continua provavelmente a ser o melhor equilíbrio entre acessibilidade e profundidade que existe atualmente nos jogos de corridas.

O trabalho realizado nos carros continua igualmente impressionante. Cada veículo transmite personalidade própria, os interiores estão repletos de detalhe. Os motores têm impacto, por vezes um pouco exagerado em alguns modelos, os túneis ecoam de forma convincente e os rebentamentos do escape soam muito mais agressivos. As marcas japonesas como Toyota, Honda, Nissan, e Subaru, assumem naturalmente um enorme protagonismo neste capítulo, mas fiquem descansados que existe variedade suficiente para agradar praticamente a qualquer fã de automóveis de qualquer parte do globo terrestre, desde supercarros e muscle cars até clássicos japoneses, carros de rally ou modelos retro, tais como carrinhas de entregas.

O conteúdo disponível em Forza Horizon 6 é simplesmente gigantesco. Existem mais de 500 carros para colocar na nossa garagem, mais de 90 eventos para participar, centenas de estradas para descobrir, colecionáveis espalhados pelo mapa na forma de mascotes para destruir, e dezenas de atividades secundárias para interagir. Poucos jogos atuais do género conseguem competir com tal escala. Nem Need for Speed Unbound, nem Test Drive Unlimited Solar Crown, nem até o controverso The Crew Motorfest ofereceram uma quantidade tão absurda de conteúdo logo no lançamento, acho que só mesmo Gran Turismo 7 chegou perto deste registo.

Contudo, existe outro enorme atrativo em Forza Horizon 6 que, apesar de não ser propriamente uma novidade na série, encaixa de forma perfeita nesta nova realidade, a cultura itasha. Quem se lembra dos tempos de Forza Motorsport 2 na XBOX 360 certamente terá memórias de colocar o DVD do jogo na consola, e esperar na “Auction House” até às 16:00, 00:00 no Japão, na tentativa de conseguir a compra (buy out) dos inúmeros designs criados pelos incrivelmente talentosos jogadores japoneses que podem e continuam a ser criados através de um robusto conjunto de ferramentas no editor.

Para quem não conhece o conceito, itasha, é um termo japonês utilizado para descrever automóveis decorados com personagens de anime, mangá, videojogos ou outras referências da cultura Otaku. A palavra resulta de um trocadilho entre ita (痛), que significa “dor”, e sha (車), “carro”. O nome surgiu de forma humorística, quer pelo visual extravagante e exuberante destas criações como pelos custos frequentemente absurdos associados às modificações. Os itasha costumam recorrer a enormes vinis com personagens icónicas, acompanhados por esquemas de cores vibrantes, jantes personalizadas, interiores temáticos e acessórios exclusivos, tais como figuras. Em muitos casos, deixam de ser simples veículos para se transformarem em autênticas homenagens ambulantes a uma personagem, anime ou série favorita.

Em Forza Horizon 6 já não precisam de esperar pelas 16:00 em Portugal Continental, nem gastar milhões de créditos numa coleção de Nissan Fairlady Z, porque era um dos modelos preferidos da comunidade, devido às suas proporções perfeitas para trabalhos de vinil detalhados. Tal como em alguns dos seus antecessores, todos os designs estão praticamente ao alcance de todos os jogadores e disponíveis de forma gratuita, o que funciona como uma ponte perfeita entre a cultura automóvel japonesa, o universo otaku e a comunidade de Forza. Confesso que este detalhe me atingiu novamente no nostálgico. Percorri centenas de quilómetros em Forza Motorsport 2, devido ao simples facto de estar aos comandos de um itasha inspirado em Tengen Toppa Gurren Lagann ou Hayate no Gotoku!, um dos meus animes de comédia favoritos daquela geração.

No entanto, com tanta nostalgia também reside um problema inevitável, a fórmula já não surpreende da mesma forma. Quando Forza Horizon 3 chegou à Austrália e Forza Horizon 4 introduziu as estações ambientais dinâmicas, existia uma clara sensação de evolução. Aqui, apesar do Japão ser fantástico, muitos sistemas continuam demasiado familiares. Os menus, a progressão, a estrutura das atividades e a filosofia geral do jogo parecem extremamente semelhantes aos episódios anteriores, apesar de uma forte identidade visual dominada pelas cores verde e magenta. É um pouco daquilo que acontece com algumas séries de enorme qualidade, com o passar do tempo a fórmula deixa de causar o mesmo impacto.

O mesmo não podemos dizer o seu perfil técnico, porque visualmente, Forza Horizon 6 é provavelmente o jogo de corridas mais impressionante da atualidade. Mesmo sem Ray Tracing, os cenários e veículos apresentam um nível de detalhe extraordinário. A Playground Games voltou a apostar em texturas de elevada qualidade e pequenos elementos destrutíveis no ambiente, tais como arbustos e plantas que se dobram com a passagem dos carro e reforçam a sensação de imersão.

Este requinte visual é apenas conseguido devido ao cuidado que a produção colocou nas suas opções gráficas para a versão PC. Os jogadores podem ajustar a qualidade das texturas, iluminação, reflexos, nível de detalhe dos carros, geometria do ambiente e muitos outros parâmetros. O jogo suporta RTGI e reflexos com Ray tracing, além de tecnologias de SuperSampling, NVIDIA DLSS 4, AMD FSR 3.1 e Intel XeSS (não especifica versão, mas assumo se tratar de uma da branch 2.xx).

