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Kadokawa culpa excesso de anime isekai pela queda nos lucros

Isekai saturou o mercado e a Kadokawa vai mudar de estratégia, o que isso significa para o anime e mangá

Kadokawa visual 2026 relatório

A Kadokawa, um dos maiores grupos de media do Japão e responsável por publicar algumas das franquias anime e light novel mais populares do mundo, fechou o ano fiscal de março de 2026 com uma quebra de 51,3% no lucro operativo face ao ano anterior. O pior desempenho veio precisamente do negócio que está no coração da empresa, a publicação e criação de propriedade intelectual, que registou uma queda de 51,6% no resultado operativo.

A causa, segundo a própria empresa, não é apenas conjuntural. No plano de gestão a médio prazo para o período entre 2026 e 2031, recentemente divulgado, a Kadokawa aponta a “dependência excessiva de padrões vencedores já estabelecidos” como um dos principais fatores para a deterioração dos resultados no setor editorial.

O isekai como sintoma

Em termos concretos, a empresa reconhece uma tendência sistemática para privilegiar “géneros comprovados”, especificamente o isekai e o narou-kei, que acabou por conduzir à saturação do mercado e a uma rentabilidade progressivamente pior por título publicado. Para quem não está familiarizado com o jargão: isekai (literalmente “outro mundo”, em japonês) é o género em que o protagonista é transportado ou reencarnado num mundo de fantasia. O narou-kei refere-se a títulos com origem na plataforma de web novels Shōsetsuka ni Narō, que popularizou muitas das fórmulas que definem o isekai moderno.

Em 2025 estrearam entre oito e dez títulos isekai por temporada de anime, representando quase um quarto de toda a programação. Entre 70 e 85% desses títulos tinham origem em light novels publicadas originalmente na plataforma Narou. O domínio do género é inegável e é precisamente isso que a Kadokawa identifica como problema.

De acordo com o relatório da empresa, a aposta repetida nas mesmas fórmulas foi impedindo o negócio editorial doméstico de explorar géneros novos ou de abraçar projetos mais inovadores, com consequências diretas na qualidade e diferenciação do catálogo.

Mais editores, pior resultado

A situação foi agravada por uma tentativa de resolver o problema pelo volume, a Kadokawa contratou mais editores com o objetivo de aumentar o número de títulos publicados sem sobrecarregar as equipas existentes. O resultado foi o oposto do esperado, um aumento de títulos sem originalidade nem qualidade, o que diluiu ainda mais a rentabilidade por obra.

Para corrigir o rumo, a empresa vai apostar na reconstrução da sua “estratégia de géneros” e implementar critérios mais rigorosos na aprovação de novos projetos. Em novembro de 2025, foi criada a Publication Steering Committee, um organismo interno dedicado a implementar “reformas estruturais fundamentais” no negócio editorial.

Kadokawa abre programa de reforma antecipada para funcionários com 45 anos ou mais

Saídas antecipadas e diminuição da estrutura

Paralelamente à viragem editorial, a Kadokawa anunciou um programa de reforma antecipada para funcionários. A partir de 1 de junho de 2026, a empresa vai solicitar saídas voluntárias a colaboradores com 45 anos ou mais e pelo menos cinco anos de serviço. Quem aceitar receberá um complemento de indemnização para além do valor regular, bem como apoio opcional à recolocação profissional. O objetivo declarado é construir “uma estrutura organizacional mais ágil e eficiente”.

A ironia do momento não passa despercebida, o isekai continua a dominar os calendários de anime da primavera de 2026, com Re:Zero 4 e That Time I Got Reincarnated as a Slime 4 entre os títulos em exibição, ambos publicados pela Kadokawa. O género que a empresa identifica como parte do problema continua a ser, paradoxalmente, uma das suas principais fontes de visibilidade internacional.

O que muda a partir de agora é a seletividade, a Kadokawa não vai abandonar o isekai, mas quer parar de publicar isekai por defeito.

Helder Archer
Helder Archer
Fundou o OtakuPT em 2007 e desde então já escreveu mais de 60 mil artigos sobre anime, mangá e videojogos.

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