Em 4K nativo com todas as opções gráficas em “Extreme Personalizado”, definições que vão além do preset mais elevado, a nossa build equipada com um processador AMD Ryzen 7 9800X3D, 64 GB de memória RAM a 6000 MHZ, unidade NVMe, e uma placa gráfica NVIDIA RTX 5090 conseguiu manter 60 FPS praticamente estáveis com o Ray Tracing ativado, algo raro em jogos modernos com esta tecnologia avançada de efeitos de luz. Os cenários ganham um aspeto mais natural, com melhor propagação da luz e ambientes bastante mais credíveis. Caso o vosso hardware o permita, ativar pelo menos o RTGI é altamente recomendado, porque as superfícies espelhadas e metálicas dos carros dão um requinte natural ao jogo.

Com NVIDIA DLSS 4 em modo Qualidade, o jogo consegue atingir a 90 a 114 FPS em 4K com definições máximas e efeitos Ray Tracing ativados. Por alguma estranha razão o jogo não suporta a tecnologia NVIDIA DLSS 4.5 nativamente por isso tentei adicioná-la manualmente no jogo através NVIDIA App, mas, nem sequer apareceu na lista, por isso os perfis avançados de segunda geração, nomeadamente, “J”,“K”, “L” e “M” da NVIDIA DLSS 4.5 não ficam ativos, apesar dos drivers “game ready” mais recentes terem como destaque Forza Horizon 6. Apenas consegui este efeito através de uma ferramenta de terceiros conhecida como DLSS Swapper.

É realmente impressionante a qualidade da implementação do ray tracing no jogo. Mesmo com geração agressiva de frames, os artefactos visuais são praticamente impercetíveis e a latência mantém-se bastante reduzida, algo extremamente notório em jogos de condução. Os controlos continuam extremamente precisos, mesmo quando conduzi a mais de 260 km/h e virei numa curva a apertar o travão de mão. Não testei Forza Horizon 6 noutros sistemas, ou configurações, mas tudo me leva a crer que este é um jogo extremamente otimizado, Apesar de, em alguns momentos, apresentar um consumo de processamento invulgarmente elevado neste género de jogo, não notei um único caso de transient stutter, algo que infelizmente é comum no sistema, ao longo de todo o jogo, nem durante a navegação nos menus, nem nas corridas, nem sequer nas zonas mais exigentes com trânsito Qb e em elevada velocidade. O único inconivente que encontrei com Forza Horizon 6 foi o erro “E-17” que se deveu por ter executado anteriormente com script para remoção de processos, aparentemente, inofensivos para o Windows 11 que não teriam impacto a executar jogos, tais como retirar o spool de impressão e serviços de telemetria, mas não sei o mesmo aconteceria com a versão PC (Steam) porque a versão analisada foi a XBOX Play Anywhere, e aparentemente, a aplicação exige dependências do próprio Windows.

No que diz respeito à componente sonora, Forza Horizon 6 reforça fortemente a sua identidade japonesa através de várias rádios temáticas. Para além de uma estação inteiramente dedicada ao J-Pop, com diversos artistas e bandas conhecidas, tais como YOASOBI, Ado, Yellow Magic Orchestra e Creepy Nuts, célebres nesta parte do mundo devido à incrível primeira abertura de Dandadan, o jogo distribui o restante alinhamento musical por mais seis rádios com estilos bastante diferentes. Entre as quais encontramos nomes sonantes como Linkin Park, BABYMETAL, Rise Against, ONE OK ROCK e Public Enemy, para criar uma mistura sonora surpreendentemente variada que encaixa perfeitamente quer nas corridas urbanas noturnas como nas longas viagens pelas estradas montanhosas do Japão acompanhados pelo GPS “Anna”. Algo também que merece ser salientado, é o facto do jogo incluir textos totalmente localizados em Português do Brasil e Português de Portugal. Pode parecer um detalhe menor e até sem grande importância porque continua a ser uma raridade na indústria, especialmente fora do ecossistema da Sony Interactive Entertainment, que historicamente sempre demonstrou um cuidado especial com a localização para o público português.

As equipas dos Xbox Game Studios, Turn 10 Studios, e Playground Games podem não ter revolucionado completamente uma fórmula, mas conseguiram refiná-la até um nível quase absurdo!

Forza Horizon 6 pega numa base estável e consegue a proeza de a elevar praticamente em todos os seus elementos, nomeadamente condução, variedade, mundo aberto, atmosfera, e conteúdo a um patamar de qualidade raramente visto no género. É impossível negar o que Forza Horizon 6 representa atualmente e para o futuro dos jogos de corridas. Estamos perante um verdadeiro colosso do género, um título que muito provavelmente irá dominar as pistas durante muitos anos e servir como nova referência da indústria no equilíbrio entre qualidade, quantidade e espetáculo técnico.

Mais do que apenas um excelente jogo de corridas, Forza Horizon 6 estabelece-se como uma espécie de régua medidora para o futuro do género e ser referido nas inevitáveis comparações com tudo o que surgirá. 

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